A Vida e o legado de Conrad Veidt: O Alemão que conquistou a América

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Conrad Veidt pode ser um nome desconhecido por boa parte dos cinéfilos atuais. Porém, ele foi um dos atores de maior destaque entre as décadas de 20 e 40. Não fosse sua partida precoce, aos 50 anos, talvez hoje em dia fosse mais lembrado. Suas feições marcantes e forte expressão contribuíram para designarem-no para papéis de vilões e assassinos. Diferente de seus personagens, ele era conhecido, porém, por sua extrema generosidade e luta contra o nazismo. Vamos conhecer um pouco mais de sua história.

 Hans Walter Conrad Veidt nasceu em 22 de janeiro de 1893. O local do nascimento não é certo. Algumas fontes citam Berlim, outras Brandemburgo. Mas o certo é que ele cresceu em bairros pobres de Berlim. Não era um aluno exemplar, e em 1912 abandonou os estudos para se dedicar ao teatro. No período apareceria em peças, sendo a de maior destaque The Doctor’s Dilemma, encenada no Teatro Detsches em Berlim.
Der Weg des Todes, 1916

A grande guerra interrompeu sua carreira durante dois anos. Recrutado para o exército alemão, contraiu icterícia e foi afastado definitivamente em 1916. Pode então retornar aos palcos, onde aprendeu técnicas e se desenvolveu como ator. Este ano marcou também uma mudança significativa em sua vida, quando, por motivos financeiros, resolveu apostar também em filmes. E apesar de amar os palcos, o cinema definitivamente tomaria conta de seus dias. A estréia veio com Der Weg des Todes.

Em 1919 ele estava presente em Diferente dos Outros / Anders als die Andern. Dirigido por Richard Oswald, o filme foi o primeiro a falar abertamente sobre os direitos dos homossexuais, ao focar na história do violinista apaixonado por um de seus alunos. Eram tempos difíceis, e todas as cópias foram destruídas pela censura alemã em 1920. Existe hoje em dia somente uma cópia com diversos cortes.

Diferente dos Outros (1919)

 

Em O Gabinete do Dr. Caligari / Das Kabinett do Dr. Caligari (1921), de Robert Wiene, interpreta um sonâmbulo Césare. Foi o seu papel de grande destaque naquele que é considerado o maior clássico do expressionismo. Impressionando mais uma vez pela entrega ao personagem, Conrad firmou-se definitivamente como profissional, e teve seu nome reconhecido no país. Tornou-se um dos dois atores mais pagos da Alemanha, ficando atrás somente de Emil Jannings. A obra também deu início a uma série de personagens carregados de tensão.

Destacam-se também suas participações em As Mãos de Orlac / Orlacs Hände (1924) e Figuras de Cera / Das Wachsfigurenkabinett(1924).
O Gabinete do Dr. Caligari (1921)

Em 1926, Conrad conheceu o ator americano John Barrymore. Este o convidou para visita-lo em Hollywood, e quem sabe tentar a sorte em terras americanas. Ele foi muito bem recebido e logo acolhido por compatriotas como Paul Leni e Ernst Lubitsch. Com os devidos contatos, Conrad conseguiu um contrato de dois anos com a Universal.

O papel de maior destaque nesse período foi em O Homem que Ri / The Man Who Raughs (1928), de Paul Leni. Na película que tem elementos do expressionismo alemão, ele interpreta magistralmente Gwynplaine, um homem que sofreu uma intervenção na infância, e teve seu rosto desfigurado. Ficou, assim, com a aparência de alguém com um eterno sorriso no rosto. Infeliz, apaixona-se por sua colega Dea (Mary Philbin). Com a sua caracterização, ficava claro que o ator estava à altura de rivalizar com o grande Lon Chaney. Uma curiosidade: Gwynplaine acabou servindo de inspiração para o personagem Coringa.
O Homem que Ri (1928)

Porém, como seu inglês era precário e seu sotaque forte, teve poucas chances naquele momento. Preferiu partir para uma carreira na Inglaterra, naturalizando-se inglês. Na Alemanha, participou de Das Land ohne Frauen (1929) o primeiro filme falado do país. A chegada do nazismo traria grandes consequências para sua vida. Após fazer uma participação na  produção inglesa O Judeu Suss / Jew Suess (1934), se tornou uma persona non grata em sua terra natal. O ator foi ameaçado e chegou a ser preso. Temendo represálias, partiu com sua segunda esposa para a América. Sua filha Viola, e sua ex-esposa partiram em segurança para a Suíça. Ele jamais voltaria a vê-las.

Sua segunda fase no país trouxe alguns trabalhos de destaque em noirs: The Spy in Black “, ” Contraband ” e ” Dark Journey ” são alguns deles. A aventura O Ladrão de Bagdá / The Thief of Bagdad (1940) foi o único trabalho em cores que ele realizou. Trazendo no elenco June Duprez, Sabu e Rex Ingram, o filme foi um enorme sucesso de público e ganhou três óscares: Melhor Direção de Arte, Fotografia e Efeitos Especiais.
O Ladrão de Bagdá (1940)

Casablanca foi a grande surpresa de 1942. O grande clássico de Michael Curtiz, trazia no elenco nomes como Humphrey Bogart, Paul Henreid, Claude Rains, Peter Lorre e Ingrid Bergman. A obra que mostra a tensão de um homem que deve escolher entre o amor e a razão, venceu na categoria de Melhor Filme.  Conrad interpreta o major Heinrich Strasser. Segundo o ator, “o personagem simbolizava a crueldade e os instintos criminosos dos assassinos nazistas”.

Casablanca (1942)

 

Conrad certa vez falou sobre como trabalha seus personagens:

“Quando recebo um novo papel, pego primeiramente o roteiro e o leio diversas vezes. Me infecto totalmente com ele. Dias depois, retiro-me e me concentro no que vem pela frente. Muito em breve começo a me sentir como o personagem que vou retratar. Me transformo nele.”

 

Os amigos eram unânimes ao dizer que, apesar de interpretar grandes vilões, ele era um homem pacato, modesto e calmo.  No início da década de 40, o ator desfrutava de boas relações e amplo sucesso na América. Teria, sem dúvidas, uma longa carreira. Porém, foi com surpresa que todos receberam a notícia de sua repentina morte em 3 de abril de 1943. O ator estava jogando golfe, um de seus hobbies preferidos, quando sofreu um ataque cardíaco. Tinha apenas 50 anos.

Como resultado de uma forte campanha contra seu nome, sua ex-esposa e filha só souberam de sua morte algum tempo depois, pelo rádio. Suas imagens foram banidas durante um bom tempo e somente nos anos 70 seu nome voltaria a ser lembrado com o relançamento de alguns de seus filmes.

 

Fontes: IMDBThe life and legacy of Conrad VeidtThe Story of Conrad VeidtBio of Conrad VeidtVeidt by his ContemporariesConrad VeidtFindagrave.

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