Louise Brooks, uma Mulher à frente de seu tempo

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No final de sua vida, Louise Brooks achava que era uma fracassada. Ela não entendia, mas era uma mulher à frente de seu tempo. Lançando moda, desafiou os poderosos, e foi jogada para fora do cinema aos 30 anos de idade.

 

Mary Louise Brooks nasceu em Cherryvale, Kansas, em 14 de novembro de 1906. Foi a segunda de quatro filhos do casal Myra e Leonard. Myra passara toda a vida cuidando de seus nove filhos. Após casar-se, anunciou ao marido que não tinha intenção de abrir mão de sua liberdade para criar mais crianças. Seus quatro filhos foram criados livres, e desde cedo incentivados a tomarem suas próprias decisões. Myra também foi a responsável por aguçar a sensibilidade artística de Louise. Tocava piano magistralmente e Louise desenvolveu o amor pela leitura e a dança.

A pequena Louise

A infância de Louise acabou de maneira drástica. Aos nove anos de idade ela foi estuprada por um vizinho. Mais tarde, ao contar sobre o acontecimento à mãe, esta colocou a culpa na filha, dizendo-lhe que ela incentivara o homem. Talvez esteja aí a raiz para o comportamento futuro de Louise. Raramente a garota iria se entregar a uma relação.

 

Primeiros Tempos

Uma muito jovem Louise Brooks

Aos 10 anos Louise fazia apresentações de dança em alguns festivais e aos 15 era uma bela moça, chamando a atenção por onde passava. Já usava o corte que a consagraria, pois achava que seu pescoço deveria estar à mostra. E foi nesta idade que ela partiu para Los Angeles Lá chegando, fez uma audição para o Denishawn Dancers, um grupo especializado em dança moderna e experimental criado por Ruth St. Dennie e Ted Shawn em Los Angeles. Passou no teste e passou a viajar com o grupo por todo o país.

No Denishawn Dancers. Louise é a terceira em pé.
No Denishawn Dancers, 1920’s

A dança exigia além do talento, uma dose de concentração e dedicação. Pouco tempo depois, Louise sentia-se exausta de toda a rotina. Em 1924 saiu do grupo após uma grande discussão com o criador. Pedindo dinheiro emprestado, retornou à Nova York, entrando para o coro George White’s Scandal e posteriormente para o Ziegfeld Follies. Seu espírito livre muitas vezes era confundido com irresponsabilidade por alguns membros do grupo. Nesse período começaram a circular fotos em que a dançarina posava nua. Apesar dos problemas enfrentados, foi o Ziegfeld Follies que lhe deu a visibilidade que precisava. Em 1925 chamou a atenção do produtor Walter Wanger, e faria sua primeira participação no filme The Street of Forgotten Men.

Mas mesmo assim ela assinou um contrato de cinco anos com a Paramount Pictures, mudando para Hollywood. Não eram tempos fáceis. A cidade onde rodavam-se os filmes respirava cinema e parecia um deserto à noite.

 

Uma Estrela de Cinema

Louise Brooks

Louise trabalhou com jovens diretores, aparecendo em filmes como The American Venus (1926), A Social Celebrity (1926) e The Show Off (1926). Nesse período a atriz fez amizades com vários artistas. Visitar a casa de Marion Davies e seu amante William Randolph Hearst era um de seus passatempos preferidos. Seu cabelo também virou moda e várias colegas como Coleen Moore passaram a imitar seu estilo.

Foi sua participação em A Girl in Every Port (1928), dirigido por Howard Hawks que chamou a atenção na Europa. No filme ela interpreta uma garota amoral, uma vamp.  Em 1928 cinema estava passando por sua grande transformação, com a chegada dos falados. Muitos artistas perderam seus postos, mudando radicalmente o cenário e cortando salários de boa parte deles. E foi exatamente nesse momento, enquanto estava filmando The Canary Murder Case,  que a atriz resolveu pedir um aumento substancial. Ela entendia que sua popularidade estava em alta.  Porém, B. P. Schulberg, chefe da Paramount lhe disse que não daria o aumento devido às dificuldades financeiras, e apresentou duas alternativas para ela: ou continuar com o salário ou sair. Para sua surpresa, Louise preferiu sair. Ela havia recebido um convite de Georg Wilhelm Pabst.

O teor de Caixa de Pandora (1929) era forte: sexualidade, traição, assassinato, forte tensão sexual. Tais itens fizeram com que fosse censurado durante várias décadas em alguns países. O que vemos é um erotismo bem explorado: uma mulher moderna e sexualmente livre, em consonância com a moda dos anos 20 e naturalmente sensual. Pabst viu em Louise sua Pandora. Seria a primeira de suas três participações em filmes alemães. Seguiram-se Diary of a Lost Girl (1929) e Miss Europa (1930, sendo dirigida por Augusto Genina).

Assistindo aos dramas, percebemos o quanto Louise dominava as telas, se tornando um dos maiores símbolos do cinema mudo e de resistência. Era uma mulher à frente do seu tempo. Mas um pedido posterior para que dublasse The Canary Murder Case fez com que ela entrasse para a lista negra de Hollywood. Suas participações em filmes como God’s Gift to Women (1931), It Pays to Advertise (1931) foram amplamente ignoradas.

Louise também não ajudava a melhorar sua situação e deixava escapar oportunidades: em 1931 recebeu um convite para atuar em The Public Enemy, ao lado do ator James Cagney. Porém, preferiu se encontrar com seu amante George Preston Marshall. Ela se envolvera quando estava casada com seu primeiro marido, o diretor Eddie Sutherland. O romance causou seu divórcio, mas não foi muito longe.

O papel em The Public Enemy acabou sendo destinado a Jean Harlow, que se tornou uma grande estrela a partir de então. A verdade é que não era só Hollywood que se cansara dela. Ela também não suportava mais fazer filmes ou tirar fotos publicitárias, além de fingir ser quem não era.

George Preston Marshall e Louise

Louise Brooks se reinventa

Louise chegou a fazer uma participação no musical When You’re in Love. Com o nome em baixa, não foi sequer creditada. No ano seguinte atuaria em Overland Stage Raiders (1938) ao lado de John Wayne.

Overland Stage Raiders (1938)

Aos 20 e poucos anos de idade, no auge da juventude, Louise Brooks afastava-se aos poucos de Hollywood. O que fazer para sobreviver? Declarou falência, voltou-se à dança, trabalhou como prostituta, recebia contribuições de antigos amantes, trabalhou como vendedora, colunista, radialista e escritora.

Louise nutria uma paixão pela leitura desde a infância. Foi aos poucos que começou a escrever suas memórias. Nos livros revelou fatos picantes sobre sua vida, seus relacionamentos com homens e mulheres, sua liberação sexual. Ela falou sobre um noite de amor que passou ao lado de uma “terna e suave” Greta Garbo. Citou também o relacionamento com Charles Chaplin. Os dois acabaram se envolvendo amorosamente durante dois meses durante o verão de 1925. Mais tarde a atriz falaria abertamente sobre um certo final de semana que passaram ao lado de Peggy Feras. Segundo Louise, para evitar doenças venéreas ele pintara o pênis com iodo. Depois disso, correu atrás delas inteiramente nu com sua “pequena espada vermelha”. Infelizmente não há fotos dos dois juntos, e embora nunca tenha assumido um romance com a atriz, Chaplin falou que ela tinha seios muito pequenos.

Seu nome aos poucos foi sendo esquecido completamente. Na década de 80 foi publicada uma coleção com seus escritos de “Lulu em Hollywood”. A ex-atriz não fornecia, porém, entrevistas. Uma das raras foi feita em 1970 quando apareceu no documentário Memories of Berlin: The Twilight of Weimar Culture:

 

Em 1984 também foi tema do documentário Lulu em Berlim (1984), que pode ser facilmente encontrado no youtube. Lançada um ano antes de sua morte, traz várias revelações e um retrato de como foi sua vida pós Hollywood.

Louise Brooks morreu sozinha em sua casa após ter um ataque cardíaco em 8 de agosto de 1985. Ela sofria de artrite e enfisema. Sua partida foi noticiada em alguns jornais de forma discreta.

A ex-atriz sentia-se uma derrotada. Em vários de seus escritos assumia-se como uma perdedora. Numa carta escrita ao seu irmão escreveu:

“Tenho feito um inventários dos meus 50 anos desde que deixei Wichita em 1922 aos 15 anos para me tornar uma dançarina. Isso me enche de horror, pois eu falhei em tudo: ortografia, aritmética, equitação, natação, tênis, golfe, dança, canto, atuação, esposa, amante, meretriz, amiga. Até mesmo cozinhando. E não me desculpe com a fuga usual de que não tentei. Eu tentei com todo meu coração. Mas não consegui.”

 

Fonte: The Girl in the Black HelmetClassic Hollywood: Louise Brooks’ rise and fallLife & Times of Louise BrooksLouise Brooks Archive, Discoveringchaplin

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