Tributo ao Verdadeiro Paul Newman

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Por Fernando Monteiro

Muito se falou da vitoriosa carreira de Paul Newman – quando o astro hollywoodiano faleceu, no dia 26 de setembro de 2008, aos 82 anos. Anos depois, é claro que o ator é lembrado – como o carismático protagonista de Gato em teto de zinco quente (1956), com a perna engessada e o talento solto (pelo Actors Studio do legendário Lee Strasberg) e até de filmes menores como A cor do dinheiro (1987), mas ninguém, aqui e lá fora, mostrou-se capaz de vê-lo como uma excelente presença em faroestes clássicos como Um de nós morrerá e Hombre, entre outros.
Em termos de westerns, só houve a lembrança, ao longo dos últimos doze meses, de um mediano filme de 1969 – Butch Cassidy and Sundance Kid – no qual Newman dividiu a tela com outro ator do seu mesmo tipo físico: Robert Redford. É um faroeste meio cômico, no qual os dois “galãs”, ainda jovens e acrobáticos, viveram os papéis dos dois bandidos americanos que vieram morrer na Bolívia, quando já não havia muito espaço, no Oeste, para os fora-da-lei tangidos para longe da pradaria cheia de poços de petróleo onde antes havia índios, gado e o “vasto céu” de A. B. Guthrie.

Butch Cassidy foi dirigido pelo artesão George Roy Hill, com aquela mão leve que ele tem, e que nunca ousou tocar no fundo das coisas. E Newman/Redford foram convidados a personificar a dupla de desesperados sem desespero verdadeiro algum, com um sorriso nos lábios e uma bicicleta disponível para rodar em torno de uma casa de fazenda, na famosa cena pastoral de Newman levando Katherine Ross de carona, ao som de embalo (gostoso) de Burt Bacharach. Perdeu-se uma grande oportunidade, na verdade, de abordar duas vidas na fronteira de duas épocas, com a dramaticidade que poderia ter resultado do confronto daqueles dois homens livres – num sentido até certo ponto “selvagem” – com o ambiente e a cultura que se transformavam em algo mais hostil do que nunca para o tipo deles. Em vez disso, Hill e os produtores seguiram pelo caminho daquela bicicletinha que Newman pedala, com mais o peso extra de Ross, com graça e leveza à altura do róseo filme a respeito de bandoleiros da pesada.
Robert Redford, 73 anos, por ocasião da morte de Newman, disse (como Sundance Kid diria): “Perdi um verdadeiro amigo. Minha vida e este país são melhores porque ele esteve em ambos”. Só faltou uma orquestra de violinos executando o hino americano, com os músicos fardados de fuzileiros, todos sobre uma mesa de tecido em xadrez azul, vermelho e branco para servir torta de maçã caramelada.
Ele será lembrado como um artista, um cavalheiro e um filantropo, cuja extraordinária carreira era inigualável, em cada aspecto, com uma vida exemplar”, foi a frase de alguém mais (não importa quem), em posição de dizer coisas comoventes para os noticiários de televisão noturnamente engravatados. Todos enxugaram uma discreta lágrima – e ninguém foi capaz de recordar direito os doidos homens do Oeste que Newman interpretou, várias vezes, do maluco “juiz” Roy Bean até um Buffalo Bill obviamente descompensado pela carreira no mundo do espetáculo montada em cima de uma carreira, anterior e real, sobre as trilhas de sangue da Sétima Cavalaria de George Armstrong Custer punida, exemplarmente, pelo touro que se levantou para levar seis mil índios à grande vitória do chefe Sitting Bull comandando as tribos da região de Little Big Horn. Depois, os índios caíram no seu crepúsculo – mas isso já é outra história. Aqui, trata-se de homenagear um ator capaz de dar a exata medida de desajustamento ao melhor dos “Billy Kid” do cinema: aquele que Newman criou para o então cineasta independente Arthur Penn, em The left-handed gun (“Um de nós morrerá”, 1958), justamente porque Paul foi um excelente intérprete de gente sob tensão que se torna outsider ou que cai naquela espécie de loucura que é um grito contra as coisas arrumadinhas em cima das mesas de panos quadriculados das cozinhas de tortas e outras coisas – mais tortas ainda.

DO “KID” AO HOMBRE 

“Um de nós morrerá” é considerado o melhor filme que aborda a vida do pistoleiro-menino que tornou famoso o Arizona de antes da Roswell dos discos voadores, Billy The Kid. Garoto crescido em meio à franca violência da região, William Harrison Bonney foi uma espécie de James Dean, perigosíssimo, do faroeste real, e ficar na frente dele – que era, claro, ao mesmo tempo infantil e, portanto, “inocente” – era muito arriscado para qualquer um. Principalmente para o xerife Pat Garret, amigo de Bonney, que terminaria por matá-lo em circunstâncias que permanecem mais ou menos obscuras até hoje (ao que tudo indica, o “Kid” estava desarmado).

Penn e Newman deram ao filme do “Canhoto” (daí o título) um desespero memorável, uma qualidade de situação-limite em preto-e-branco contrastado que é tudo, menos suave e parecido com os elogios que cercaram a morte real do ator. Seu Billy Kid morre como um celerado no meio de um monte de equívocos, jovem rapaz a quem ninguém escutou atentamente – a não ser o velho inglês dono de uma fazenda que ele buscou vingar, assim enveredando pelo crime que chegou a ser algo como uma carreira numa certa América (recordemos Jesse James, Dillinger, Bonnie & Clyde e outros). A atuação do então jovem Paul nesse filme é magistral. Sua máscara é a de um Billy Budd de instintos maus despertados pelas pessoas más, e o espectador é levado a ficar do lado do “bandido”, como sempre – isto é, sempre que diretores e atores conseguem encenar a vida de um marginal com a exata porção de rebeldia inconsciente, e mais tensão e reação fotografadas por uma câmera isenta, mas não fria.
“The lef-handed gun” nos deixa com a impressão de que algo ficou por ser dito em todas as anteriores biografias cinematográficas de Billy – e, os que têm fé, talvez olhem para o céu, depois, um pouco menos crentes do que eram antes de assistir o filme desesperado sobre um desperate dos mais desesperados da tela.
Porém não foi essa, em minha opinião, a melhor das atuações de Paul Newman em westerns de qualidade. Porque ele compôs um hombre ainda mais verdadeiro e forte no filme do mesmo título, conduzido pelo vigoroso Martin Ritt (1914-1990) que o dirigiu em meia dúzia de obras assinadas por esse diretor digno do panteão dos melhores do cinema americano.

O APACHE BRANCO

O personagem John Russell, o “hombre” do — ótimo — livro – de Elmore Leonard que serviu de base ao roteiro (do próprio autor e de Irving Ravetch) filmado por Ritt, é um apache branco que vive no sem-lugar da cultura dos mestiços, e que está disposto a optar, sempre, pelo sangue índio correndo nas suas veias divididas. Veias fechadas e não abertas para a cultura triunfante, orgulhosa e violenta, que praticamente destruiu a dos indígenas. Ele carrega a desconfiança e a hostilidade contra seus irmãos de sangue branco, sem que ninguém possa censurar-lhe o quase ódio embutido na indiferença – no mínimo – que já revela quando fica sabendo que herdou um hotel numa cidade perdida na poeira.

O filme começa quando o “hombre” toma um bom banho, corta o penteado apache e vai tomar posse da sua propriedade apenas para vendê-la, em seguida, e apanhar a última diligência que o levará de volta à tribo que ele ama. A viagem, entretanto, não o perdoará. Será cobrado o tributo pela sua escolha de ser mais índio do que branco – para o horror de alguns dos companheiros de viagem, incluindo-se aí o agente da reserva apache de San Carlos em corrida de fuga para escapar, junto com a mulher e agarrado aos ganhos acumulados a custa da fome naquele lugar de confino dos pele-vermelhas a que o mestiço está ligado pelo sangue e, mais ainda, pela opção “inesperada” que fez, na vida: ficar do lado daqueles derrotados.
É aí que Russell triunfa sobre a vida e até sobre a morte – ao deixar a imagem de um “hombre” caído de pé, vencido por desesperados da laia de Billy Kid (ou um pouco piores) porém arrastando-os, com ele, para os degraus da morte, numa mina abandonada e silenciosa em face daqueles mortos que serão apenas uma notícia de pé de página num jornal de Bisbee. Esse é, resumidamente, o plot da novela de Elmore Leonard – autor de westerns, antes de se dedicar ao gênero policial – filmada, em tom maior (e com a fotografia deslumbrante de James Wong Howe), por Martin Ritt e protagonizada, além de Newman, por atores do quilate de Fredric March, Richard Boone, Diane Cilento, Barbara Rush e Martin Balsam.
Paul Newman conseguiu, entretanto, dar ao seu lacônico personagem uma força psicológica que quase empalidece as ótimas atuações dos outros. Ele se tornou inesquecível nesse filme seco, duro, marcado por um andamento firme rumo ao trágico desenlace que significa mais do que um duelo final, típico dos westerns. Quando isso acontece, está em jogo mais do que a lei, a vitória dos bons contra os maus e outros maniqueísmos que o gênero acolheu largamente. Quando o mestiço cai, sabe-se que ele morreu por sair da reserva índia interior para deixar penetrar o sentimento branco que o “escolheu” como mártir daquela bondade cuja máscara o semi-apache havia rasgado em quase todos os econômicos diálogos de um filme quase irrespirável de ação (e intenção).
“Hombre” é uma pequena obra-prima, e, talvez, a melhor atuação no cinema que Paul Newman abandonou em 27 de maio do ano passado, numa entrevista à rede ABC em que, com franqueza john-russelliana, admitiu as desvantagens de ter mais de 80 anos: “Você começa a perder a memória, e também um tanto da sua confiança, com o que vai embora muito da sua criatividade. Então, adeus; o cinema é uma página virada, para mim”.

E foi embora, há um ano, num dia 26 de setembro como este.
(*) Escrito por ocasião da morte do ator. Inédito até hoje, por razões alheias à vontade do autor…

Fernando Monteiro

ERRATA da nota final: (*) Escrito por ocasião da passagem do primeiro ano da morte do ator. Inédito até hoje, por razões alheias à vontade do autor…

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Especialista em Cinema Clássico e Crítica Literária, é sobretudo uma curiosa. Fundadora do site Cinemaclássico, estuda o cinema desde 2002. Ama Charles Chaplin, Raj Kapoor e navega constantemente em filmes de todo o mundo.