A Estrada (La Strada, 1954), de Federico Fellini

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Este talvez seja o mais triste dos filmes de Fellini, e talvez por isso, o mais belo.

Gelsomina é uma moça pobre e ingênua. Tratada como um objeto por sua família, acaba sendo vendida para Zampano, um rude artista circense. Sua vida parece destinada a passar de mão em mão, sempre em busca de um amor que nunca chega. O homem, por sua vez, é extremamente grosseiro, rude, e não se importa em continuar o ciclo de animosidade que cerca nossa personagem. Zampano ensinará a Gelsomina todos os truques circenses que conhece. Juntos irão cair na estrada, e trabalhar a troco de migalhas. A chegada de um Louco fará com que o sorriso volte aos lábios de Gelsomina, causando ciúmes em Zampano, que passará a maltrata-la ainda mais.

Giulietta Masina em La strada (1954)

É difícil não se comover com o universo de Gelsomina. E um dos maiores fatores que faz com que isso aconteça é a interpretação dada por Giulietta Masina. Ela empresta seu rosto a uma mulher que, embora machucada, tenta seguir com dignidade sempre em frente. Sua imagem nos remete ao personagem chaplinesco, tanto na caracterização quanto nos sentimentos e fuga. Também o vagabundo segue em sua estrada, com um sorriso melancólico em seu rosto. Também ele mantém acordado uma vontade de manter a dignidade mesmo no pior dos tempos. Dividem até mesmo a maquiagem fantasmagórica dos tempos do cinema mudo. Gelsomina é, assim, uma espécie de Carlitos, mas sem final feliz em uma estrada.

Poderia não ter sido assim se os produtores tivessem vencido a batalha que travaram contra o diretor. Eles queriam Silvana Mangano no papel principal, pois achavam que seu rosto atrairia mais público. Para Fellini não havia sentido. Inspirara-se em uma foto de sua esposa na infância, e não havia mais ninguém que pudesse interpreta-la além de Masina. Após os primeiros traços, enxergou sua personagem claramente. Mas não era só isso. Confiava plenamente nela, tanto que a entregaria alguns de seus mais marcantes personagens (Cabíria e Julieta são exemplos).  E se não é difícil amar Gelsomina, grande culpa recai sobre sua intérprete.

Anthony Quinn em La strada (1954)

Mas para que ela funcionasse era preciso cercar-se do ator correto para interpretar seu antagonista. Anthony Quinn, embora seja creditado em cerca de 168 produções, foi subestimado na maior parte delas. Não precisar atuar em italiano lhe deu mais liberdade para adentrar no rude personagem que carrega uma aspereza que se torna um contraste com a leveza de Gelsomina. Um fato curioso aqui: o ator não precisou falar em italiano. Geralmente os filmes italianos deste período eram dublados totalmente após os tiros iniciais. Fellini era muito conhecido por colocar diálogos adicionais, e que muitas vezes não reproduziam os diálogos falados nas cenas originais. Assim, tanto Quinn quanto o americano Richard Basehart disseram suas falas em inglês.

No final, Fellini provou que estava certo. Apesar de uma recepção morna inicialmente, La Strada recuperou-se e acabou recebendo o Oscar de melhor filme estrangeiro. Masina não receberia nenhum prêmio por sua interpretação. Essa talvez seja a maior injustiça de todas. Ela merecia ao menos ter sido indicada como Melhor Atriz. Só lembrando que neste ano foram indicadas arroll aker, Katharine Hepburn, Nancy Kelly, Deborah Kerr e Ingrid Bergman (que ganhou por Anastácia).

Fellini dirige Richard Basehart

Outro elemento que torna La Strada único é a trilha sonora feita por Nino Rota, já elemento cativo em quase todos os filmes de Fellini. Sua associação com o diretor começou em The White Sheik de 1952, e trabalharam juntos por décadas. A relação dos dois era tão forte que no funeral do cineasta, Giuletta Masina pediu para o trompetista Mauro Maur tocar Improvviso dell’Angelo, de autoria de Nino Rota.

Iniciei meu texto falando que esse é um dos mais tristes filmes do diretor. E é. Nas cenas finais, quando vemos um fraco Zampanó sentir falta de Gelsomina, podemos até ter um sentimento de que no final ela o venceu, a bondade teria finalmente vencido a grosseria. Mas não. A Estrada da Vida é um filme sobre o contraste, sobre como a luta entre a beleza e a rudeza nem sempre terá vencedores. O arrependimento veio tarde demais. Para ambos.

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