A Mulher Faz o Homem (1939)

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Após a morte de um senador, inicia-se uma corrida para substitui-lo. Mas não pode ser qualquer pessoa. O perfil do candidato deve ser presumivelmente corrupto. Isso porque há interesses por trás de sua nomeação. O homem deve estar disposto a ocupar a vaga e aprovar um projeto que prevê a construção de uma represa que beneficiará o governador e o chefe político. Um primeiro nome, mas não é aceito pela população devido ao caráter do indicado. O que fazer nesse momento? Surge o nome de Jefferson Smith (James Stewart), um homem honesto porém inexperiente ao ponto de questionar algo. Sua popularidade entre as crianças seria um outro ponto fundamental, já que conseguiria muitos votos futuramente.

Smith é um idealista e sonha com os ideais americanos. Ao aceitar o convite, imagina-se fazendo o bem e trazendo benefícios para seu povo. Ao chegar em Washington, encontra-se embasbacado em sua primeira turnê. Fica fascinado com o capitólio, com as estátuas dos presidentes, com a admiração que as pessoas tem por suas figuras e o que tudo isso significa. A imagem carrega um excesso de ufanismo, mas que está de acordo com a proposta do personagem. Sua visão em contra-plongée mostra a grandeza do homem.

Será com grande decepção que essa figura irá perceber aos poucos que está cercado de pessoas que não se importam com as outras, que pensam somente em si próprias e em trazer benefícios egoístas. A primeira das decepções virá da imprensa. Ao finalmente chegar no local, é cercado pelos jornalistas que, aproveitando-se de sua ingenuidade, tecerão perguntas inconvenientes e utilizarão disto para sujar sua imagem. Conta-se que a imprensa de uma forma geral não gostou da forma como foi tratada no drama.

A segunda vem com os colegas, que o julgam um homem manipulável e bobo em acreditar em justiça social. O terceiro golpe virá pelas mãos do senador Joseph Paine (Claude Rains), amigo de seu pai e em quem ele confia copiosamente. Paine era um Smith no passado, mas se deixou levar pelos abutres que lhe colocaram contra a parede. Segundo o mesmo, para conseguir trabalhar pelo bem da nação, precisava abrir concessões. Smith fica arrasado. A incredulidade poderia tirar todas as esperanças desse homem, mas o personagem “capriano” seguirá incorrupto em suas convicções, tentando provar a todos que é um homem honesto.

Primeiramente uma observação. Nunca entendi o real sentido desse título em português. “Mr. Smith Goes to Washington” fala muito mais sobre o personagem do que o não explicado “A Mulher faz o Homem”. Há somente duas personagens femininas no drama: a primeira, Susan (Astrid Allwyn), é filha do senador, e usada como isca para que o rapaz falte a uma importante sessão em que perceberia que está sendo iludido. É inquietante perceber a maneira como se aproveitam de nosso personagem favorito na cena em que ele desajeitadamente deixa cair seu chapéu.
A segunda, Clarissa Saunders (Jean Arthur) não é de maneira alguma má pessoa. É a antiga assessora do seu predecessor, e que apenas cumpre com suas obrigações de mante-lo afastado das funções.  A moça é apenas uma das tantas secretárias que trabalham e apenas reproduzem ordens sem pensar. Mas percebendo a pessoa idônea que ele é, tentará alerta-lo dos perigos. Sendo assim, o título americano cumpre sua função perfeitamente enquanto que a brasileira carece de explicações lógicas.

Dentre os personagens caprianos, este e Mr. Deeds  de “O Galante Mr. Deeds” são os mais idealistas de todos. Mas não é coincidência que os dois personagens de filmes de Capra sejam tão parecidos. A proposta inicial seria que Deeds retornasse nessa sequência. Problemas de agendas fizeram com que Gary Cooper não pudesse participar dessa versão. Sobrou para James Stewart, cuja aparência dava aquela firmeza tão precisa ao personagem. E esse foi um papel que o ator amou fazer, sem dúvidas. Era uma oportunidade de chegar finalmente ao estrelato, mas também representava ideais em que ele acreditava. Assim como Smith, Stewart era um idealista, acreditava no dever cívico, nas leis, em Deus e no engrandecimento que o exército trazia.

Agora vocês imaginam o furdunço que o tema causou naqueles dias, e como deve ter sido difícil convencer os censores a falar mal da instituição americana. Afinal, mexer nos brios e orgulhos dos americanos não era um tema fácil de tratar, e assumir que existem problemas como a corrupção em um país que se orgulha de sua honestidade não era um tema bem aceito. O viés nacionalista extremo de Smith, e seu espírito incorruptível ajudou na liberação do filme. No entanto, isso não o salvou de críticas, sobretudo em outros lugares do globo (Na Alemanha algumas falas foram dubladas com outros textos, por exemplo).

Apesar de seu excesso de ufanismo, a mensagem de Capra parece ser bem clara: apesar de tudo, as pessoas devem lutar por seus ideais e acreditar em um mundo mais justo. Dias melhores virão, com finais felizes para os bons. É nisso que o público americano precisava acreditar. E é isso que fez esse um dos clássicos atemporais do diretor. A Mulher Faz o Homem, décadas após seu lançamento, continua atual.

* O filme está sendo lançado pela Classicline em dvd que traz versão legendada e dublada. Pode ser encontrada em qualquer loja do ramo. Clique na imagem para adquirir:

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