Arroz Amargo (1949)

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Giuseppe De Santis sempre se mostrou um cineasta preocupado com questões sociais. Em seu terceiro filme, Arroz Amargo (Riso Amaro), traria mais uma vez a temática da exploração rural de um grupo de arrozeiras, transformando esse uma das principais produções neorrealistas.

Uma vez ao ano um grupo de mulheres parte para os campos de arroz. Elas vem de todos os cantos do país, e tem as mais diversas profissões. Juntas, onde irão trabalhar exaustivamente para tirar de lá seu sustento. São pessoas simples, mas com muita esperança que a vida melhore. Histórias e dramas singulares se unem neste momento. Uma delas é a de Francesca (Downlind), uma mulher que acaba indo parar por acaso no arrozal.

Ela tenta escapar de um relacionamento abusivo com Walter (Gassman), um jovem e belo bandido que destroçou sua vida, destruindo-a moralmente. Walter é daqueles homens que são excessivamente belos mas não tem um pingo de humanidade. Ele é ciente de suas condições, e aproveita delas para explorar quem esteja em seu caminho.

De posse de um colar roubado, Francesca adentra no grupo e acaba conhecendo a inocente e sedutora Silvana (Mangano). Silvana inicialmente não simpatiza com Francesca, considera-a uma ladra, desconhece que o colar é falso. Noiva do general Marco (Vallone), não consegue leva-lo à sério. Talvez por ele ser certinho demais.  Silvana tem um espírito rebelde e sonhador ao mesmo tempo. E por isso acaba atraída pelas histórias contadas por Francesca. Interessa-se por Walter, e por ele é capaz de trair a todos. E apesar de todos os avisos, parece disposta a aceitar tudo em nome de uma forte atração física. Silvana é uma personagem forte, estranha, magnética. A química é imediata. A diferença talvez entre ela e Walter seja o fato de que a mulher não é má, mas apenas iludida e um pouco ingênua.

Arroz Amargo trata da questão do trabalho explorado, mas trata também das relações perdidas, sobre como se busca o amor e perde-se por ele. O quarteto principal de atores chama a atenção não só pela extrema beleza, mas também pela entrega que fazem aos seus devidos personagens. Surpreende a estreante Silvana Mangano, que a partir dali se tornaria uma das principais atrizes italianas. Bastante expressiva, é de uma beleza extraordinária em seus 20 anos. Incrivelmente bela, atrai para si a atenção não só dos dois principais homens do filme, mas também da platéia de espectadores.

Fazendo frente, temos a Doris Dowling, uma americana que a partir da segunda guerra passou a fazer algumas participações em filmes italianos, sendo mais lembrada por mim em sua participação em Farrapo Humano, de Billy Wilder (ela é aquela mulher para quem o Ray Milland pede dinheiro). Uma atriz madura, merecia melhor reconhecimento em sua carreira que, por algum motivo, não deslanchou.

Raf Vallone também estava no início de sua carreira e sua participação aqui catapultou sua carreira internacional. O quarteto completa-se com Vittorio Gassman , o italiano que ganharia o mundo com seu talento, e dedicaria também boa parte de sua vida ao teatro, sua grande paixão. Os quatro dão vida aos personagens, e por vezes nos desviam da trama principal pelo excesso de sensualidade.

Mas o roteiro de Arroz Amargo escrito por De Santis, Carlo Lizzani e Gianni Puccini não nos deixa por muito tempo escapar da trama amarrada por traições, miséria e denúncia social, este último um traço fundamental do neorrealismo. O pagamento em arroz é uma forma explícita de escravidão, bem como as condições precárias em que as mulheres se encontram.

O alívio daqueles dias de trabalho e noites frias são leves fugas em busca dos militares que lá se encontram. As músicas cantadas também compõem um alívio às duras lidas. O tempo faz com que uns evoluem, como é o caso de Francesca, e outros parecem regredir, como Silvana. Mas os anos passam, e como a triste narrativa aponta, em mais um ano uma nova leva de mulheres e histórias irão retornar. A história de Francesca e Silvana é só uma delas.

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