Escândalo na Sociedade (1964) | Inspiração em um escândalo real

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O final da década de 50 foi agitado para Lana Turner. Na noite de 4 de abril de 1958, sua filha Cheryl matou o amante da mãe enfiando-lhe uma faca de 20 centímetros no estômago. A relação da atriz com o gangster Johnny Stompanato foi abusiva desde o início: o homem lhe enchia de presentes e ameaças, e não raro lhe batia. Assustada, Lana teria se afastado, mas as ameças seguiam. Segundo depoimentos de Turner, sua filha teria ido em sua defesa, após presenciar mais uma briga.

No dia seguinte o escândalo já tinha tomado proporções imensas e uma Lana chorosa aparecia em todos os jornais. Alguns maldosos consideraram falsas suas declarações durante o interrogatório e começaram a criar teorias conspiratórias sobre quem de fato teria assassinado o homem. E quais os reais motivos. Dois anos mais tarde, o escritor americano Harold Robbins escreveu um livro intitulado “Escândalo na Sociedade” (Where Love Has Gone), que fala em um triângulo amoroso entre a filha, a mãe e o amante desta. Quatro anos mais tarde, Robbins venderia os direitos à Paramount Pictures.

Li o livro do Robbins há bastante tempo (nem falarei há quanto para não entregar minha idade hehehe), portanto não me lembro mais nada sobre ele e não tenho como comparar as versões. John Michael Hayes, que adaptou o roteiro para as telas era bastante conhecido por sua competência: foi ele quem fez o roteiro de filmes como Janela Indiscreta, Ladrão de Casaca, Peyton Place e Butterfield 8, para vocês terem uma ideia. E ele podia investir em diálogos mais ácidos, já que no final da década de 60 o famigerado código hays já estava caducando (ele seria totalmente extinto em 1968).  Então temas como virgindade, vida promíscua e uma bobagem chamada cama de casal pode ser visto tranquilamente aqui.

Dirigido por Edward Dmytryk, “Escândalo na Sociedade” traz no elenco duas atrizes poderosíssimas. Não há como ignorar que Davis sabia como ninguém interpretar uma megera. Ela deu um tom sem exageros à odiosa Gerald. E mesmo com um roteiro dando pouco destaque à veterana atriz, ela conseguiu mudanças significativas à ele, lutando para mudar seu final. Sua presença é magnética em cena. (Nesse ponto lembramos que no processo de Lana Turner, sua mãe também ficou responsável pela neta, ganhando sua guarda).

Susan Hayward também chega poderosa neste filme, como uma mulher dominada pela mãe. Ela até tenta, mas o poder de Gerard é total, encaminhando cada passo de sua vida. Valerie não conseguirá se desvencilhar de suas teias. Suas perdas e ganhos parecem sempre direcionadas pela matriarcas. Valerie é uma personagem complexa, cheia de dores e que não consegue ser feliz. Talvez ela seja feliz com o seu trabalho, quando faz suas esculturas, mas, como ignorar tudo ao redor?

O terceiro destaque feminino vem por conta de Joey Heatherton. Confesso que não a conhecia e tive que recorrer ao velho google para saber um pouco mais sobre sua carreira. Pensava se ela tinha sido uma das atrizes a acompanhar Elvis em alguns de seus filmes, mas não. Mas de qualquer maneira, Joey tem um rosto meio petulante, e que ajudou na concepção da personagem de 15 anos. Aqui ela é uma menina de 15, que culpa a educação e falta de amor e que vinga-se de tudo aprontando da maneira que conhece. Uma espécie de James Dean de saias (lembro-me do personagem de Juventude Transviada, cujos aspectos anti sociais eram uma espécie de vingança dos pais).

Mas vamos à história do filme.

Luke Miller (Mike Connors), um herói da Segunda Guerra, recebe com surpresa uma ligação informando que sua filha Danny está presa após matar o amante da mãe. Ele corre ao seu encontro e começa a relembrar os fatos que o fizeram se afastar da família poderosa. Através de flashbacks, vemos como ele conheceu e se apaixonou por Valerie Hayden. No caminho havia Gerard, a sogra que inicialmente incentivou o casamento, por julga-lo bom para a publicidade. Masque com o tempo tentou encaixa-lo dentro de sua vida, escolhendo inclusive seu emprego, e fechando portas quando o homem negou-se a segui-la.
O casal tem uma filha, Daniele, e Luke começa a perceber que não consegue se adaptar àquela vida em sociedade. Começa a beber, tornando-se alcoolatra, frustrado profissional e emocionalmente. Em contrapartida, Valerie entrega-se a romances com outros homens, o culpando por sua desgraça, acusando-o de ser um homem sustentado por sua família. O caos leva ao divórcio, e ele é proibido de ver sua filha. De volta aos tempos atuais, Luke tenta compensar suas faltas, e descobrir o que de fato aconteceu para que sua filha chegasse à esse ponto. As consequências do que ele descobre são avassaladoras para todos os envolvidos.

Vejo muitos comentários falando mal sobre o filme que de maneira alguma considero ruim. Primeiramente, o technicolor é fabuloso. A história traz algumas marcas de época (o questionamento sobre a virgindade perdida e cobranças relativas aos papéis familiares), mas não há como esquecer que as concepções são marcadamente as em voga na América dos anos 50 e 60. Não há também como ignorar o primor dos figurinos assinados por Edith Head, uma das rainhas de Hollywood. No geral encontro mais pontos positivos do que negativos e sempre acho que vale a pena dar aquela conferida em outras realidades. Se o filme foi inspirado no caso  Turner x Stompanato? Claro que sim, as “coincidências” são demais para considerar esta uma obra puramente ficcional. Os finais foram diferentes, as personagens também possuem traços que os diferenciam, mas o que posso dizer é que Robbins não ignorou o fato que chocou as famílias e os fãs da Lana. Vale a pena dar uma conferida também por isto.

** O filme está sendo lançado no Brasil pela Classicline, e pode ser adquirido na Livraria Cultura.

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