Estranha Passageira (1942)

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Minha conversa sobre esse filme que traz a Bette Davis como atriz principal será um pouco diferente das resenhas que falo usualmente. Então convido vocês a lerem um pouco sobre isso.

É dito que a família é nosso porto principal. As pessoas para as quais sempre retornamos e nos dá um sentido de amor e harmonia. Há aqueles sortudos que podem contar com parentes que se tornam suas maiores jóias. Bem estruturadas, estão juntas nos bons e nos maus momentos. Mas como em tudo na vida, nem todos tem essa sorte. Esse meu pensamento veio enquanto revia A Estranha Passageira (Now, Voyager), de Irving Rapper.

Charlotte Vale é uma dessas pessoas que não tiveram a sorte da qual falei. Sua família, antes, suga suas energias, amplia suas dores, vampiriza-a e a deixa em uma prisão cuja único resultado é a angústia da solidão. A mãe de Charlotte, interpretada por uma intensa Gladys Cooper, a teve aos 40 anos. A chamava de “sua filha da velhice”, um termo muito utilizado em famílias antigas sobre aqueles filhos que nascem já tarde e que são usados para tomar conta dos pais. Mas o problema da relação entre as duas, e que ecoa em como os outros parentes tratam Charlotte é a intenção clara da mãe em anular a filha e fazer-se sentir-se uma pessoa imprestável.

É aí que surge a figura do bondoso doutor Jaquith (meu Deus, como James Mason é um ator fantástico), disposto a leva-la para uma clínica e trata-la. Aos poucos a moça vai retomando sua auto estima, e como última parte do tratamento parte para uma viagem. No navio, ainda desconfiada com todos, conhece Jerry (Paul Henreid em seu primeiro papel de destaque), que de tantas maneiras também será capaz de ajuda-la. Jerry também tem seus dramas pessoais, uma família que carrega nos ombros como uma obrigação, e uma filha que em muito lembra a própria Charlotte, rejeitada pela própria mãe.

 

A Estranha Passageira serve para que pensemos um pouco mais sobre as coisas que podemos fazer pensando fazer o bem, o quando o respeito às individualidades é algo sério e deve ser um item fundamental em qualquer família. Aquele “patinho feio” ou estranho é alguém que deve ser respeitado. Amor não justifica prisão nem obrigação. E não combina com repressão severa, e que incluam a negação de direitos mínimos. Você quer ser uma pessoa amada ou temida?

Charlotte se transforma, evolui, enfrenta sua mãe aos poucos, não a deixará mais corromper seu espírito sem a desrespeitar. O bom de A Estranha Passageira é que a personagem, apesar de todos os prognósticos, consegue escapar desse mundo que a cerca. Passa a ser respeitada, impõem-se e passa a ajudar outros que tem o mesmo problema. Penso apenas naqueles que não tiveram essa sorte. Mas os filmes estão aí para trazer uma mensagem, e a desse é muito clara: tire as forças de dentro de si, peça ajuda a outros, se cuide. Charlottes existem aos montes por aí, e tem diversos nomes.

A Estranha Passageira foi lançado em DVD pela Classicline e encontra-se disponível à venda na loja da distribuidora. Clique na imagem para ser redirecionado:

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