Coração Fiel (1923) | Uma Viagem ao Impressionismo Francês

O impressionismo, surgido no início do século 20, chegou com um grande desafio: transformar o cinema em uma obra de arte e enfatizar o uso da imagem. Segundo o conceito da fotogenia, há características que só se tornam visíveis através da filmagem cinematográfica. É como se a câmera e seus efeitos capturassem elementos que escapam a olho nu. Mesmo que o movimento tenha durado pouco tempo, deixou como herança esse entendimento.

 

A ênfase à impressão que a imagem traz fez com que isso tivesse mais importância até mesmo que a trama, que se tornava secundária. Neste caso, as histórias poderiam até mesmo girar em torno das imagens. E essa questão era tão importante que muitas vezes os subtítulos eram usados de maneira discreta ou até mesmo desaconselhados. Muitas outras vezes acabavam fazendo parte dos cenários. Tomemos como exemplo o filme que iremos abordar: Coração Fiel, de Epstein.Veremos a palavra "FOR EVER" repetir-se ao longo de todo o filme. Escrito na parede da taberna onde Marie trabalha, retorna em algumas ocasiões para nos lembrar dos nobre sentimentos do casal protagonista.

 

 

 

 

 

A história é bastante simples: Marie é uma jovem explorada que trabalha em uma taberna e é obrigada a desposar Paul, um homem que gasta suas horas a beber. Apaixonada por Jean, Maie vê seus sonhos de felicidade escaparem quando seu amado não tem coragem de lutar por ela e acaba sendo preso por ferir um policial.

 

Logo nas primeiras cenas percebemos algumas características marcantes do movimento: o excesso de close-ups em Marie, e depois a visão da taberna repleta de pessoas vazias nos faz perceber o incômodo da mulher pelo ambiente e pela vida que leva. A chegada do noivo Paul, observamos um desfoque de seu rosto, uma alusão à angústia sentida por ela, uma exploração de seu estado psicológico. Tal estado vai de encontro com a maneira como a mulher é mostrada no momento em que se encontra com o homem amado: ao se encontrar com Jean, Marie é mostrada num contra plongee, de baixo para cima. Esta é a sua grandeza para o homem amado.

 

 

Close-up

 

Close-up

 

Sua imagem desfocada

 

 

Outra característica fílmica que podemos observar é a preferência por cenários externos. O casal encontra-se no porto. Mais tarde, sozinho no mesmo lugar e desamparado, temos um Jean a lamentar sua covardia. O rosto de sua amada multiplica-se através da sobreposição de imagens e funde-se com o mar, mostrando seu estado de alma. 

 

 

Sobreposição de imagens
Sobreposição de imagens

 

 

 

Aqui temos justamente um dos principais desafios do movimento: provocar o espectador a sair do papel de observador e fazê-lo perceber, ter a impressão sobre os sentimentos do personagem. E tudo além da palavra. Podemos perceber isso em pelo menos mais dois momentos:

 

No primeiro deles, temos uma das cenas mais icônicas do cinema. No parque de diversões, observamos a montagem rápida que enfatiza a confusão mental de nossa personagem enquanto a roda continua em movimento. O caráter assustador é ampliado mais uma vez com a alternância nos close- up e objetos de cena como o cavalinho que avança assustadoramente sobre o espectador.

 

 

 

A segunda cena surge já no final do filme, quando Paul está no bar. A alteração causada pela bebida é capturada pela visão de rostos deformados das pessoas que ele vê. Vemos o mundo através dos olhos bêbados de Paul. Observe até 1:14: 

 

  

 

 

Como enfatizei alguns parágrafos acima, o impressionismo não durou muito tempo. Por vezes ele não tem a devida importância dada, sendo mais lembrado pelo conceito da fotogenia. O fato é que a chegada do cinema falado, aliado à falta de interesse das distribuidoras, fizeram com que ele tivesse uma curta existência. Eram tempos sombrios para um movimento que visava, soretudo, entender o cinema como uma obra de arte. Creio que somente com a noivelle vague o cinema francês iria mais uma vez trazer inovações ao mundo do cinema. Mas essa é uma nova e longa história.

 

Você pode assistir ao filme online:

   

 

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Carla Marinho

Especialista em Cinema Clássico e Crítica Literária, é sobretudo uma curiosa. Fundadora do site Cinemaclássico, estuda o cinema desde 2002. Ama Charles Chaplin, Raj Kapoor e navega constantemente em filmes de todo o mundo. 

Website: www.facebook.com/carlaamarinho

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