Nos Cinemas: O Destino de Uma Nação

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É sempre uma experiência interessante assistir a uma obra que conversa com outras, como é o caso desse O Destino de Uma Nação. Impossível não acompanhar aquele momento da história do Reino Unido e do mundo sem lembrar de Dunkirk, longa de Christopher Nolan que mostra a operação dínamo no campo da ação; ou a série da Netflix, The Crown, que traz os bastidores da realeza e da política britânica em meados do século passado. E por que é fácil fazer essa conexão? Por que em todas elas, há um personagem que foi fundamental para os eventos retratados: o primeiro-ministro Winston Churchill.

O Destino de Uma Nação é focado no período em que Churchill assume o segundo cargo mais importante da Grã-Bretanha, em pleno auge da dominação alemã na Europa. Sua figura avantajada e que impunha respeito é vivida aqui por ninguém menos que Gary Oldman. Surpreendente em cena, aqui ele faz um dos seus trabalhos mais elogiados de todos os tempos.

É criando uma expectativa envolta na aura de lenda que tinha Churchill, que o filme começa. No momento em que finalmente surge, na penumbra, sob a luz de um charuto aceso, temos o primeiro vislumbre do homem e da caracterização de Gary Oldman, que impressiona.

Lily James stars as Elizabeth Layton and Gary Oldman as Winston Churchill in director Joe Wright’s DARKEST HOUR, a Focus Features release.Credit: Jack English / Focus Features

Se no início, o roteirista Anthony McCarten e o diretor Joe Wright mostram a faceta pela qual Churchill era conhecido, a do homem de gênio forte que tosse e berra para todos os lados, aos poucos eles vão tornando o político numa figura humana, por vezes cansada por vezes inspiradora.

É verdade que o filme derrapa um pouco no humor, há um excesso de cenas cômicas que atrapalham a urgência da narrativa, e boa parte delas prejudicadas pela trilha sonora, como a do primeiro encontro de Churchil com o rei George VI, ou algumas das interações do homem com a sua assistente, vivida por Lily James.

Aliás, a personagem de Lily James, tal qual a personagem de Kristin Scott Thomas, esposa de Churchill, não tem muito bem uma justificativa para estar ali. As duas mulheres tem uma única função à narrativa, servir para inspirar o lado humano do político. Sim, ele outra vez.

É claro que por se tratar de uma biografia, é importante que o espectador, quer conheça ou não o biografado, crie simpatia por ele, e como não poderia deixar de ser, há a cena em que Churchill decide andar de metrô e ouve o clamor do povo de perto. Piegas, mas que funciona muito bem naquele propósito.

No entanto, o momento que melhor une a direção cuidadosa de Wright, o texto de McCarten e a atuação delica de Oldman, é quando Churchill entra numa salinha minúscula e faz uma ligação para o presidente dos EUA. Ali, Churchill já estava quase esgotado, partia para a última solução que tinha em mente: pedir a ajuda ao governo americano, que até então se mantinha neutro na guerra. A cena conta com uma perfomance delicada de Gary Oldman, enquanto Wright decide nos mostrar o quadro com duas tarjas pretas do lado, como se tivéssemos a visão interna e externa do cubículo, evidenciando a sensação de sufocamento.

Ainda que fraqueje em alguns aspectos – parte deles típicos de uma cinebiografia – o longa consegue retratar com eficiência não apenas um personagem da História, mas sim a mesma sendo feita. O Destino de Uma Nação termina e não tem como não achar um filme inspirador. A esperança de um povo é quem ajuda o homem no poder, e não o contrário.

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