Nos Cinemas: Uma Mulher Fantástica (2017)

162

Marina não tem tempo para digerir a dor da perda de uma pessoa amada. A cada instante há uma invasão de sua privacidade, de seus sentimentos, de seu modo de encarar a situação. Atacada por todos os lados, vive a angústia de não ter seu direito à dignidade respeitado. Marina é uma entre tantas mulheres trans que sofrem o despejo diário da sociedade. “Respeite minha dor, meu momento, o momento de nossa família!”, fala a ex-esposa de Orlando. Como se isso anulasse o que nossa personagem sentisse.

Ter Daniela Vega, uma atriz também trans, no papel de Marina traz a visibilidade necessária e amplia a discussão sobre um tema que em 2017 já deveria em muito estar findado: a representatividade. Os que hoje minimizam a discussão dizendo que o papel independe da identidade sexual certamente seriam os mesmos que décadas atrás iriam fincar os pés dizendo que negros e orientais poderiam ser representados normalmente por brancos. Filmes como este contribuem para a inserção de grupos que merecem seu espaço. E assim como aconteceu há bastante tempo, tem-se que aceitar e evidenciar que representatividade é importante sim.

Uma Mulher Fantástica abre-se com delicadeza ao tema, mostrando a questão do ponto de vista de quem e por quem a vive. Nesse ponto há algumas cenas que evidenciam uma angústia muda. Marina pouco fala, mas tanto sente… A primeira é aquela em que ela anda por uma rua, e o vento, que simboliza as intempéries pelas quais passa, tenta derruba-la. A mulher enverga, caminha, protege-se com as mãos. É o mundo que tenta fazer com que pare. Ela segue, resolve esperar os ventos que sopram finalmente pararem. Isso deixa evidente um traço de sua personalidade firme.

Outra cena que evidencia sua personalidade é aquela em que ela vai para uma boate. Acredito que esse tipo de cena é perigosa quando reproduz um comportamento que se atribui aos grupos LGBTs: a inserção de cenas em boates nos momentos de dor. Questionei-me durante um bom tempo a necessidade de mostra-la naquele ambiente naquele momento. Confesso que ainda não cheguei a uma conclusão quanto a finalidade dela. O “inferninho”, acentuado pelos tons avermelhados evidencia um lugar de busca do prazer e diversão cegos. Porém, há um momento nessa sequência que chamou bastante minha atenção, e que salva toda a sequência: quando ela, diva da noite, é erguida, e quebrando a quarta parede, nos encara. Todas as frases são ditas naquele olhar. Marina nos questiona, pede amparo, respeito, sem dizer uma só palavra.

A personagem, que em muitos momentos aparece em uma passividade gritante tem apenas uma reivindicação: cuidar de um cão idoso, deixado por Orlando. Evidencia-se aqui a sua compaixão e ternura com alguém que, como ela, também seria fatalmente abandonada pela sociedade. Marina não é daquelas pessoas que explodirão num gesto banal. Não é o que esperam dela. Antes, é alguém que mesmo que envergue, continuará sua caminhada. É uma mulher fantástica.

Nota: 4.5/5

Comente Aqui!

COMPARTILHAR
Artigo anteriorStromboli (1950)
Próximo artigoLaura Cardoso celebra seus 90 anos bem vividos
Especialista em Cinema Clássico e Crítica Literária, é sobretudo uma curiosa. Fundadora do site Cinemaclássico, estuda o cinema desde 2002. Ama Charles Chaplin, Raj Kapoor e navega constantemente em filmes de todo o mundo.