O Vermelho e o Negro (1954), pequenos comentários

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* Esta é apenas uma pequena reflexão acerca do filme, sem maiores compromissos com estéticas, análises técnicas ou de roteiro. Algo que estava sentindo falta de fazer.

Vocês sabem que estão me condenando não pelos crimes que cometi, mas porque ousei, como camponês, tentar subir a escala social e me tornar um de vocês.
É assim que temos a primeira visão de Julien (Gerard Philipe), um jovem que espera sua condenação enquanto lembra dos fatos que o levaram até ali.

Tomadas as devidas licenças que tirei do diálogo (adaptando-o para nossa linguagem atual), começa o filme dirigido por Claude Autant-Lara e que é uma adaptação do famoso romance do Stendhal.

Julien é um homem que não quer ser mais pobre. Ele tem uma certeza. A incerteza fica por conta de como fará isso: tornando-se amante de uma mulher influente ou através da batina. Sua característica mais marcante, depois da dúvida, é a inconstância. Ele parece um joão bobo, levado de um lado para o outro por suas inconstâncias. Ele parece amar as possibilidades mais do que os caminhos que se abrem. É um sonhador, apesar de encaixar-se também num jogo torturante em que acaba usando e sendo usado pelas pessoas.

Danielle Darrieux e Gérard Philipe em Le rouge et le noir (1954)

Julien não é mau. Ele é um reflexo daquele que tenta a todo custo pertencer a algo que não o aceitam naturalmente. Não há muitas diferenças, o mundo parece girar e voltar sempre ao mesmo ponto: a aceitação das camadas sociais e as dificuldades dos seres humanos em aceitarem que no final somos todos iguais. Julien não erra em tentar subir de vida, se assim ele acha correto. Ele também quer ter direito a uma vida de luxo, e seria insano impedi-lo de alcançar o que almeja.

O que ele sabe é que jamais permitiriam. Surge a briga de classes. Um homem assim jamais seria aceito pelos outros. Surgem as tramas, os desvios. Teria ele direito a sonhar? Não seria mais prático manter-se com a cabeça abaixada ao lado de uma vida conveniente? Não para Julien, que sonha e acaba por se perder.

As mulheres na trama como seres manipuladores. Mme de Rénal (interpretada por Danielle Darrieux) e amante de Julien, demonstra espanto quando percebe que pode fingir muito bem e manipular a situação envolvendo seu bobo marido. Este, por sua sorte, julga-se superior, mas na verdade torna-se um joguete na mão de alguém mentalmente mais preparada como ela. Outra figura que desencadeia um grande debate é Mathilde (empregada da casa dos Rénal), e que figuraria como alguém que teoricamente seria mais indicada para desposar Julien. Mas como ela diz, iria ele, com ímpetos de se tornar rico, unir-se a uma servente?

Neste posto percebemos o peso que as figuras femininas, mais ricas tanto de ideias quanto de soluções práticas do que os homens, que muitas vezes são apenas joguetes em suas mãos.

Não cheguei a ler o livro de Stendhal, mas pretendo fazê-lo o mais brevemente, já que é dos mais influentes do realismo, corrente artística que se espalhou pelos diversos tipos de arte e que tinha como base o pensamento positivista. Segundo o mesmo, este é “o único livro que tem duas heroínas, a Senhora de Rênal e Mathilde”. O que me deixa mais curiosa ainda.

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