Nos Cinemas – Lady Bird – A Hora de Voar (2018)

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Você já deve ter ouvido falar que Cinema é uma espécie de janela para o mundo. E isso se provou tantas vezes verdadeiro, que é surpreendente quando ao invés de uma janela, nos deparamos com um espelho, ali, bem em frente a nós, refletindo e te engolindo na sala escura. Os filmes podem ser especiais das mais diferentes formas, mas é quando nos enxergamos neles que nossa relação muda e a obra logo se transforma num pedaço de nós, de maneira que nunca estamos preparados ao vislumbrarmos o primeiro plano.

Eu posso dizer que definitivamente não estava preparado para “Lady Bird”. O longa escrito e dirigido por Greta Gerwig é acolhedor e cheio energia. É possível perceber o carinho de seus realizadores emanando a cada pequeno momento.

A protagonista de “Lady Bird” não quer ser chamada pelo nome de batismo, ora veja bem, por que alguém é obrigado a gostar do nome que outras pessoas o deram? Se isso não já diz muito sobre Christine, o codinome que ela se deu nos conta quem ela quer ser: uma mulher que voa para longe do que a prende no chão. E não seria isso a juventude? A sensação de que o mundo está lá, completamente aberto, esperando por você, mas tudo parece um empecilho?

Lady Bird é uma jovem do último ano de uma escola católica na cidade de Sacramento, de uma família de dificuldades financeiras, e que tem uma relação de altos e baixos com a mãe. Um contexto esse com que me relacionei logo de cara.


Fazendo o recorte desses últimos meses da garota na escola, Gerwing apresenta a jornada dela nos trâmites e incertezas – ou seria certezas? – típicas da transição da adolescência para a idade adulta. Não há grandes conflitos ou tragédias que coloquem ‘Lady Bird’ no mesmo hall dramático de outros filmes que retratam a adolescência como “As Vantagens de Ser Invisível” ou “A Culpa é das Estrelas”, aqui está mais para “Boyhood”, Greta está preocupada em construir a jovem como uma adolescente comum, que tem dramas cotidianos e que se molda a partir dos seus relacionamentos e ambientes.

Sua relação com a sua cidade, por exemplo, é a de não pertencimento. Lá todo mundo parece estar satisfeito com a vida que leva, e ninguém parece compreender exatamente o desejo de Lady Bird de partir. Aliás, a sensação é de que realmente ninguém consegue acompanhar o raciocínio da jovem, sendo até comum planos de personagens confusos com o que Lady Bird acabara de dizer. Isso quando a montagem não resolve cortar imediatamente após a fala de um personagem.

A montagem de Nick Houy é dinâmica e repleta de cortes secos, optando por não mostrar nada que não venha a ser necessário, como a audição no clube de teatro por exemplo; ou criando boas tiradas de humor, como quando Lady Bird vê alguém que ela gosta a traindo e em seguida, rapidamente, um plongée da mesma acompanhada de sua amiga chorando e cantando alguma música triste dos anos 2000.


A propósito o início daquela década, em que a história se passa, é bem presente e importante para entendermos mais um pouco sobre Lady Bird. Estamos em 2002, o engatinhar do século, jovens sem smartphone, hit de Justin Timberlake tocando nas festas, os EUA marcado pelo 11 de setembro. As investidas americanas “contra” o terrorismo passam frequentemente nos noticiários de TV, enquanto a juventude ali assiste entediada, pensando nos seus próprios problemas.

O egoísmo da garota é evidente, não precisa que sua melhor amiga ou sua mãe gritem isso na sua cara, ainda que façam. Lady Bird é temperamental, dramática, ingênua e de grande coração, e por vezes é possível perceber tudo isso numa única cena. Ela e todas as pessoas que a circundam de nada devem aos personagens reais, do nosso dia a dia.


E como na vida, há amores passageiros, amizades passageiras, algumas que vão e voltam, tudo isso num tempo absurdamente rápido. Mas há aquelas relações que ainda que não sejam fáceis, são imprescindíveis e que nos acompanham de uma forma ou de outra aonde quer que vamos. A mãe vivida com muita sensibilidade por Laurie Metcalf é uma grande personagem, que não consegue entender nem ser compreendida. E o roteiro de Gerwig não a trata como dona da razão, pelo contrário, ela por vezes se mostra insensível aos outros tal qual sua filha. A veracidade daquela mulher evidencia o cuidado com qual ela foi escrita e retratada. É possível se identificar com os desejos e frustrações da mãe e da filha muito facilmente.

“Lady Bird” é preenchido pela sensação frequente de nostalgia, como se tudo aquilo fossem memórias muitas vívidas. E ainda que isso nos remete diretamente a ideia de uma autobiografia, a cineasta declarou que o filme é uma semi autobiografia, com muitos elementos de sua vida sim, mas personagens e situações completamente criados, inclusive a própria protagonista. Então o que cria essa sensação? Além de toda a ambientação, a  iluminação sempre reluzente e o aspecto granulado da fotografia de Sam Levy, que embora pensada para parecer simples, é muito funcional ao evocar o sentimento.

 

A trajetória de autoconhecimento de Lady Bird encanta por parecer real. A sede de explorar sua independência num lugar novo e distante, a ilusão de ter encontrado o amor da sua vida aos 17, a necessidade de se encaixar num grupo de pessoas que não te aceita da maneira que você realmente é. Eu me vi em Lady Bird de inúmeras maneiras, e às vezes eu me via para além dela.

 

Estamos diante de uma obra cheia de detalhes, que pode ser apreciada pelos mais diversos aspectos, um filme completamente sentido do início ao fim. “Lady Bird” termina por nos lembrar que se autoconhecer e amadurecer é algo que fazemos todos os dias, mas que só em raras ocasiões somos capazes de perceber.

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