A trágica história de Montgomery Clift

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Foi com imensa satisfação que o casal William e Ethel anunciaram o nascimento dos gêmeos Roberta e Montgomery, em 17 de outubro de 1920. Ricos, puderam oferecer uma vida estável na primeira infância dos filhos. Porém, com a queda da bolsa em 1929, os tempos se tornaram difíceis para a família, que passou a vender todos os seus bens.

Com a irmã Roberta

Sempre chamando a atenção por sua beleza, aos 14 anos ele seria chamado para participar de uma peça. Foi ali que se apaixonou pela profissão definitivamente. Já com experiência nos palcos, chamou a atenção de Hollywood. Inicialmente Louis B. Mayer ofereceu uma vaga no filme Mrs. Miniver (1942), mas assustado com um longo contrato de sete anos com a MGM, o ator declinaria o convite. Era o primeiro sinal da rebeldia com a qual se tornou conhecido.

Mais tarde, iria estrear na tela em Rio Vermelho (1948), ao lado de John Wayne. Se você não considerar Os Desajustados como um faroeste, esse foi o único em que participou. Porém, devido a atrasos no lançamento do filme, sua estréia oficial seria em Perdidos na Tormenta (The Searchers), lançado um pouco antes e que já lhe rendeu uma indicação ao Oscar.

Rio Vermelho

Após o sucesso no ano anterior, ele seria escalado para trabalhar ao lado de Olivia de Havilland em Tarde Demais (The Heiress). A atriz que se tornou conhecida por sua parceria com Errol Flynn e também por interpretar Melanie em E o Vento Levou (1939) interpreta uma herdeira que sofre ao se apaixonar por um homem que só deseja seu dinheiro.

Em 1951 Mont conheceria uma das mulheres que faria parte de sua vida de maneira decisiva: Elizabeth Taylor. Durante as filmagens de Um Lugar ao Sol (An American Tragedy), se tornava evidente a química entre os dois atores. No filme, ele é um homem que deseja crescer na vida, mas encontra-se impedido por causa da repentina gravidez de sua namorada, interpretada por Shelley Winters. Ele foi indicado ao Oscar por seu personagem, mas acabou perdendo para Humphrey Bogart.

Um Lugar ao Sol

Um traço fundamental do ator era a boa escolha de papéis. Bastante requisitado, chegou a recusar muitos roteiros, preferindo aqueles que exigiam mais dele. Em 1953 ele encarnaria um padre impedido de contar um segredo sobre um assassinato, no hitchcockiano A Tortura do Silêncio (I Confess). Outros papéis de destaque foram conseguidos em filmes como A Um Passo da Eternidade (From Here to Eternity, 1953) e Os Desajustados (1959). Neste último, trabalharia ao lado de duas estrelas que despediam-se das telas: Marilyn Monroe e Clark Gable. Chocando todos da produção, poucas semanas após terminar as filmagens, Gable morria de um ataque cardíaco. Marilyn morreria também pouco tempo depois, em circunstâncias misteriosas.

ESTILO DE VIDA

Montgomery era um homem retraído mas respeitado por todos que o conheciam. Costuma-se falar muito sobre Marlon Brando e James Dean, mas poucos sabem que ambos foram influenciados por Mont. Imensamente discreto, preferia não frequentar grandes festas e evitava falar sobre sua vida particular. Segundo ele, estar em clubes noturnos eram imensamente solitário: “é um lugar onde você se encontra realmente só”. Ele preferia sempre estar próximo apenas daqueles que o cativavam, seus verdadeiros amigos.

Bastou isso para que o considerassem um rebelde. O ator não gostava de dar entrevistas, e evitava a todo custo viver uma vida de glamour. Preferiu permanecer em Nova York, apenas viajando para Hollywood no período em que filmava. Certa vez ele comentou: “Se eu fosse um vendedor de sapatos e tivesse que trabalhar em Denver por três meses, não significa que eu teria que me mudar pra lá. Eu sou um ator e vou até onde trabalho”. Claro que a imprensa achou estranho que um astro morasse em um apartamento alugado de 10 dólares por mês. Seu estilo de vida simples também chamava a atenção, já que ele não era de esbanjar como muitas estrelas da época. O Los Angeles Times chegou a “acusa-lo” de ter apenas um terno e uma jaqueta.

Mont com alguns amigos
Árvore da Vida

Por causa das pressões da vida pública, ele era ainda mais discreto em sua vida particular. Alguns de seus romances incluíram o coreógrafo Jerome Robbins e o ator Roddy McDowall. Como Rock Hudson e Tab Hunter, foi obrigado a ocultar sua orientação sexual. As manchetes dos jornais cobravam amantes, e os estúdios ofereceram Elizabeth Taylor como isca. Os jornais começaram a insinuar que os dois viviam um romance, mas a verdade é que os unia era uma grande amizade. Cansado de dar respostas evasivas sobre sua vida amorosa, deu um basta à imprensa quando disse que “amava ser uma pessoa solitária, e assim iria permanecer.”

ACIDENTE QUE MUDOU SUA VIDA

Em 1956 a vida dele iria mudar drasticamente após ele sofrer um terrível acidente que deformou toda sua face. Após sair de uma festa na casa de Elizabeth Taylor e seu marido Michael, o ator, que detestava dirigir, bateu com o carro em um poste. Avisada do acontecido, a atriz saiu em desespero ao encontro do amigo, e o que encontrou a deixou aflita: o rosto perfeito de Mont estava com várias lacerações e esmagamentos, além dele ter perdido vários dentes. Elizabeth sentou-se ao seu lado e cobriu seu rosto, para que a imprensa não o fotografasse em um momento tão delicado. Ela apenas saiu do lugar com a chegada de uma ambulância. Ela chegou a relatar em seu livro de memórias que:

“O rosto de Monty escorria sangue e mal podia vê-lo. Mas me arrastei para dentro do carro e coloquei-lhe a cabeça no meu colo. Finalmente, ele voltou a si e começou a tentar puxar um dente solto. E Pediu-me para puxar outro e eu o atendi. Tive que me controlar para não passar mal”.

Segundo os médicos, era incrível que ele ainda estivesse vivo. Foram várias cirurgias para tentar recuperar uma das mais belas faces de Hollywood, mas muito pouco pode ser feito. As filmagens de A Árvore da Vida foram interrompidas. Mais tarde ele retornaria, mas ficava claro que jamais voltaria a ser o mesmo, por vários motivos.

Com Marilyn Monroe

Atormentado com as dores e por perder seus traços, o ator entregaria-se às bebidas e aos remédios, iniciando o que Robert Lewis (professor do Actors Studio) chamou de “o maior suicídio da história de Hollywood). Ele se afastou definitivamente da vida pública, passando por várias outras cirurgias de reconstrução e fisioterapias. O ator ainda faria algumas participações no cinema. A primeira em Julgamento em Nuremberg, fazendo uma pequena participação que lhe rendeu outra indicação ao Oscar. A outra foi em Freud, Além da Alma, em que encarna o famoso psicanalista.

Freud

MORTE

O ator passara alguns meses na Alemanha, onde terminara as filmagens de The Defector, seu último filme. Recolhido à sua casa, sofreu um ataque cardíaco em 23 de julho de 1966. Seu corpo sem vida foi encontrado por seu secretário às seis horas da manhã. Estava sozinho e de bruços. Após o médico ser chamado, a morte do ator de apenas 45 anos foi decretada, deixando vazios aqueles que o amavam.

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Especialista em Cinema Clássico e Crítica Literária, é sobretudo uma curiosa. Fundadora do site Cinemaclássico, estuda o cinema desde 2002. Ama Charles Chaplin, Raj Kapoor e navega constantemente em filmes de todo o mundo.