A Porta de Ouro (1941)

479

A premiação do Oscar de 1941 é lembrado por muitos como aquela que deu o prêmio máximo para “Como era Verde o Meu Vale” preterindo “Cidadão Kane”, produção considerada em termos técnicos superior à primeira. Filmes como Perfídia, Relíquia Macabra e A Porta de Ouro corriam por fora. A Porta de Ouro não tinha grandes expectativas, mas conseguiu indicações às principais categorias como o já citado Melhor Filme, Atriz, Fotografia, Roteiro Adaptado e Direção de Arte. Olivia de Havilland competia neste ano com Joan Fontaine, e sua irmã acabou abocanhando o Oscar por sua atuação em Suspeita, de Alfred Hitchcock.

Revendo “A Porta de Ouro” recentemente, me perguntei como um filme com tal currículo ficou durante tanto tempo esquecido. Para começar, Billy Wilder e Charles Brackett assinaram o roteiro, e se irritaram profundamente quando uma das cenas foi sumariamente tirada da edição final por decisão do diretor Mitchell Leisen e do ator Charles Boyer, que acharam ridícula a cena do personagem Georges falando com uma barata. Mas tal discussão acabou sendo proveitosa para Wilder, que a partir de então passou a dirigir seus próprios filmes.

 O drama romântico conta com um elenco de peso. Além dos já citados Charles Boyer e Olivia de Havilland, a excelente Paulette Goddard, que acabara de estrelar sua última película ao lado do marido Charles Chaplin: O Grande Ditador. Apesar de não estar incluído no subgênero do suspense, o filme traz algumas das características do gênero noir como o mistério, o flashback, a iluminação, a presença da femme fatale.
Iniciamos com um desalentado Georges Iscovescu (Boyer) adentrando nos estúdios da Paramount para tentar vender um roteiro. A história seria inspirada em sua própria vida. A polícia está em seu encalço e ele tem pouco tempo para explicar. O diretor concorda em ouvir e ele começa. Nascido na Romênia, Georges é um dançarino e gigolô que busca alguma forma de emigrar para os Estados Unidos. Para isso ele foi para uma cidade próxima à fronteira do país com o México. Sua amante Anita (Goddard) lhe conta como conseguiu seu visto permanente: casando-se com um homem norte-americano. George parte em busca de uma vítima, tencionando unir-se a ela e tão logo abandoná-la após conseguir o que deseja. E encontra na figura da doce Emmy (Havilland), uma professora que veio ao México com seus pequenos alunos para visitar a feira anual. Seduzindo-a, ele lhe propõe casamento.

A reviravolta da história ocorre quando Georges e Emmy partem para a lua de mel. Conhecendo-a mais profundamente, o gigolô se surpreende ao perceber que está se apaixonando por ela. Extremamente doce e inocente, Emmy apresenta-o a um mundo que ele há tempos havia esquecido, e o homem começa a pensar em uma vida ao seu lado. Retornando para a cidade fronteiriça, Georges conta a Anita que está apaixonado pela esposa. Furiosa, ela procura Emmy e lhe conta o motivo que fez com que ele se casasse com ela. Desiludida, a mulher sai desesperada pela estrada, sofrendo um terrível acidente.

Uma das cenas mais marcantes do filme e que me fez refletir sobre essa imagem de sonho que os americanos plantaram, é a da mãe gestante que sonha em ter seu filho em terras ianques. E ela vai até as últimas consequências para que isto seja possível. Mas será que é um sonho válido? Será que esse sonho de refazer a vida em outro país é a única possibilidade de progredir? Bem, o país onde todos os sonhos são possíveis monta barreiras para que nem todos possam entrar, e a imagem de modernidade e avanço esbarra nas dificuldades para adentrar neste mundo. Em determinado momento, um americano mostra para Georges os prédios de Hollywood: “Você nunca viu prédios tão altos de onde vem!”. Em consonância com esta realidade dos imigrantes, está o hotel onde todos se hospedam e que se chama “Esperanza”.

Com atuações muito sólidas, destaco a de Charles Boyer, um ator francês que estreloumais de oitenta películas, a grande maioria na América. Neste período ele gozava de grande fama, atuando ao lado de grandes estrelas como Bette Davis, Marlene Dietrich, Irene Dunne, Claudette Colbert e Ingrid Bergman. O papel de um gigolô charmoso lhe caía muito bem devido ao tom cínico que ele carregava no olhar. Suas companheiras de tela não estão menos mal. Ambas em seu estilo, Olivia com um tom interpretativo sempre calcado na leveza e Goddard acendendo seu lado sapeca visto em tantos outros filmes.

Uma curiosidade do filme: quando Georges entra no estúdio para falar com o diretor, vemos Veronica Lake e Richard Webb ensaiando para uma cena do filme I Wanted Wings. É muito interessante essa intertextualidade com outra produção, porque fica aquela sensação de espiar pelos bastidores dos filmes. I Wanted Wings estreou também em 1941.

Por fim, A Porta de Ouro, apesar de não ter ganho nenhum dos prêmios citados, merece um lugar de maior destaque. É um filme com um bom desenvolvimento de enredo, com um núcleo interpretativo consistente e uma história realmente comovente de como as pessoas podem mudar seu pensamento. Claro que está ali uma visão meio alienante com relação à América, mas nada que possa desmerecer o conjunto da obra. A Porta que se abre para um novo mundo merece ser vista e revista.

Comente Aqui!