Anthony Perkins, Muito mais que Norman Bates

6018

Anthony Perkins tem sua imagem impreterivelmente ligada ao personagem mais famoso de Alfred Hitchcock, o psicótico Norman Bates, que interpretou aos 28 anos. O fato é que, apesar de não ser um Norman Bates, também Perkins sofreu durante toda a sua vida para livrar-se da relação doentia que tinha com sua mãe e que acabou prejudicando sua vida. Em sua vida particular, Perkins seria um homem complexo e traumático, e que teria dificuldades em seus relacionamentos posteriores, tanto com homens, quanto com mulheres.

Nascido em 4 de abril e 1932 e filho do ator Osgood Perkins e Janet Rage, Anthony tinha pouco contato com o pai, que vivia viajando a trabalho, e desenvolveu um apego bem doentio a sua mãe. Quando Osgood voltava para casa, o pequeno via nele uma ameaça e tinha bastante ciúme. Aos 5 anos Anthony perdeu o pai, que morreu de um ataque cardíaco, e ficou tomado pela culpa.

Osgood Perkins, pai de Anthony

Após a morte do pai, ele apegou-se mais ainda à sua mãe. Jane tinha um temperamento forte e dominava o garoto em todos os sentidos. Segundo Perkins, numa entrevista concedida em 1983 à Revista People, ela chegava a controlar inclusive seus pensamentos mais íntimos. Na mesma entrevista o ator chegou a insinuar que ela o tocava de maneira inconveniente em todo seu corpo, sem perceber o quanto aquilo afligia o garoto. Perkins tornou-se um rapaz que sentia dificuldades de expressar seus sentimentos.

Aos 15 anos ele já tinha decidido que iria seguir os passos do pai e entrou para um grupo de teatro. Finalmente em 1953, aos 21 anos estreava no cinema com uma participação em The Actress, filme estrelado por Spencer Tracy.

Perkins em seu filme de estréia, The Actress (1953)

Em 1957 Perkins foi indicado a Melhor ator coadjuvante por seu papel em Friendly Persuasion (1956) e era o começo de uma série de papéis em que interpretava homens com grandes cargas emocionais. No mesmo ano ele interpretava o jogador de futebol americano e bipolar Jim Piersall. Mas foi em 1960 que sua carreira mudou. Para o bem ou para o mal, tomou um rumo que ele não imaginava.

Anthony foi escolhido para interpretar Norman Bates, um homem aparentemente calmo que gerenciava um hotel numa beira da estrada, mas que na verdade guardava um grande segredo. Graças a um grande plano de marketing, todos falavam da grandes estréia de Psicose, e Norman paralisou as audiências de todo o mundo. Nesse ponto é crível fazer uma comparação entre o personagem de Hithcock e o próprio Anthony Perkins, tão atormentado por sua própria relação com a mãe. O fato é que o personagem foi tão forte que ele volta e meia retornava a ela em sequências não assinadas pelo mestre, em Psico II (1983) e Psico III (1986).

A partir daí ele se tornaria impreterivelmente ligado a Norman, sendo convidado para interpretar personagens com distúrbios diversos e que se caracterizavam por alguma perturbação mental. Em 1983 Perkins chegou a falar sobre essa questão, ao ser perguntado se fazer Psicose tinha prejudicado sua carreira. Ao entrevistador o ator respondeu que fazes Norman ajudou as pessoas a associarem ele a Norman e que isso tinha seu lado bom e mau.

Relacionamentos Pessoais

Com Tab Hunter

Se ainda hoje os homossexuais sofrem discriminação por sua orientação sexual, imaginem no contexto da década de 50 e 60. Na época, um ator assumir-se gay era inaceitável e motivo para exclusão de muitos projetos, o que nos causa ojeriza tendo em vista que a maior parte das pessoas envolvidas na indústria cinematográfica sejam homossexuais. Mas o fato é que, embora sempre presentes em todas as fases da produção, os gays não eram bem vindos ao público final, aquele que lotava os cinemas. E muitos foram os astros que sofreram com isso, tendo por obrigação casarem-se para taparem possíveis fofocas (o do ator Rock Hudson foi um dos afetados).

Perkins era um homem bem privado com relação a sua vida e tentava esconder sua sexualidade o tanto quanto podia. Tanto que o que temos até hoje são somente rumores. Dentre seus supostos relacionamentos amorosos estariam Grover Dale, Tab Hunter, Teno Pollick e Paul Newman. Ele conheceu Paul Newman em 1954, quando este se mudou para um apartamento no Chateau Marmont e a partir daí ficaram muito amigos e chegaram a sair algumas vezes, embora nunca tenham assumido um namoro. Há rumores que o relacionamento deles teria durado um bom tempo, até mesmo após o casamento de Newman com Joanne.

Com Paul Newman

Apesar de sua conhecida timidez, Perkins era alvo de algumas mulheres, mas sentia-se sempre acuado perto delas. Segundo o ator, um encontro particularmente constrangedor ocorreu com Brigitte Bardot, que ao demonstrar suas intenções românticas com o galã teria deixado ele imensamente desconfortável.

Com Brigitte Bardot. Os dois trabalharam juntos em 1964

O ator se submeteu a psicoterapias em busca de uma “cura” para sua homossexualidade. Em 1972 ele conheceu a atriz Victoria Principal, durante as filmagens de The Life And Times Of Judge Roy Bean. Foi com ela, aos 40 anos, que ele teve sua primeira relação sexual com mulheres. No ano seguinte ele conheceu e casou-se com Berry Berenson, uma fotógrafa, com quem teve dois filhos, Elvis e Oz. Segundo Berry, o casamento foi feliz, e ela esteve ao seu lado até o fim.

 

 

Anthony com Berry
Em 1990 o ator foi diagnosticado com AIDS, e decidiu manter segredo sobre o assunto. Ele temia que não recebesse mais convites para atuar. Pouco antes de morrer, em 1992 ele deixou um comunicado oficial, despedindo-se de seu público: “Eu aprendi mais sobre o amor, o altruísmo e a compreensão humana com aqueles que encontrei no mundo da AIDS do que no mundo cruel, marcado pela rivalidade, em que passei minha vida”.
Berry, a viúva de Perkins, a que ele sempre descrevia como sendo uma mulher maravilhosa, faleceu de forma trágica, no 11 de setembro de 2001. Ela era uma das vítimas do avião da American Airlines que se chocou contra o World Trade Center.

Comente Aqui!

COMPARTILHAR
Artigo anteriorRede de Intrigas (1976)
Próximo artigoA Garota do Adeus (1977)
Formada em Letras, Design e Especialista em Estudos cinematográficos. É sobretudo uma curiosa sobre o cinema. Fundadora do site Cinemaclássico, estuda cinema desde 2002. Ama Charles Chaplin, Raj Kapoor e navega constantemente em filmes de todo o mundo.