21 de agosto de 2026

Laura Cardoso: a atriz que transformou oito décadas em memória brasileira

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Laura Cardoso pertence à rara categoria de artistas cuja trajetória se confunde com a própria história cultural do país. Nascida Laurinda de Jesus Cardoso, em 13 de setembro de 1927, no Bixiga, em São Paulo, filha de imigrantes portugueses, ela descobriu ainda criança o prazer de representar. Aos seis ou sete anos, improvisava pequenos teatros com outras crianças do bairro. A brincadeira ganhou destino profissional aos 15 anos, quando, apesar da resistência inicial dos pais — comum numa época em que a profissão de atriz era cercada de preconceitos —, fez um teste para a Rádio Cosmos e entrou para as radionovelas. Foi também nessa fase que escolheu o nome Laura Cardoso, por considerá-lo mais sonoro para a carreira.

O rádio lhe deu uma escola decisiva: antes de o rosto aparecer na tela, Laura aprendeu a construir personagens pela voz, pela dicção e pela imaginação. Depois de passagens por emissoras como Tupi e Difusora, tornou-se uma das pioneiras da televisão brasileira. Estreou na TV Tupi em 1952, no programa Tribunal do Coração, e acompanhou a consolidação do novo meio, trabalhando em teleteatros e telenovelas. Ao longo das décadas seguintes, passou por Tupi, Record, Excelsior, Bandeirantes e, a partir de 1981, pela Globo, onde Daniel Filho a convidou para Brilhante.

Mas reduzir Laura à televisão seria diminuir sua dimensão artística. O teatro foi o espaço em que aprofundou sua técnica e reafirmou sua independência criativa. Sua estreia profissional nos palcos ocorreu em 1959, com Plantão 21, sob direção de Antunes Filho. A parceria com o diretor seria particularmente importante: em Vereda da Salvação, de Jorge Andrade, Laura alcançou uma de suas interpretações mais celebradas, recebendo o segundo Prêmio Shell de sua carreira. Também trabalhou com Antônio Abujamra em montagens como Volpone e Órfãos de Jânio, com Flávio Rangel em A Nonna e, mais tarde, com Gabriel Villela e Miguel Falabella.

Essa formação teatral ajuda a explicar a força de suas personagens televisivas. Laura não precisava de grandes gestos para dominar uma cena: um olhar, uma pausa ou uma alteração quase imperceptível na voz podiam revelar uma história inteira. Ela transitava naturalmente entre o trágico, o cômico, o popular e o sofisticado, sem transformar seus personagens em caricaturas. Em sua própria visão do ofício, o teatro era a base da formação: “o palco não mente”, ensinava, defendendo a experiência diante do público como a grande escola do ator.

Na televisão, essa versatilidade produziu uma galeria inesquecível. Donana, em Pão-Pão, Beijo-Beijo; Isaura, em Mulheres de Areia; Guiomar, em A Viagem; Dona Carmem, em Chocolate com Pimenta; Laksmi Ananda, em Caminho das Índias; Dona Sinhá, em Sol Nascente; e Matilde, em A Dona do Pedaço, demonstraram sua capacidade de atravessar gerações sem perder intensidade. Em mais de seis décadas de novelas, Laura poderia ser doce, severa, engraçada, religiosa, atormentada ou ameaçadora — e sempre parecia existir antes mesmo de entrar em cena.

O cinema ofereceu outra dimensão de sua sensibilidade. Depois de estrear em Imitando o Sol (1964), Laura participou de filmes como Corisco, o Diabo LoiroQuincas BorbaTerra EstrangeiraAtravés da Janela e O Outro Lado da Rua. Em Terra Estrangeira (1995), dirigido por Walter Salles e Daniela Thomas, interpretou Manuela com uma humanidade silenciosa que impressionou os realizadores. Já em Através da Janela (1999/2000), de Tata Amaral, recebeu prêmios de melhor atriz nos festivais de Recife e Miami. Sua filmografia ultrapassou três décadas de produções e comprovou que sua força não dependia do veículo.

Na vida pessoal, Laura teve um único casamento, com Fernando Balleroni, ator, diretor, roteirista e produtor que conheceu no ambiente artístico. Eles se casaram em 1949 e permaneceram juntos até a morte dele, em 1980. Tiveram as filhas Fátima e Fernanda e enfrentaram também a dolorosa perda de um filho, José, poucos dias depois do nascimento. A relação com Balleroni foi, portanto, também uma parceria entre profissionais que conheciam as exigências e instabilidades da vida artística. Viúva aos 52 anos, Laura não voltou a se casar e preservou, ao longo da vida, a memória do companheiro.

Seu discurso sobre a profissão era direto e revelador. “Quero ser a melhor”, afirmou certa vez, explicando uma ambição que não vinha de vaidade, mas do compromisso com o trabalho. Em outra ocasião, resumiu sua relação com a carreira: “Amo representar”. E, ao falar sobre a própria morte, respondeu com serenidade: “Dormindo!”, expressando o desejo de uma partida tranquila. As três frases revelam uma mulher que encarava a arte com disciplina, a vida com gratidão e a finitude sem espetáculo.

A admiração que despertava entre os colegas confirma a dimensão de sua influência. Tony Ramos, parceiro desde os tempos da TV Tupi e colega em Caminho das Índias, chamou-a de “minha rainha”, lembrando sua dedicação, generosidade e lucidez.  Fernanda Montenegro, com quem contracenou em O Outro Lado do Paraíso, foi ainda mais enfática: disse que Laura era “a maior atriz” que conhecera e um exemplo de mulher, atriz e colega.  Lima Duarte, outro companheiro de longa trajetória televisiva, recebeu dela uma demonstração recíproca de respeito: Laura afirmou que ele era “especial” e que dava aulas quando representava — síntese de uma admiração entre duas referências de gerações próximas.  Já Miguel Falabella, amigo e parceiro de teatro e televisão por mais de quatro décadas, destacou sua combinação de talento, generosidade e capacidade de criar um ambiente de trabalho alegre e humano.

Laura Cardoso morreu em 17 de agosto de 2026, aos 98 anos, em São Paulo, depois de mais de oito décadas dedicadas à interpretação. Sua despedida provocou homenagens de artistas, emissoras e instituições culturais, mas seu verdadeiro legado não cabe em prêmios ou números. Está nas personagens que continuam reaparecendo, nas técnicas transmitidas entre gerações e na ideia de que uma atriz pode envelhecer sem abandonar a curiosidade, o rigor e o prazer de atuar.

Ao partir, Laura deixou uma ausência concreta nos palcos e nas telas, mas também uma presença duradoura na cultura brasileira. Sua carreira mostrou que longevidade artística não significa apenas permanecer em atividade: significa continuar relevante. Para atores, diretores e espectadores, Laura Cardoso permanece como uma dessas figuras que ensinam sem precisar dar lições — pela voz, pelo olhar, pela disciplina e, sobretudo, pela extraordinária capacidade de fazer cada personagem parecer verdadeiramente vivo.

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