Anatomia de um Crime (1959)

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Anatomia de um Crime foi dirigido por Otto Preminger, que desenvolveu uma simpatia extrema por filmes com temáticas similares. O diretor era filho de um promotor público, e passou muitas tardes assistindo a vários julgamentos, contribuindo assim para sua carreira posterior.

O advogado Paul Biegler (James Stewart) passa por dificuldades financeiras. Não há perspectivas de vida: sua secretária está com os salários atrasados e tem como auxiliar Parnell McCarthy (Arthur O’Connell), um homem astuto, porém entregue às bebidas. Logo Biegler recebe uma ligação com uma proposta de defender Frederick Manion (Ben Gazzara), um tenente do exército acusado de assassinato. Ao saber dos fatos relativos ao caso, Biegler pensa inicialmente em não aceitar a defesa por não acreditar em sua inocência. Porém, após ouvir o réu contar sua versão, decide assumir o caso.

Ben Gazzara como Manion

 

Manion lhe explica que não lembra muito bem a sequência dos fatos, mas que matou o homem após ver sua esposa Laura (Lee Remick) chegar em casa após ter sido estuprada por ele. Em um estado insano, saiu do local e se encaminhou para o bar, cometendo o assassinato. O réu não nega em nenhum momento ter cometido o crime, e que sofreu insanidade temporária. É nisto que a defesa irá se firmar. A acusação apostará em fatos morais, desmerecendo Laura, que considera ter incitado tudo.

O livro escrito por Robert Traver foi baseado em uma história real ocorrida em 1952. O julgamento foi realizado no mesmo ano e a defesa baseada em insanidade por impulso irresistível. Tal defesa não era usada desde 1886, e tornou-se histórica. O réu foi examinado por um psiquiatra e afirmou que era são. Wendell Mayes adaptou para as telas e o roteiro foi conduzido de forma quase didática, deixando fluir as quase três horas de exibição. O didatismo vem do fato de nós, leigos no assunto, aprendermos alguns termos e costumes jurídicos em voga no período.

 

Lee Remick como Laura

As personalidades são mostradas em suas fragilidades, permitindo ao espectador uma visão humana de cada um deles. Desde os advogados de defesa e acusação, que num jogo que permite torcidas, expõem seus pontos de vista sobre um crime. Eles utilizam-se de joguetes e uma pitada de humor ácido. Também o réu, vítimas e testemunhas são questionadas e apresentadas com seus defeitos e qualidades. Escolhemos naturalmente o lado de Biegler, mas não conseguimos tirar da cabeça as dúvidas sobre se o que ele defende é de fato a verdade.

Estaria nosso advogado realmente defendendo o lado certo? O que seria o certo ou o errado? A postura da vítima seria um motivo plausível para ser abusada? Mover-se através do filme com essas dúvidas é grandioso, porque nos leva à reflexão através da riqueza dos diálogos diretos e sem subterfúgios.

Um breve olhar da esposa e do marido

O elenco traz os já consagrados James Stewart, George C. Scott, Lee Remick e Ben Gazzara que nos presenteiam com interpretações magistrais. E mesmo que Stewart fosse um homem que em sua vida real tivesse limitações em aceitar determinados pontos de vista que considerava imorais, demonstrou inteiro profissionalismo. Spencer Tracy e Burl Ives foram sondados para o personagem do juiz, mas recusarem por já estarem exaustos de interpretarem juízes. Acabou ficando a cargo de Joseph Welch, que era do meio jurídico e se tornou conhecido sobretudo enquanto representou o Exército dos EUA nas audiências em que desafiou Joseph McCarthy.

George C. Scott como a acusação

Há outra questão interessante sobre essa drama. Segundo o IMDB, foi um dos primeiros a abordar a questão de estupro e sexo citando termos diretos e que chocaram muitos na época. Dentre as pessoas que não concordaram muito com esse caráter tão claro foi James Stewart, conhecido por seu puritanismo. O ator contestou que o uso de termos como “calcinha” foi usado de forma tão explícita, e chegou a fazer uma campanha para que as pessoas que se incomodassem com isso não fossem assistir ao filme. A trilha sonora, uma das mais famosas do cinema, foi composta por Saul Bass e Duke Ellington.

É interessante perceber também o quanto a acusação se baseia em também condenar a mulher, insinuando que seu comportamento teria motivado o crime. Laura tem um comportamento livre, gosta de dançar e se divertir. Seu marido é ciente de sua presença magnética, gosta de apresenta-la a todos, mas morre de ciúmes. O popular machão que utiliza-se de força para coagir ao mesmo tempo que se delicia com olhares sobre sua “posse”. A defesa também, de certa forma, acredita na potencialidade da mulher na provocação, pedindo à mesma que vista-se de maneira que considera mais decente. Esse fator se torna interessante ao percebermos que ainda é atual, e que muitas defesas sobre acusações de estupro são respondidas da mesma maneira: a vítima foi culpada por provocação.

Anatomia de um Crime (Anatomy of a Murder), consta na lista de melhores dramas de tribunal feita pela AFI (American Film Institute). Não é por menos.

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