Mamãezinha Querida (1981) | Joan Crawford está de volta

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No documentário que acompanha o dvd de Mamãezinha Querida, as atrizes Diana Scarwid e Rutanya Alda falam sobre a os possíveis motivos que levaram Faye Dunaway a se calar sobre sua participação no filme hoje considerado cult. Dentre eles estaria a decepção que a atriz teve após o filme ser mal recebido pela crítica. Ela não esperava tal reação tão ácida. No mesmo documentário, o produtor afirma que a entrega da atriz ao papel foi absoluta e que em diversos momentos todos tinham uma impressão de que estariam diante não de Faye, mas da própria Joan Crawford.


Foi somente este ano que a atriz quebrou o silêncio de décadas. Em entrevista concebida, ela afirmou que lamentava profundamente ter feito o filme. Segundo Faye, “O filme marcou profundamente minha carreira e as pessoas acabaram por ter uma impressão errada de mim. E isso é uma coisa difícil de vencer. Eu deveria ter analisado o projeto melhor antes de entrar nele.”. O fato é que, impressionada por uma entrevista dada pela própria Joan Crawford em que ela falara que Faye seria a única atriz de sua geração que ela considerava uma estrela, a atriz mais jovem quis de alguma maneira fazer jus ao título. E de fato o fez papéis memoráveis demais, basta lembrar de suas participações em filmes como Chinatown e Bonnie & Clyde.

O fato é que, décadas após seu lançamento, o filme consegue ser igualmente amado e ou desprezado até mesmo por aqueles que admiram Joan Crawford e odeiam o sensacionalismo do livro em que foi inspirado. Escrito por uma vingativa Christina Crawford, Mommie Dearest pinta uma Crawford tão malvada que teria feito inveja a qualquer vilão da década em que foi lançado. Outro ponto que merece revisão é a exagerada e caricata interpretação de Faye, que acabou fascinando um público que não se esperava e a tornando rainha da bitchs.

 
 Dunaway foi capaz de grandes extremos, observados em cenas em que sua personagem colérica joga sabão no chão (ela era obcecada por limpeza), endemonia-se atirando os cabides de arame nas costas da amada filha (seu momento mais sublime) e corta uma árvore com uma força de dez homens porque foi rejeitada por L. B. Mayer. Neste ponto, posso dizer que a interpretação de Dunaway foi tão fortemente caricata que acabou por confundir o próprio público com relação à estrela: eles não sabiam se estavam diante da atriz ou uma Crawford incorporada.

 E tem também o fator Crawford: Ao tratar de um tema tão delicado como a relação de uma estrela do esplendor de Crawford e seu turbulento relacionamento com a filha, os produtores mexeram num vespeiro. A atriz que viera de uma infância extremamente pobre conseguiu alcançar um patamar que poucas alcançariam, passando por fases em que era considerada um veneno de bilheteria e recebendo um Oscar quando ninguém mais acreditava. A capacidade de resistência a tornou forte, talvez forte demais para lidar com crianças. Mas o fato é que jamais saberemos a verdade nisso tudo.

No final, Mamãezinha Querida acabou se tornando o tipo de filme que não há como odiar e que merece ser visto e revisto até todas as suas falas saírem performáticas como nossa personagem preferida.

* Este filme está sendo lançado pela Obras Primas do Cinema e pode ser adquirido em qualquer loja do ramo ou na Livraria Cultura.

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