Minha Bela Dama (1964)

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“My fair lady”, o musical baseado na obra de Alan Lerner e Bernard Shaw, estreou na Broadway em 1956, tendo a jovem atriz Julie Andrews no papel principal, ao lado do veterano Rex Harrison. Andrews, apesar de estreante, recebera as melhores críticas pelo seu desempenho. Quando a história foi cogitada para ir a para as telas novamente (“Pigmaleão” já havia sido levada às telas por Gabriel Pascal, em 1938, tendo Leslie Howard e Wendy Hiller nos papéis principais), ela seria substituída por outra atriz. Seria o início de um problema. Quase todo o elenco da peça foi aproveitado, exceto a Julie, criando um mal estar geral. Falava-se que a atriz se negara a fazer um teste para o papel, mas o que realmente ocorreu foi que os produtores iriam investir muito alto, e queriam uma atriz de nome para interpretar Eliza.

Julie Andrews era boa, mas não tinha a fama que era esperada para uma produção tão grande quanto aquela. Foi sugerido o nome de Audrey Hepburn, que vinha de sucessos como Breakfast at Tiffany’s (Bonequinha de Luxo) e Sabrina. Dentre os atores cogitados para o papel do professor, estavam Stanley Holloway, Noel Coward, Michael Redgrave e Cary Grant, porém, após diversas negociações, o papel ficaria com Rex Harrison, que o interpretara durante seis anos na Broadway.

My fair lady conta a história do professor de fonética Henry Higgins, que, arrogante, faz uma aposta com um amigo, de que é capaz de transformar qualquer mulher numa dama, bastando para isso um treino intensivo. Ele vê na rua uma pobre vendedora de flores, Eliza Doolittle, que tem um sotaque cockney terrível, e resolve “treina-la” durante seis meses, para uma aparição dela em um baile. Eliza é praticamente uma mendiga, tornando uma tarefa difícil colocar-lhe qualquer vestígio de elegância. Uma história de Cinderela ao avesso, pois a fada madrinha em questão trata-a sempre como uma “experiência”, com repulsa. O ponto alto é quando o professor começa a amolecer o coração com aquela que ele julga inferior. My fair lady, é antes de tudo, uma história de amor, embora não tenhamos nem ao menos um beijo.

Audrey cumpre bem seu papel como Eliza. Ela não estava muito à vontade, pois a Imprensa da época a bombardeava por ter “roubado” o papel que pertencia a Julie Andrews. Nada mais injusto. Alguns anos atrás ela interpretara um papel que fora feito para Marilyn Monroe, em Bonequinha de Luxo. O público a perdoara, pois sua interpretação realmente não deixara dúvidas da escolha final, e hoje em dia fica difícil conceber outra atriz no lugar dela, em Bonequinha. Agora, com Eliza, o público parecia não acreditar que ela cumpriria bem seu papel, a começar pela voz. Por ser um musical, era essencial saber cantar, algo que Audrey fazia bem, mas que não convencia aos produtores.


Para quem estava acostumada com os gestos nobres e elegantes, de Audrey, fica difícil vê-la e convencer-se na primeira parte do filme com seus trajes, gestos e sotaques nada principescos. Mas na segunda parte, Hepburn parece imbatível como a bela dama, já treinada. Rex Harrison, por sua vez, dá um show de interpretação na pele de Higgins, já que conhecia o papel há longo tempo.

My Fair Lady é daquelas películas que, antes de tudo, servem para o divertimento descompromissado, para belas tardes de domingo. Bem coreografado por Hermes Pan, com músicas redondas, figurino assinado por Cecil Beaton e cenários teatrais, além de um jogo de cores poucas vezes tão bem colocados nas telinhas fazem do filme uma diversão garantida.

O único porém do filme acabou sendo a dublagem de Audrey Hepburn. A atriz cantou em todas as cenas, porém, sua voz foi substituída na versão final pela dubladora Marni Nixon, o que a deixou bastante triste. Segundo o ator Jeremy Brett, a sensação tanto de Audrey quanto a dele (que também foi dublado), foi de decepção ao verem a cópia já dublada. A atriz teria saído da sala, visivelmente irritada, mas voltaria no dia seguinte, sensata, e pedindo desculpas pelo gesto que julgou mal educado. Recentemente foi lançado um dvd comemorativo do filme, nos presenteando com o que restou do som original. Fica claro que perdemos muito, pois, apesar de não ser uma cantora nata, Audrey empresta todo o seu charme e interpretação às versões, não ficando nada a dever a Marni Nixon.

O filme ganhou 08 Oscars, incluindo o de melhor Filme e diretor. Curiosamente Audrey, elegantíssima como sempre, não concorreu como melhor atriz, mas, como obra do destino, acabou vendo Julie Andrews ganhar a estatueta por Mary Poppins, numa das maiores calças justas da história do Oscar.

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