A Noite Americana (1973)

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“Noite Americana;” é um processo em que um filtro é colocado em frente à câmera e produz o efeito de noite numa cena realizada de dia. Nada mais justo dar título a um filme que fala sobre filmes, uma verdadeira e justa prova de amor do cineasta François Truffaut. Na sinopse, elenco e produção estão realizando as filmagens de A Chegada de Pamela, filme em que a nora se apaixona pelo sogro e o diretor tem que lidar com os mais diversos problemas que aparecem nos sets de filmagens, desde a depressão de um ator até o inusitado gato que não consegue atuar.

“A Noite Americana”  foi lançado no Festival de Cannes, e após insucessos anteriores (Uma Jovem Tão Bela Como Eu e As Duas Inglesas e o Amor não foram bem recebidos), esperava-se uma retomada na carreira do diretor de Os Incompreendidos e um dos criadores do movimento Nouvelle Vague.

Ver o filme é mergulhar no universo de Truffaut como um amante do cinema e conhecer por dentro os artifícios utilizados em seus filmes. Em uma cena Ferrand (Truffaut)  escuta a trilha sonora que será utilizada em A chegada de Pamela. A mesma trilha utilizada por ele no romance “As Duas inglesas e o Amor” se transforma em uma declaração de amor quando ele joga os livros de cineastas que ele admira como Hithcock, Godard e Rosselinni.

Em outro momento vislumbramos um vaso que Ferrand carrega do hotel e leva para ser usado no filme. O mesmo vaso é visto em seu filme Fahrenheit 451, único filme que ele fez na língua inglesa. Truffaut tinha problemas de audição e isso também é usado no filme. Aprendemos um pouco mais sobre o efeito de uma luz colocada atrás de uma vela, ou como a iluminação de cena faz toda a diferença. Assim também sua forma de tratar seus companheiros de trabalho, com sutil delicadeza ao corrigir a postura dos atores, com a atenção no encaixe das mãos, no posicionamento do rosto, na entonação da voz.

Em alguns momentos temos a impressão de observar por um buraco de porta o relacionamento do diretor com sua produção. Segundo o depoimento do  diretor de fotografia Pierre-William Glenn, o que é visto no filme é bem próximo do que realmente ocorria entre Jean-Pierre Léaud e Truffaut. Léaud, que teve sua estréia no cinema como o personagem Antoine Doinel, não por acaso o Alter ego do próprio diretor seguiu boa parte de sua carreira se dividindo entre os dois criadores da nouvelle vague e faz parte de um elenco que contribuiu bastante para o sucesso do filme.

Valentina Cortese interpreta a atriz de meia idade com dificuldades de decorar, e a cena em que ela tem dificuldade de decorar a saída de cena por uma porta, serve para mostrar os vários tipos de perspectivas quando ela sempre erra a porta, abrindo a do armário ao invés da saída. Cada vez que a cena é repetida, a câmera mostra um diferente posição. Jean-Pierre Aumont já era uma lenda do cinema francês e bastante conhecido na América, assim como Jacqueline Bisset que interpreta a mulher que se apaixona pelo sogro. Nathalie Baye interpreta a assistente Joelle,  uma homenagem à assistente Suzzane Schiffman, que colaborou com Truffaut em quase todas as suas produções. Alguns assistentes do diretor fazem seu próprio papel no filme.

Não por acaso “Noite Americana” foi sucesso de público e de crítica. Ganhou o Oscar de Melhor Filme estrangeiro, além de ter rendido outros prêmios e indicação ao Oscar de Melhor diretor e continua sendo um dos grandes filmes a tratar de filmes, apesar de outros terem sido feitos com essa mesma temática.

 

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