Marty (1955)

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Eis aqui a história de um homem chamado Marty (Ernest Borgnine). Ele é como qualquer pessoa que não se encaixe em um padrão, seja em uma pequena ou grande metrópole. Seja em 1950 ou em 2018. Marty é um rapaz bom, trabalha dignamente, tem uma mãe que ama e é respondido compreensivamente. Porém há um problema nisso tudo. Desde seus vizinhos, passando pelos amigos, clientes e família: todos querem que ele se case o mais rápido possível.

A sociedade onde ele vive tem regras muito claras: ele já passou dos 30, seus irmãos e irmãs já estão encaminhados (diga-se casados) e Marty não consegue encontrar sua cara metade. Porque? E olha que não falta quem tente empurrá-lo em diversas situações: sejam encontros às cegas, levando-o a locais que o desagradam ou procurando de todos os meios encaixa-lo em métodos de conquista.

Ernest Borgnine e Esther Minciotti no papel de filho e mãe

Numa dessas saídas, acontece um imprevisto. Ele conhece Clara (Betsy Blair), uma mulher inteligente, independente financeiramente, mas que traz vários traços em comum com Marty: também é solitária, vive com os pais e tem com eles uma relação de co-dependência que a impede de alçar novos voos. Os dois, em seus mundos tão parecidos, se dão bem. A conversa flui, algo surge. Eles combinam de se encontrar no dia seguinte. É aí que começa o drama.

As mesmas pessoas que o empurravam para um relacionamento, ao vê-lo prestes a ter um encarregam-se de mostrar que são ainda mais inseguras que ele. Seu melhor amigo tem um surto ao ver-se solitário, sua mãe transforma-se num mar de dúvida ao pensar que ficará sozinha e abandonada e os “amigos” começam a colocar defeito em uma mulher que nem conhecem, reduzindo-a a alguém esteticamente feia. Como se Marty fosse o Miss América. Mas tudo bem.

Ernest Borgnine e Joe Mantell, amigos encalhados

Marty trata de um tema muito pertinente, que, como citei acima, encaixa-se à sua maneira tanto àquela década quanto à atual. Isso se pensarmos que, mesmo hoje em dia, quem não se encaixa em determinadas tribos dificilmente terá paz para seguir seu caminho, seja escolhendo seus rumos na carreira, seja escolhendo sua parceria ou simplesmente querendo ser só.

A questão de escolher estar só não é tocada no filme, mas estes também seriam “contemplados” como diferentes para a sociedade que deseja caixas fechadas e repetição de padrões infinitamente. Todos encontrarão certa dificuldade até dar-se ao luxo de escolher ser “egoísta” e tratar de escolher onde está sua própria felicidade.

Ernest Borgnine e Betsy Blair

Falar sobre egoísmo nesse caso é algo vital. Afinal, todas as outras pessoas que o cercam estão também sendo egoísta. Seja a mãe e o amigo com medo de ficarem sozinhos ou os amigos que não querem perder aquele que sempre irão ficar com pena no final. Porque convidar Marty os faz se sentir melhor do que são, embora sejam eles os mais fracassados de todos.

Podemos dizer que, exceto esses “amigos”, há ainda mais uma questão que é tratada de maneira tocante: as mulheres que dedicam sua vida aos maridos e filhos, e na ausência destes se veem sem função. Em tempos atuais, ainda vemos muitos destes casos, mas a personagem de Clara aponta para um caminho diferente: ela é uma profissional, não há um indicativo de que irá se desapegar de seu trabalho, e mesmo que o faça, ela aconselha à futura sogra: porque não encontrar algo a se dedicar agora? E sempre há!

Ao dar uma pista de que não deseja ser uma mulher assim, Clara assina uma sentença de que seus dias podem ser melhores Mesmo assim precisa de um sim de Marty, para estes dias venham. Não podemos exigir demais. Trata-se de um filme da década de 50 e que mesmo assim trata do tema de forma adorável.

Marty é de uma simplicidade incrível, e mesmo que em alguns pontos tenha envelhecido, traz essas questões pertinentes e sobre como muitas vezes exigimos demais de nós mesmos para agradar outros. Ou sobre como no final das contas é necessária uma atitude enérgica para seguir seu caminho. Mesmo que ela esteja totalmente fora dos padrões.

Algumas curiosidades sobre Marty

O primeiro ponto a tratar aqui é que ninguém esperava que um filme tão simples fosse se transformar nesse sucesso. Tanto que Burt Lancaster inicialmente nem disse que era um dos produtores. E olha que quando digo que não havia grandes perspectivas não estou exagerando: esta era uma adaptação de um filme feito dois anos para a tv, tinha um orçamento apertadíssimo, seria dirigido por um diretor estreante  (Delbert Mann) e ainda rolava pelos bastidores uma guerra interna entre Gene Kelly e a United Artists. Explicarei.

Betsy Blair e seu marido Gene Kelly

Betsy era uma mulher adorável embora hoje em dia seja pouco lembrada. Naqueles tempos de caça às bruxas, era assumidamente de esquerda e estava sendo investigada de perto pelo comitê. Seu nome chegou a constar na famigerada lista negra. Foi preciso que Gene Kelly ameaçasse a United Artists, dizendo que jamais voltaria a distribuir seus filmes com eles, para que o nome de sua esposa não fosse riscado do elenco.

Deu certo. Uma atriz excelente, Betsy chegou a concorrer ao Oscar daquele ano, mas não ganhou. Mas alguns anos depois, já separada de Gene, seguiu carreira na Europa, devido à perseguição.

Concorrendo a vários prêmios, Marty ganhou os seguintes Oscars: Melhor Ator (Ernest Borgnine), Filme, Direção e Roteiro (Paddy Chayefsky). Borgnine também ganhou o Globo de Ouro de Melhor ator e o filme a Palma de Ouro em Cannes, algo surpreendente Enfim. Essas magias que só o cinema pode nos proporcionar.

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