George Cukor: A Marca da Perfeição

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George Cukor é um dos meus diretores favoritos, e embora muitas vezes não liguemos seu nome aos créditos de algum filme tenho certeza que muitos também o admiram embora por vezes não ligue a obra ao seu criador. Entendo isso perfeitamente, pois na maioria das vezes os atores são mais lembrados e a marca de quem os ajudou em suas performances são deixadas de lado.

Cukor foi um dos diretores mais conceituados em Hollywood, um profissional que com seu extremo perfeccionismo e elegância, dirigiu alguns dos filmes mais marcantes de sua época. Um homem que era capaz de gastar rolos de filme para que as cenas saíssem com o máximo de perfeição. Ele também era capaz de mover a câmera graciosamente em cenários deslumbrantes.  As longas sequências e uma técnica cinematográfica marcante fez com que, mesmo trabalhando com diversos diretores de fotografia ao longo da carreira, mantivesse um ritmo constante.
O diretor era conhecido também por conseguia suscitar performances maravilhosas de seus atores, principalmente pelas mulheres. Ele, aliás, era conhecido como um “diretor de mulheres”, trazendo as principais estrelas da época em suas obras. Dentre as preferidas, Katharine Hepburn, que esteve com ele em dez produções, Joan Crawford e Ingrid Bergman. Rótulo este que ele detestava e que refutava dizendo que foram os homens dirigidos por ele que conseguiram mais prêmios. Trabalhando em quase todos os gêneros, era perfeitamente adaptado ao sistema de estúdios, exercendo um poder criativo profundo nas obras, mesmo não levando crédito nos roteiros.

George Cukor nasceu em 7 de julho de 1899 em Nova York. Começou a cursar Direito, mas a paixão pelos palcos gritou mais alto e ele seguiu seus sonhos. Em 1925 surgiu a primeira grande oportunidade e o jovem fez sua estréia na direção no teatro com “Antonia”, escrita por Melchior Lengyel. Nesta década ele dirigiu mais de seis atrações na Broadway, trabalhando com Ethel Barrymore e Jeanne Eagels. Em 1928 o cinema o chamava e ele assinava com a Paramount.

The Tarnished Lady (1931)
O final dos anos vinte marcou profundamente Hollywood como nenhuma outra. Nesse período os filmes falados substituíam paulatinamente os silenciosos e se tornava palco para aqueles que se adaptassem à nova realidade. O primeiro filme em que Cukor foi citado nos créditos foi The Tarnished Lady, realizado em 1931. O filme trazia a diva Tallulah Bankhead como protagonista. Neste ano, porém, ele mudou-se para a RKO à convite de David O Selznick. Começaria aí uma amizade que duraria toda a vida, com Katharine Hepburn. Little Women (1933) trouxe sua primeira indicação ao Oscar de Melhor diretor. Na MGM teve Jean Harlow como estrela em Dinner at Eight e uma nova indicação ao Oscar. A terceira indicação viria com a produção de Romeu e Julieta (1936), clássico baseado na obra de Shakespeare que trazia os demasiados adultos Norma Shearer e Leslie Howard nos papéis principais.
Nesta época já era considerado um dos melhores diretores de Hollywood e bem querido no meio. Homossexual conhecido no meio em uma época repleta de tabus, realizava festas em sua casa que se tornaram conhecidas no meio. Lá seus amigos podiam aproveitar a piscina e bebericar à vontade, encontrando sempre um bom motivo para conversas. Cukor bebia moderadamente e tinha como amigos íntimos, além da já citada Katharine Hepbun, John Barrymore e Spencer Tracy, conhecidos beberrões.
Cukor com sua grande amiga Katharine Hepburn
Em 1936 assumiu a direção de Gone With the Wind, mas problemas na produção fizeram com que ele fosse demitido. A controvérsia continuou, pois Olivia de Haviland e Vivien Leigh continuavam a ensaiar suas performances com ele. O culpado da demissão teria sido Clark Gable, que não estava contente com os rumos de sua direção e exigiu que ele saísse. Dentre comentários jocosos, o ator teria dito que não queria ser dirigido por uma “fada” e sim por um homem.
The Woman (1939), um estrondoso sucesso, trazia grandes estrelas femininas no elenco e que se tornou um dos maiores sucessos daquele verão. Foi somente na década de 50, com Star is Born, que ele realizaria seu primeiro filme em cores. Sobre as filmagens, é válido salientar que ele ficou muito impressionado com a carga emotiva empregada por Judy Garland em algumas cenas, e em especial à que ela descobre que seu marido cometeu suicídio. A explosão de sentimentos da atriz foi algo que surpreendeu até mesmo um diretor experiente como ele.

O prêmio de Melhor Diretor viria apenas com My Fair Lady, de 1964. A década seguinte o levou a dirigir alguns filmes para a televisão. Seu último filme foi Rich and Famous (1981). O diretor faleceu aos 83 anos em 24 de janeiro de 1983 de causas naturais. Após sua morte, Patrick Mcgilligan desvendou sua vida na biografia George Cukor: A Double Life.

É tarefa difícil escolher os melhores filmes realizados por Cukor, mas tentarei aqui fazer não uma lista, mas uma indicação de boas produções que contam com sua assinatura. Vamos a eles?

Nasce uma Estrela (1954): Como eu já citei no texto anteriormente, a força deste filme está também em suas interpretações. A história sobre o declínio de uma estrela e ascensão de sua esposa já havia sido levada às telas em 1937 com enorme sucesso. Com este musical extenso (quase três horas), Cukor provava o quanto podia ser versátil. O uso do cinemascope amplia nossa nossa visão sobre os trágicos acontecimentos. Mesmo com 28 minutos retirados do roteiro original, merece ser visto.
..E o Vento Levou (1939): Após sua demissão ~ falei um pouco mais acima sobre isso ~ Cukor foi retirado dos créditos daquele que é considerado o maior filme da década de 30. Ainda assim é impossível excluir seu nome da concepção de direção dada às atrizes Olivia de Havilland e Vivien Leigh. Vivien está soberba como a Scarlett O’Hara e muito do seu desempenho se dá pelo trabalho de Cukor realizado com ela.
A Dama das Camélias (1937): Camille é uma das personagens femininas mais dolorosas de serem lidas e vistas e a atmosfera sobre sua história ganha força com a presença magnética de Greta Garbo, que naqueles tempos vivia o auge de sua carreira. A cena final é de tirar o fôlego e merece ser revista. Robert Taylor está belíssimo.

Nascida Ontem (1955): Eis um filme amado e odiado por muitos por um motivo torpe: Judy Holliday conseguiu o Oscar de Melhor Atriz, passando por cima de favoritas como Bette Davis, Gloria Swanson, Anne Baxter e Eleanor Parker, bem mais favoritas do que ela. Mas esquecendo essas rixas que cercam alguns fãs, é possível verificar que a atriz está muito bem como uma mulher que tenta aprender boas maneiras para não envergonhar seu amado.

A Costela de Adão (1949): Spencer Tracy e Katharine Hepburn formam o casal de advogados que estão em lados opostos de uma briga judicial. As tramas no tribunal acabam transformando o casamento em um grande  ringue.

As Mulheres (1939): Com um elenco formado apenas por mulheres (e uma cadela do sexo feminino), todas discutem sobre suas relações enquanto desfilam vestidos maravilhosos assinados por Adrian.  Baseado em uma peça que estreou na Broadway em 1937, tem uma sequência maravilhosa de desfile em cores. As únicas estrelas da MGM que não estiveram no elenco foram Greta Garbo e Myrna Loy.

Boêmio Encantador (1938): Em uma das comédias mais divertidas de todos os tempos. Katharine Hepburn é a ovelha negra da família e que encontra no seu cunhado a companhia perfeita. A dupla Grant e Hepburn é insuperável e ficamos o tempo todo nos perguntando o porquê de seu personagem ainda insistir em manter um noivado com a moça errada…

Minha Querida Dama (1964): Com toda a controvérsia que esse filme carrerg (Audrey Hepburn dublada e substituindo Julie Andrews), é impossível porém não observar o primor dos figurinos e belíssima sequências musicais. Refilmagem de Pigmaleão (1938), ameniza um pouco o alto teor discriminatório da primeira versão, e embora não seja um dos meus preferidos, não teria como deixa-lo de fora desta lista pelo primor da direção e detalhes.

Núpcias de Escândalo (1940): Se você não assistiu a esse filme, corra agora. Katharine Hepburn (de novo ela) é uma socialite que está prestes a se casar com James Stewart. A chegada de seu ex-marido (mais uma vez Cary Grant) faz com que o conflito entre os dois recomece. Com quem ela deve ficar? A versão é superior à Alta Sociedade, que traz a Grace Kelly no papel principal.

À Meia Luz (1944): Um suspense que fala sobre a dominação de um marido, interpretado por Charles Boyer, que tenta subjugar sua esposa, fazendo-a pensar que está louca. É um filme que traz a marca do requinte de Cukor. Boyer e Ingrid Bergman estão fantásticos.

A Mulher Absoluta (1952): Mais uma oportunidade de ver Tracy e Hepburn juntos, desta vez como um treinador e sua atleta preferida. Ela consegue se dar bem em todos os esportes que treina… quando está distante dele. A presença de Tracy faz com que ela se atrapalhe e perca as competições. Uma comédia deliciosa.

David Copperfield (1934): Freddie Bartholomew era uma criança adorável e neste filme mostra porque era considerado um dos atores mirins mais fabulosos de seu tempo. Este foi seu primeiro filme americano, que conta ainda no elenco com WC Fields, inesquecível como Micawber.

Jantar às Oito (1933): Com um elenco fantástico que inclui Jean Harlow, John Barrymore, Billie Burke e Marie Dressler, vemos que cada um deles tem uma função bem definida e ridicularmente perfeita. Mais uma comédia magnífica.

Adorável Pecadora (1960): Na década de 60 Cukor dirigiu uma Marilyn Monroe extremamente sexy e Yves Montand como um milionário que tenta investigar um show em que ele é satirizado.

Um Rosto de Mulher (1941): Aqui está Joan Crawford em um dos melhores papéis dramáticos de sua carreira. Ela é uma mulher amargurada pela cicatriz que carrega no rosto, maltratando a todos que a rodeiam.

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