Rock Hudson: Impressões da Sua Biografia

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Quando o avião alugado por Rock Hudson pousou em Los Angeles a 30 de julho de 1985 (terça-feira), vindo de Paris, o célebre ator somente certeza tinha de uma coisa: desejava morrer em seu quarto, já que estava seriamente doente. O corpo médico — os mais importantes da área naquele momento — haviam lhe decretado: nada mais, nada menos que três dias de vida no máximo. O HPA-23, na época, o melhor tratamento para àquela doença nova e — ainda hoje — devastadora — apesar dos efeitos colaterais nocivos —, nada poderia fazer pela saúde do artista.
Transfusões de sangue eram ineficazes. O vômito uma constante após ingestão de qualquer forma de alimento — sólido ou líquido.

De modo que, sua alimentação consistia em doses e mais doses de soro contínuo — no intuito de fortalecer um pouco mais Hudson para ele voltar para casa — lembrando que, devido à fraqueza, suas veias não suportavam muito tempo as agulhas fixas nestas. Já o fígado sofrera tamanha degeneração — estava quase liquefeito —, que houve alguns especialistas que acreditavam que ele sofresse de câncer e não do mal do século.

Quanto ao corpo — que outrora fora sinônimo de beleza e fizera milhares de garotas suspirarem ao verem este sem camisa —, era somente pele e ossos, os músculos atrofiaram-se em sua grande maioria e já não tinham como suportar o peso do ator, além de tudo, haviam chagas por todo tecido, de modo que, para suportar, não usava mais calças ou camisa, apenas a peça íntima e implorava para que alguém o coçasse, pois, nem forças para este simples gesto tinha. Durante o sono, tinha pesadelos, acordava ensopado — mas, não era o suor tradicional, e sim, um líquido com um odor insuportável, que, chegava a manchar os lençóis, sendo assim, necessário manter o colchão forrado com plásticos.

Rock Hudson e Doris Day em “Pillow Talk” (1959)

A imprensa queria fotografá-lo. Ele, a primeira vítima pública da Aids. O homem que por quase quarenta anos tentou de todas as formas manter sua vida pessoal longe da mídia em geral, confessara de uma vez só, ser soropositivo, homossexual e estar morrendo.
Três dias. Três dias, nada mais. Mas Rock, fosse pelos cuidados ou por seu desejo de viver, suportou além de todas as expectativas e especulações.

No dia 4 de setembro, recebeu a escritora Sara Davidson no Castelo — nome que deu a sua residência —, no intuito, que ela atendesse seu último pedido: “preciso de alguém que escreva minha história, a verdadeira história da minha vida, pois, já estou farto de todas as mentiras publicadas nos últimos anos nos tabloides, biografias não-autorizadas e a mitologia do cinema”. Sara ouviu tudo isso espantada.

Parte, por conhecer o quão fechado para sua vida pessoal era Hudson — o que em si, criava a mitologia em torno dele —, parte por vê-lo naquele estado: sentado em uma cadeira, movendo só os lábios — era a primeira pessoa a vê-lo, já que seus grandes amigos impediam qualquer pessoa ligada a mídia de aproximar-se — não queriam fazê-lo sofrer mais do que estava. Logo após deixá-lo, Davidson caiu em prantos.

Refletiu durante toda à noite, teria forças para conviver com aquilo? Confessou ser triste demais ver uma pessoa tão debilitada morrendo na sua frente. Todavia, na tarde seguinte, retorna ao Castelo e seria assim até do dia 30 de setembro do mesmo ano. Recebe uma carta de Rock no qual pede aos amigos para auxiliar Sara em tudo o que for preciso. Transcrevo:

“Sempre fui um homem muito reservado. Nunca quis escrever um livro, nunca deixei fotografarem minha casa e nunca revelei ao público o que realmente pensava. Agora tudo mudou — existe tanta coisa que eu quero contar e tenho tão pouco tempo. Quero dizer a verdade porque até agora não foi dita, de maneira que pedi àqueles que me conhecem melhor, meus melhores amigos, para colaborarem com a Sara Davidson no relato da minha história. Rock Hudson. 5 de setembro de 1985”.

A biografia de Rock é resultado dessa pesquisa e das entrevistas que se seguiram. Houve momentos em que ele relatou fatos deitado em sua cama. Noutras, a consciência perdia-se e precisava que alguém lhe ajudasse — geralmente Tom e Mark Miller.
Em 1º de outubro falece. Suas últimas palavras, ao ser perguntado se queria uma xícara de café: “Não, agora, não”.

Coube a Sara concluir a biografia, intitulada Rock Hudson: A História de Sua Vida.
Diferente das muitas que existem, esta foi escrita de forma romanceada, mostrando com toda a certeza todas as qualidades e defeitos do seu personagem, desde a infância pobre na casa da avó — convivendo com os três divórcios da sua mãe —, o sonho de ser um ator de sucesso, seus desentendimentos na vida profissional e pessoal, o carinho por Doris Day — a maior atriz para comédias do mundo, segundo sua opinião —, as paixões que o viravam de ponta à cabeça, seu calvário como portador do vírus fatal — ao qual, ele apenas se referia como “a peste” —, ao instante em que suas cinzas somem no mar.

Marilyn Monroe e Rock Hudson e Charlton Heston

Li muitas biografias, mas, confesso, jamais me emocionei tanto com uma. É inevitável não torcer por Rock — mesmo sabendo o fim —, na esperança que ele se safe. Impossível não se comover, ao vê-lo, debilitado, erguendo-se da cama para estar presente no programa da amiga Doris Day, apesar de todos dizerem: “isto é loucura, vai te matar”. Ele estava tão fraco, que houve um momento ao qual caminhava com a atriz que procurou um banco para se sentar. Mark Miller — seu grande amigo —, indagou porque fizera isso, já que, piorara muito de saúde após a gravação do programa. Fraco, respondeu: “Porque Doris é boa demais para ser decepcionada”. Naquele momento, ninguém, além de alguns poucos amigos, conheciam a verdadeira doença do ator.

“Foi assustador. Não demonstrei o que estava sentindo, mas doeu-me o coração. Minha vontade era tirá-lo daquele lugar, perguntar-lhe por que viera… Jamais imaginei que fosse Aids” — afirmou Doris, tempos depois.

E mais triste ainda é vê-lo ao lado da diva — procure no youtube Doris Day And Friends —, quando conversam, após sentarem e um cãozinho aproximar-se dos dois:
— Será que ele ficou cansado?
— Não, fui eu quem ficou — responde Hudson.
— Eu fiz você andar muito. Sabe, tenho saudades das risadas que costumávamos a dar.
— Eu também. Não voltei a rir daquele jeito desde…
Silêncio entre eles, apenas olhares.
— A gente se divertia muito, muito mesmo, fazendo todos aqueles filmes.
— Pena que não fizemos mais — suspira Rock.
— Nós devíamos fazer de novo — sugere Doris.

Emociona ou não? E no livro há todos os detalhes desse encontro, todas as palavras dos bastidores. Assim como, o reencontro de Hudson com seu grande amor, Tom Clark, já no leito de morte. Onde todas as faltas de cada qual — Clark era alcoólatra, largou o vício após o falecimento de Hudson —, todas as palavras ditas e não ditas são perdoadas e cada segundo é aproveitado intensamente. Tom ficou ao lado de Rock até o final. Foi responsável pelos cuidados do ator até o instante definitivo. Feriu-se protegendo o caixão de Rock para que a imprensa não pudesse fotografá-lo. Uma história de amor com final trágico.

Nesta também, encontramos o nascimento de grandes amizades e inimizades do ator. Um momento inesquecível é quando George Stevens — diretor de Assim Caminha a Humanidade —, pergunta a Hudson:
— Vou lhe dar duas opções, pense bem.
— Certo.
— Quem você quer que seja a sua parceira na tela: Grace Kelly ou Elizabeth Taylor?
— Então me responda uma coisa: se você pudesse filmar entre um clássico e filmezinho de sucesso, o que escolherias?
— Ora, um clássico, é óbvio, Rock.
— Chame Taylor, afinal todo clássico que se preze, necessita de uma diva e não de uma atriz simplesmente.
Nota: Elizabeth e Hudson não se conheciam até aquele momento.

James Dean, Rock Hudson e Elizabeth Taylor nos sets de Giant (1956)

Taylor foi uma grande figura na vida pessoal de Hudson — tal como Doris Day —, fora à amiga nos maus e bons momentos, foi irmã e conselheira.
Um dos momentos máximos da biografia é quando Taylor vai visitá-lo. Era comum — naquelas semanas finais — vê-lo ficar horas e horas imóvel, com os olhos cerrados, sem forças para expressar-se. E mais comum, era se esquecer das pessoas — houve momentos de estar falando com uma pessoa e logo perguntar: “Mas quem é você, mesmo?”.
Ele estava assim fazia horas. Pediram para Taylor conter-se ao vê-lo, e que não esperasse que ele falasse muito: “Falar é raro ultimamente”.

Quando a diva entrou no quarto, de olhos fechados Hudson sussurrou de imediato num fiapo de voz:
— Elizabeth, você veio.
— Ora Rock, como você sabia que era eu?
— Como não saber — puxou o fôlego, completando — o quarto se iluminou imediatamente.
Contudo, se resta-lhe leitor dúvidas quanto a ler esta biografia, completo com dois belíssimos trechos — dos inúmeros —, como prova das minhas palavras:

“Ninguém é descoberto. Nunca. Os departamentos de publicidade adoravam dizer que Lana Turner foi descoberta quando, sentada no balcão de uma lanchonete, tomava um sorvete de chocolate… Não é verdade… O próprio cinema criou este mito — esse monstro, já descrito e fantasiado milhares de vezes. Warner Baxter disse para Ginger Rogers ou para uma outra qualquer: — Venha comigo, farei de você uma estrela. Ou então: — A estrela torceu o pé, de modo que você vai ter que substituí-la hoje à noite e assim se tornará em uma estrela também. Pura mentira” (Rock Hudon: A História de Sua Vida, pg. 52).

“Durante toda sua carreira, Rock sempre foi conhecido por seu extremo senso de profissionalismo. Sempre pontual, sempre preparado, sempre pronto para trabalhar até quando fosse necessário, sem se queixar. Rock não se dava bem com James Dean e uma das razões era porque achava que Dean não era profissional.

Hudson e Taylor, certa vez, passaram o dia maquilados e vestidos esperando por Dean, que tinha ido a Salinas assistir a uma corrida de automóveis. ‘Eu não simpatizava com ele pessoalmente’, confessou Rock, ‘mas isto não tinha importância. Ele certamente esteve muito bem no seu papel, sobretudo na primeira parte do filme.

Na verdade, ele só fez três filmes… Era um tipo miúdo e não tinha muita consideração pelo cinema… era absolutamente magnífico quando desempenhava o papel de jovem, mas quando precisava envelhecer não sabia como resolver certos problemas. Aliás, ele tinha um enorme monólogo numa sala de banquete vazia, que foi cortado porque ele não conseguia resolvê-lo a contento.

Além do mais, Jimmy morreu antes do término da filmagem, e seu diálogo teve que ser dublado porque em certas cenas ele estava tão bêbado que não se entendia o que estava dizendo. Arranjaram outro ator para isso. Nick Adams” (Rock Hudon: A História de Sua Vida, pg. 122-123).

Confesso que, não sabia disso. No mais, esta é a minha cena preferida de Assim Caminha a Humanidade. Gostou? E no livro tem mais, muito mais.
Por exemplo, você já tomou martini de chocolate? Temos detalhes da data inclusive que este foi criado? Tem noção do nome dos dois grandes amores da vida de Rock? Quais seus filmes preferidos? O que o levou a querer ser um ator de cinema? Porque ele não conseguia cantar, mesmo tendo uma voz de veludo? Por quanto tempo ele trabalhou como vendedor de aspiradores de pó?

Só lendo esta — que ao meu ver, até o momento — é uma das melhores biografias de todos os tempos.

Por Ricardo Steil — Itajaí/SC

Livro: Rock Hudson: História de Sua Vida
Autores: Rock Hudson / Sara Davidson

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