Carmen Miranda: Do Cassino da Urca a Hollywood

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Carmen Miranda, nascida em Portugal, mas criada no Brasil, desde cedo demonstrava ter o dom de cantar, quando ainda trabalhava em uma chapelaria no Rio de Janeiro. Era lá que ela cantava tangos e irritava profundamente a dona do estabelecimento. Mas o período foi bom, porque futuramente ajudaria a futura cantora a fabricar suas próprias roupas. Uma de suas clientes a ouviu cantar e fez um convite para que ela se apresentasse no Instituto Nacional de Música.

Lá ela conheceu o compositor Josué de Barros, que se auto entitulou, o descobridor de Carmen Miranda. Dele ela gravou a sua primeira marchinha, “YáYá YôYô”, que já foi sucesso no carnaval daquele ano. Carmen tornou-se cantora de rádio e em 1930 já era considerada a maior cantora de rádio do Brasil, com a música “Taí, Pra Você gostar de Mim”, de Joubert de Carvalho, que vendeu mais de 35 mil discos em um mês.

Carmen e o Bando da Lua

Carmen une-se posteriormente ao Bando da Lua, e com eles começa a viajar o Brasil, apresentando-se. As pessoas ficam surpresas ao verificar que a dona da bela voz é também tão bela quanto ela. A baiana ainda não nascera. Grava marchas e sambas de Francisco Alves, Noel Rosa, Ismael Silva, Assis Valente, Ary Barroso, Cartola e é acompanhada pelo conjunto Diabos do Céu, de Pixinguinha.

Apresenta-se nos maiores teatros do Brasil inteiro, Uruguai e na Argentina. Participa de alguns filmes brasileiros, onde canta, como Estudantes e Alô, Alô Brasil, todos perdidos. Mas ainda é possível encontrar trechos dos filmes na internet.

Carmen Miranda fixa a imagem da baiana no filme “Banana da Terra”, 1939

Em 1937 conheceu o ator Tyrone Power, que ouvira falar da cantora. Ele estava em viagem, com sua então namorada da época, a também atriz Annabella. Tyrone comenta com amigos de Hollywood sobre Carmen. Alguns já tinham ouvido falar da brasileira. Começam os rumores de Carmen deixaria o Brasil.

Tyrone Power e Carmen

Acontece então o inevitável. O dramaturgo norte-americano Marc Connelly e a atriz Sonja Henje veem uma apresentação da cantora no Cassino da Urca e ela é convidada para ir para os Estados Unidos. Ela fez um show de despedida no Cassino e viajou para os Estados Unidos em 17 de maio de 1939.

Não sabia falar inglês. Mas veio treinando durante toda a viagem. Suas primeiras palavras eram monossilábicas e as fotos mostram uma Carmen bem humorada e otimista. Pode-se dizer que em pouquíssimo tempo já dominava totalmente a língua inglesa, mas os americanos insistiam para que falasse de modo caricato, fato que a incomodou durante toda a vida, e a limitou.

Sua primeira apresentação em Boston foi um sucesso fenomenal. Os americanos adoraram O que é que a baiana tem, Touradas em Madri, Bambu, Bambu e South American Way. A estréia em Nova York repetiu o mesmo sucesso, com casas sempre lotadas e jornais relatando que nascia a Brazilian Bombshell. Nesta época, ela escreveu uma carta para Almirante, cantor e amigo, relatando esses tempos:

“Aqui vai uma cartinha contando-te que a tua amiga, segundo jornais, é a grande sensação da Broadway. A minha estréia foi algo indescritível. Eles não entendem patavinas do que eu canto, mas dizem que sou a artista estrangeira mais sensacional que até hoje apareceu aqui”.

Aos brasileiros, manda notícias pelo rádio, única forma naquela época:

“Meus queridos e saudosos amigos ouvintes do Brasil, boa noite. Os aplausos que eu escuto todas as noites na Broadway parecem-me o eco dos aplausos brasileiros, contentes por ver o sucesso de sua música popular nos Estados Unidos. Novamente digo que eu tudo farei para sempre corresponder à gentileza do público da minha terra. Adeus, Brasil. Até a volta e bye bye.”

Com o sucesso estrondoso, em 1940 a 20th Century Fox convida ela e o Bando da Lua para uma participação no filme Serenata Tropical. Incia-se aí sua carreira cinematográfica.

Em 1940 Carmen Miranda chegou aos Estados Unidos, convidada para fazer alguns shows, e acabou sendo contratada pela 20th Century Fox para uma participação no filme Serenata Tropical. Eles designaram Zacarias Yaconelli, um brasileiro radicado nos Estados Unidos, para ensinar inglês para a cantora. As aulas eram exaustivas, mas valeu a pena, pois logo ela estava dominando o idioma perfeitamente. Idioma que ela teria que fingir pelo resto de sua vida hollywoodiana conhecer medianamente, para agradar os americanos, loucos por tipos exóticos.

Era o princípio de sua carreira nos Estados Unidos. Serenata Tropical foi um grande sucesso, trazendo músicas como South American Way, Mamãe Eu Quero e Bambu.

Quando à caracterização da baiana, ela chegava a carregar mais de cinco enormes e pesadas pulseiras em cada braço, e diversos colares, além de anéis nos dedos. Usava broches e os balangandãs ora vinham nas orelhas, ora no turbante, ora no decote da roupa. Essa era a Carmen, que criava seu próprio estilo e iluminava onde chegava com sua criatividade. Os saltos plataforma serviam para aumentar-lhe a estatura (1:53) e ao mesmo tempo, combinar com o estilo das roupas. E os olhinhos que revirava enquanto cantava e gesticulava? Estilo próprio.  Sua imagem era a da alegria.

Após este filme, ela retornou ao Brasil e teve a infelicidade de ser mal recebida em um show no Cassino da Urca só para gente da alta sociedade, que a recebeu friamente. Ela estranhou. Mas não era seu público. Ao fazer novamente um show, dois meses depois, dessa vez para o seu povo, foi ovacionada. A elite continua a acusar de estar se americanizando, fato que a iria aborrecer durante toda a sua vida. Como resposta, grava o samba “Disseram que voltei Americanizada”, de Luiz Peixoto e Vicente Paiva. Logo é chamada para regressar aos Estados Unidos. Novos filmes a aguardam.

Lá chegando, deixa marcadas suas mãos e seus pés na Calçada da Fama em Los Angeles, e manda um recado aos brasileiros:

“Meus amigos queridos de todo o Brasil. Aqui estou falando a vocês do Chinese Theatre de Hollywood, onde acabo de botar as minhas mãozinhas e os meus pezinhos no cimento. Podem crer que foi um dos momentos mais felizes da minha vida e nesse momento eu juro que pensei em vocês”.

 

Começou sua jornada. Programas de rádio, tv, shows, teatros e cinema. Filmes como Uma Noite no Rio, Aconteceu em Havana, Minha Secretária Brasileira. Ela começou a se incomodar com o fato dos produtores exigirem que ela fingisse um sotaque estrangeiro, mesmo Carmen nesta altura já falar inglês sem sotaque algum. Era considerada a brazilian bombshell, mas ela sabia que suas personagens eram uma paródia e um lugar do qual jamais iria sair. Estava estigmatizada. Mesmo assim seguiu com Loura e a Morena, Quatro Moças Num Jipe, Serenata Boêmia, Alegria Rapazes, Sonhos de Estrela. Quando ela começou a rodar Se Eu Fosse Feliz, já era a artista mais bem paga dos Estados Unidos.

Com o dinheiro que ganhou, comprou oito poços de petróleo no Texas, fazendo uma sociedade com Clark Gable, Rosalind Russell e John Wayne.

If I’m Lucky (1946)

Seu último filme para a Century Fox foi  If I’m Lucky (1946), e também seu pior. As coisas começaram a desandar daí. Vazou uma foto da atriz dançando sem calcinhas  e foi um escândalo. Bem, Darryl F. Zanuck, todo poderoso da Companhia, nunca disse que esse foi o motivo, mas tudo leva a crer. O senador McCarthy colocou Carmen em sua lista de caça às bruxas, e impediu que a Fox renovasse seu contrato.

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Como desgraça não vem sozinha, vem acompanha de outra. Veio a maior de todas: Conheceu e se casou com David Sebastian, homem que passou a gerenciar seus negócios e explorar seus ganhos.

Carmen e David

Continuou seus shows no Palladium de Londres, e nos Estados Unidos. Seu marido, que se tornou seu agente, começa a agendar mais e mais compromissos que Carmen não dava conta. Muitas vezes quatros shows em uma só noite, tendo filmado durante todo o dia. Ela saía de um show com a mesma roupa pesada, entrava no carro e já ia para outra casa de espetáculos, onde tinha que começar toda a maratona novamente: tomar banho (ela jamais entrava no palco suada de um show anterior), maquiar-se e colocar as vestimentas. De manhã logo cedo ela tinha que estar nos estúdios.

Carmen foi ao médico, que lhe receitou remédios para que ficasse acordada. Ela passou a andar com uma maleta, repleta de remédios. “Parecia uma farmácia ambulante”, disse Dulce Damasceno de Brito, jornalista e amiga íntima. Também começou a beber constantemente. Sua única alegria era receber os amigos que a visitavam, vindos do Brasil. Lá eles tocavam para ela samba, ritmo que mais amava, e ela podia ser novamente a antiga Carmen que deixara o Brasil.

Carmen Miranda em sua casa em Bervely Hills,com o Cônsul do Uruguai, Aurora Miranda e dona Nair, mãe de Carmen e Aurora.

Nas fotos com David era uma alegria só. Nem os amigos entendiam tal casamento, já que eles eram totalmente diferente dela e era de conhecimento geral que a traía com sua própria secretária. Carmen resignava-se e respondia nessas horas: “sou católica, minha religião não permite o divórcio.”. Além disso, tinha medo do que sua mãe iria pensar, uma portuguesa tão tradicional. Ah, mas como Carmen estava enganada com sua família que lhe amava. Sua mãe e sua irmã Aurora estavam vendo a situação dela e pediam para que se divorciasse.

Carmen tinha muita vontade de voltar ao Brasil, mas quando os contratos assinados permitiam, eram de no máximo uma, duas semanas, que ela tinha que usar em total repouso em sua casa. A vontade de rever os amigos, a praia, o sol carioca, e quando via algum brasileiro ficava enlouquecida de alegria. Aquém de tudo isso, muitos no Brasil diziam que ela esquecera-se da pátria que a adotara. Ela começou a adquirir um complexo de que não era mais querida e a sofrer com isso, a ter medo de voltar.

Jerry Lewis e Carmen nos intervalos de Scared Stiff, 1953

Em 1953 ela dava os primeiros sinais de desgaste e teve que ser internada com esgotamento físico e mental. Passou a beber cada vez mais e a usar cada vez mais medicamentos. Os amigos passaram a não mais reconhecê-la. Aparecia sempre dopada, o sorriso desaparecera, e só reaparecia nos palcos. Chorava por qualquer coisa, e pedia a David que não lhe fizesse tantos contratos. Já não tinha ânimo. Sua mãe Maria, sabendo do estado de saúde da filha, tomou um avião para os Estados Unidos para trazê-la de todo jeito para o Brasil. Carmen foi como uma criança, obediente. Pegou o avião e desceu trêmula as escadas, pensando que ia ser massacrada.

Não foi. Foi recebida por Almirante, cantor e radialista, além de amigo íntimo, Aracy de Almeida e outros tantos amigos, além de fãs e fotógrafos, que aplaudiram seu retorno após 14 anos de ausência. Ela se emocionou e foi aos prantos. Hospedou-se no Hotel Copacabana e constatou que ainda era amada por seu povo. Com três dias ela já estampava novamente o velho sorriso no rosto. Só que um mês após sua chegada, seu marido ordenou que retornasse, pois havia uma agenda de trabalho à sua espera. Recomeça a maratona.

Em 1955 recebeu uma proposta para estrelar um programa de televisão entitulado “The Carmen Miranda Show”, que falava sobre uma brasileira que abandona a carreira e se dedica ao lar.

No dia 5 de agosto de 1955 ela fez uma participação no programa de seu velho amigo Jimmy Durante. Estava exausta. Durante um número musical, quase chegou a desmaiar. Não sabia que já era o princípio de infarto. Seu companheiro viu e a segurou. Nos camarins ela parecia bem. Foi para sua casa, onde no lugar de calma, esperava mais uma festa realizada por seu marido. Passou direto para seu quarto. Foi encontrada na manhã seguinte, morta, segurando um espelho nas mãos.

Muitos não acreditaram na notícia. Maquiaram Carmen excessivamente para o enterro, sua irmã Aurora intercedeu e pediu uma maquiagem mais discreta. Foi velada na mesma capela em que se casara com David. E depois levada para o Brasil, onde foi recebida por milhares de fãs.

Aurora chora no funeral de sua irmã.

Seu marido David, após o enterro da esposa foi bem prático. Separou os bens que lhe pertenciam e os que pertenciam à família. Deu todas as roupas de Carmen, jóias e figurinos para Dona Maria e Aurora e ficou com toda a herança. Pouco tempo depois casou-se novamente. Com uma mulher chamada Carmen.

Fonte de pesquisa: Carmen uma Biografia, de Ruy Castro

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