Sobre Blanche Dubois, personagem de Tennessee Williams em A Streetcar Named Desire

1955

* Blanche Dubois é a personagem principal de ‘A Streetcar Named Desire’, de Tennessee Williams, escrita em 1947 e que lhe rendeu o Prêmio Pulitzer daquele ano.

O olhos de Blanche, portas abertas para o mundo, carregam em si um vazio, típico das pessoas que trazem em si todas as dores do mundo, daquelas que dizem tantas coisas que acabam por confundir os sentidos, que se negam durante muito tempo a compreender os motivos e que consideram que a vida não lhes foi justa. Olhos que escondem sentimentos contraditórios, que há tempos fizeram traçar um roteiro paralelo da existência, distante da realidade doentiamente comum. Olhos que enlouqueceram para, de repente, longe da tortura da vida que flui, possa enfim vislumbrar alguma sanidade: olhos que enlouquecem para experimentar uma realidade menos dolorosa.

Segundo a epopéia grega, os heróis enlouquecem por fatores externos. Tomados pelo desejo tornam-se insanos, levados pela fúria desencadeada por momentos de extremo sofrimento, escapam para uma outra realidade. E assim ocorre com nossa heroína de dupla personalidade interpretada inicialmente por  Jessica Tandy no teatro, seguida por Vivien Leigh na versão cinematográfica . Em sua insanidade, parece testar as pessoas que a rodeiam, ora aparentando imensa fragilidade, ora causando rasgos na alma alheia.

Dupla personalidade dentro de uma mulher delicada e louca para o mundo. A vida não lhe foi fácil. Ela nunca o é para pessoas que sentem o menor gesto de movimento. O vento a queima. Os atentos sofrem mais que os conformados, os que não buscam informações são muito mais felizes do que os curiosos, insinuaria o poeta Fernando Pessoa:

Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência,
Ó campo! Ó canção! A ciência
E a consciência disso! Ó céu!
(Ela canta, pobre ceifeira)  

A Streetcar Named Desire foi levado às telas em 1951, com Vivien Leigh repetindo o papel que já havia interpretado na versão londrina da peça. A história gira em torno do relacionamento entre ela, sua irmã Stella e o cunhado, o misógino Stanley Kowalski. A fragilidade da água batendo contra a pedra. Blanche sai de Mississipi, pega um bonde chamado “Desejo”, indo morar com o casal em New Orleans. Imensamente pobre depois de perder todo o seu dinheiro, tenta refazer-se trazendo em sua mala todos os pertences de sua vida, e que lhe são caros, além de cartas recebidas por um homem imaginário, aquele que iria lhe buscar.

Começam os conflitos com o seu cunhado. Stanley que é, opostamente a Blanche, grosseiro e insensível. Um animal, segundo a própria, daqueles homens que odeiam mulheres e tem um estranho prazer ao lidar com aquelas sensíveis. Ele não acredita na verdade de sua loucura, tenta provar que a mulher tem um passado podre, como se isso justificasse o seu próprio comportamento.

Nossa personagem sabe do perigo que este homem representa, mas parece tentada a tocá-lo sem consequências. O pequeno apartamento começa a ficar pequeno para a perturbação conjunta. Os nervos se acirram, e a frágil personagem vê em Harold Mitchell a possibilidade de fuga, um casamento convencionalmente aceito, e uma nova vida de esquecimento do passado. Seu primeiro marido cometera suicídio, após ela tê-lo flagrado com outro homem, dando início à “doença de nervos” que ela apresentava. A busca por um ser que a proteja torna-se uma obsessão alimentada por sonhos infantis de mudança.

Os problemas avolumam-se após Stanley descobrir sobre seu passado sombrio. Através de uma investigação ele tenta desfazer a imagem criada por Blanche, e desmoralizá-la diante de sua irmã. Retratos da complexidade humana. Três faces inaceitáveis de atitudes humanas: um homem extremamente violento, uma mulher submissa e outra que ainda busca saber qual a sua essência verdadeira. Mais do que todos os personagens secundários juntos, Blanche domina e nos enerva. Faz-nos pensar em nós mesmos, em nossas máculas, e, sobretudo nas nossas angústias inexplicavelmente guardadas como caixas de pandora.

Ela não é apenas uma mulher, acaba sendo algo entre a máscara que usamos e o que verdadeiramente somos por dentro. Ao ser levada para uma clínica de tratamento, é amparada por um homem que não conhece, e numa frase resume o que tem sido sua vida até então: “Nunca duvidei da benfeitoria de estranhos”. Nunca, mais do que de todos aqueles que dizem amá-la mas não a entendem. Sim, Blanche. Às vezes os estranhos é que são os nossos ombros. E, por não nos conhecer, é que nos aceitam.

 

* Publicado inicialmente na Revista Continente

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