Tudo Sobre Ava Gardner

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Os primeiros anos

Eram vinte e duas horas — quando um choro audível se fez na humilde casa. Uma linda menina nascera — pouco antes do Natal. Mary Elizabeth e Jonas — ela do lar, o cônjuge um agricultor que trabalhava em terras de outrem — jamais poderiam imaginar que aquele pequeno anjo — o sétimo da prole —, seria mais do que uma criança qualquer nascida em Grabtown. Nos braços daquela sofrida mulher — braços que outrora seguraram o primogênito todo deformado após um acidente horrível que lhe tirara a vida aos dois anos, dois meses e quinze dias — naqueles braços estava uma das mais talentosas mulheres a preencherem o espaço que constitui a grande tela e, que anos depois seria definido pelo poeta Jean Cocteau como “o mais belo animal do mundo”.
Naquela noite fria — nevava e muito — os pais a cobriram — incluindo a cabeça, visto não ter pelugem alguma. Algo que, também levaria anos para aparecer — com o melhor que tinham — isto é, com uma das poucas mantas. Os irmãos — liberados para entrar no quarto — rodeavam curiosos. E Ava Gardner sentiu fome. Chorou implorando pelo alimento. Depois farta — fechou os olhos pela primeira vez.
Como seu aniversário era na véspera do nascimento de Cristo — e por serem muito pobres —, não era possível presentear duas vezes a criança— uma, na verdade, já era algo raro. E a pequena Ava — que recebera este nome em homenagem a tia-paterna que vivia com eles — tinha que se contentar com o que os pais podiam lhe dar: um bolo de chocolate pela passagem da sua data natalícia e um de coco no dia seguinte.
A menina do interior gostava de liberdade, de correr livre por entre as plantações de tabaco. Subir em árvores. E mais que tudo, odiava sapatos. Sua alegria era sentir o chão embaixo dos pés, o córrego do rio, a grama.
Era temida entre os garotos: craque nas bolinhas de gude, ninguém apostava “a vera” com a pequena dos Gardner. Isto é, alguns forasteiros surgiam vez por outra, como nos filmes, querendo derrotar aquela menina — agora cabeluda. Ava apenas sorria. Abriam a boca na gorda terra para dar início — os amigos, vizinhos e outros, uniam-se sobre o manto da platéia. No fim da tarde, enquanto o sol desaparecia no horizonte, lá iam aqueles com os bolsos vazios e levando consigo a lenda de que “lá pras bandas de Grabtown há uma caipirazinha que é boa de gude”.
E era quando a noite surgia que a futura estrela sentia-se feliz. Sempre fora assim: a noite era sua companheira inseparável. Gostava de dormir tarde — gostava das estrelas e da lua cheia, do coaxar dos sapos, dos grilos lá longe.
Mas, a verdade é que, por mais clara que sejam as colunas do templo, sempre haverá sombras por trás destes. Eis que um dia as sombras surgem. Jack — um dos irmãos da futura diva —, escondera-se no celeiro de tabaco da família no intuito de fumar. O fósforo que segurava caiu. Resultado: o incêndio destruíra o celeiro e o descaroçador que eram fonte de renda do velho Jonas Gardner. Não houve jeito, vivendo dias difíceis, tiveram que partir para um lugar estranho chamado Teacherage em Brodgen, onde Elizabeth poderia cozinhar para diversas pessoas — muitos professores — e obter algum dinheiro para o sustento da família ao lado do marido.
Nesta época, Ava descobrira que possuía outro talento além de ser ótima jogadora de gude: o de passar roupas como ninguém.
Os dias estavam melhores para família. Sobrava um dinheirinho. Então, a senhora Gardner podia desfrutar de algo pelo qual se apaixonara: o cinema. Só que havia um porém, ela detestava ir sozinha. E quem era a escolhida para ir com mamãe ver aquelas maravilhosas películas? A peralta Ava — graças a Deus!
Era muito, mas muito chão mesmo para chegar na cidade mais próxima: Smithfield. Só que compensava. Lá era outro mundo: havia uma capa escura que recobria as ruas de barro, ao qual dava-se o nome de asfalto. Uns bichos estranhos que andavam mais rápido que os cavalos das redondezas chamados de: automóveis. E claro, o que mais intrigava os membros da família: luz elétrica. Tudo era claro à noite! Então quando voltava para Teacherage, miss Gardner contava aos amigos sobre todas “aquelas coisas estranhas e maravilhosas”.
Os dias corriam tranqüilos. A jovem estrela ajudava seu pai e outros na plantação de tabaco. Tudo ia bem… mas, a quebra das bolsas, a depressão, jogou o país na falência. Elizabeth viu-se em apuros: os professores ao qual cozinhava, foram-se todos. Jonas mal conseguia vender alguma coisa. E Bappie — a irmã mais velha —, que estava casada há muitos anos deu a sentença: dera um chute no traseiro do marido que vivia atrás de tudo quanto é rabo de saia e de copos e copos de cerveja. É preciso recordar que naquele tempo, a palavra divórcio era humilhante. Bappie então parte para Nova York, encontrando a metrópole em frangalhos.
Passando necessidades, Elizabeth através de uma conhecida descobre que pode conseguir um trabalho similar na cidade de Newport News. Só que não era uma cidade rural, de modo que, o agricultor Jonas tinha que correr a procura de algo que pudesse fazer — logo ele, que mal sabia escrever o nome, tinha que aprender um ofício. E aquela tosse — contínua —, já não deixava mais ninguém dormir em casa.
Ava sentiu que algo que ruim estava a caminho — mal chegara na cidade, seu cachorro Prince fugira. E na escola era humilhada por alunos e professores: fosse por seu sotaque de “menina caipira”, fosse porque era filha de um agricultor numa cidade industrial, fosse porque só tinha um casaquinho velho que vestira ao longo de quatro anos e um par de sapatos que lhe importunavam, não por serem gastos, mas por cobrirem seus pés, que não estavam acostumados com paralelepípedos, moradas de alvenaria, o som ensurdecedor de buzinas e risos dos adolescentes.
Trabalhando para sustentar a casa, Elizabeth agora viúva, lutava por fazer da pequena Ava uma mulher decente. Criava a filha nos modos vitorianos: teria que casar virgem.
Uma amiga disse para a jovem estrela que um garoto estava afim de sair com ela — gostaria de levá-la ao cinema. Seu nome entraria para a história como o primeiro rapaz a sair com Ava Gardner. Eles não se beijaram, nem tocaram as mãos. E nervosa, ela sequer abriu a boca. Resultado Dick Alerton jamais a procurou novamente. Trouxa ele.

Aos dezessete, novo encontro: um jovem levara-a num baile. Há uma da manhã estavam ambos na varanda da casa de Ava. Então, um selinho ocorreu — o primeiro beijo da atriz —, uma coisa boba. Um leve tocar de lábios. Mas, quem estava atrás da porta? A matriarca que surgiu do nada, pôs o rapaz para correr, depois disse tanto para a garota que esta correu para seu quarto e esfregava freneticamente as mãos contra os lábios e rosto na esperança de se ver “limpa de toda aquela sujeira”.
Sorte dela que tinha amigas mais velhas que lhe explicavam o que ocorria com uma mulher, senão, teria chegado ao casamento pensando ainda como uma criança.

 

De caipira a starlet

 

Bappie conseguira estabilidade na cidade de Nova York — tinha sua própria seção no departamento de bolsas de uma grande loja. E, arrumara um namorado canadense que fora embora.

O rapaz escrevia-lhe direto pedindo uma foto, pois, “estava morrendo de saudades”. No horário do almoço, Bappie resolve eternizar sua imagem no papel. Entra no Tarr Photographic Studios. Talvez fosse coincidência, quem sabe destino — se é que o destino não deixa de ser o acaso com mania de grandeza, como certa vez disse o poeta —, mas a jovem foi atendida por ninguém menos que Larry Tarr — filho do fundador. Conversaram, conversaram e conversaram. Resultado, Larry a pediu em namoro. Bappie de imediato aceitou. A foto nunca foi batida. E jamais o canadense soube que ela se casara dois meses após este encontro.

O esposo de Bappie tinha um desejo: construir seu próprio caminho longe da sombra do seu pai. Claro, o dinheiro vindo dos estúdios — junto com o salário de Bappie —, os mantinha razoavelmente bem. Mas, ele queria mais, sonhava em ser “um descobridor de talentos”. De modo que, vivia junto da esposa percorrendo todos os “points” possíveis da cidade de Nova York a procura do tal.

Com dezesseis anos, Ava foi visitar a irmã pela primeira vez. Logo o novo cunhado e ela simpatizaram-se. E claro, junto com Bappie, viraram noites e noites na “cidade que nunca dorme”.

O momento máximo destes dias foi quando ganhou da irmã um par de luvas brancas — ela nunca colocara aquilo —, e estando num belíssimo clube, com música ao vivo, sentados, a futura estrela olhou para o lado e quem estava ali acompanhado de uma bela garota: Henry Fonda! Sim, era ele! Henry Fonda o grande astro do cinema. Queria um autógrafo, mas, como chegar até ele, quer dizer “ele era um astro, um homem famoso” e ela… Larry e Bappie insistiram tanto que a pequena foi falar com Fonda. Nervosa e graças às luvas, deixou cair papel, caneta, bolsa e luvas no chão. Elegantemente — vendo a situação daquela menina com “sotaque caipira” —, o astro ajudou-a recolher tudo e deu um autógrafo, enquanto sua companhia fazia perguntas a jovem. Quando conseguiu o autografo, vendo-o, de tão nervosa disse apenas a acompanhante de Fonda: “você é uma garota adorável. Deveria ir para Hollywood”, e saiu correndo nervosa.

Sentou-se ainda anestesiada com o encontro. E iria ficar mais, quando soube o que o cunhado aprontara: vendo a banda tocar, pensou este, porque ao invés de um monte de caras cantando, não colocar uma bela garota. E quem era a bela garota na mente de Larry: Ava Gardner! O líder do grupo perguntou a Larry se ela cantava. Deveria ser brincadeira, claro que sim, ela era um rouxinol vindo da Carolina do Norte! Os garotos pensaram, porque não, afinal a beleza de miss Gardner destacava-se em meio a todo o clube. “Traga-nos uma gravação demo dela para analisarmos”.

Ava não sabia cantar — pelo menos, profissionalmente —, mas, entusiasmou-se com a idéia de tornar-se cantora de uma banda — bem, era melhor do que ser datilógrafa! Quando souberam no colégio que ela tornar-se-ia cantora de uma Big-band, as coisas começaram a mudar para melhor.

O cunhado também estava entusiasmado. Procurou uma gravadora onde pudesse eternizar a voz de diva que sabia apenas cantar Amapola.

Mas qual a surpresa quando o pianista perguntou onde estava a música. Ela não entendia que ele estava pedindo a partitura. O rapaz disse tudo bem, se ela dissesse pelo menos o tom. Gardner ficou rubra de vergonha, não sabia que as músicas tinham tons como as cores. O rapaz compreensivo sorriu. Seguiram em frente. Depois de algumas tentativas, o disquinho de 78 rotações com a voz de Gardner estava gravado.

Este disquinho caiu nas mãos dos garotos que se entusiasmaram — logo, mandariam-lhe o repertório. No colégio a reputação de Ava — antes de menina caipira ao qual todos implicavam — mudara repentinamente, ela era um sucesso! Ava Gardner cantora, excursionando pelos Estados Unidos, sucesso absoluto, uma Ella Fitzgerald! Tudo isso era um sonho na mente da menina… e continuou sendo um sonho, pois, jamais as letras das músicas prometidas vieram parar em suas mãos. O disquinho de 78 rotações também não.

Em sua biografia, relata a atriz: “Por coincidência, no entanto, voltei a encontrar aquele bandleader uma outra vez. Ele estava regendo uma orquestra num clube de Los Angeles uns oito ou nove anos depois e eu já era famosa no cinema. Ele foi muito agradável, na verdade ficou muito impressionado com o que tinha acontecido comigo. Logo ele que fora minha esperança um dia de mudar de vida, estava ali arrependido com sua infeliz falta de confiança no rouxinol da Carolina do Norte”.

Claro que a jovem ainda poderia mostrar seus dotes como cantora num futuro não muito longe — no hoje, clássico, The Killers —, todavia enquanto este dia não chegava sua vida prosseguia.

Larry não desanimou de seu sonho — há sempre pedras no caminho —, e continuava a procurar uma maneira de tornar-se um descobridor de talentos, empresário, qualquer coisa que não fosse somente ficar atrás de um balcão revelando e batendo fotos.

O engraçado de tudo é que, justamente o seu talento para fotografias e, que o faria realizar seu sonho de ser um descobridor de talentos. Larry brincando resolveu tirar algumas fotos da cunhada. E estas — obviamente — ficaram tão lindas que resolveu colocá-las no show room da Tarr Photographic Studios que ficava na Quinta Avenida, onde Barney Duhan — que trabalhava de boy para a Loews Inc. que era por sinal ligada a MGM — passava todos os dias. Duhan ficou de queixo caído com a fotografia. Espertinho ligou para o estúdio querendo o telefone da futura diva. Não que ele pudesse fazer algo por sua carreira, mas, iria dizer que sim para quem sabe, conseguir algo mais com a garota. No telefone disse: “Sou Barney Duhan, represento a MGM e, estamos interessados em uma de suas modelos para trabalhar em nossos estúdios. Poderia passar o telefone dela?”. A secretária de Larry — esperta que só — disse que “informações sobre seus clientes eram confidenciais”. De modo que, pôs fim aos sonhos de Barney — que acabou tornando-se um policial. Mas, contou tudo ao patrão que ficou entusiasmado. Ligou para Ava, desesperado: “Querida, querida, você não imagina o que aconteceu, a MGM está querendo você como uma das atrizes deles”. Gardner ainda sobre o efeito de ter sido renegada pela Bigband não deu muita importância. Todavia, oposto ocorreu com Larry que botou toda sua equipe para trabalhar: “Revelem tudo, todos os negativos, não deixem uma foto sequer sobrando nos arquivos!” Reunindo o material, rumou para filial de Nova York. Um teste foi marcado.

A pequena de Grabtown fez uma cena. O problema era aquele triste sotaque — naqueles dias, as atrizes não podiam ter sotaque algum. O que fez o diretor então? Mandou o tape totalmente mudo. Após breve análise, enviam um telegrama pedindo o comparecimento da futura diva em Hollywood. Em companhia de sua irmã Bappie, partem. No dia em que assina o contrato para ser uma starlet (figurinista), sua querida mãe descobre ter câncer. E o pior, já não o que se fazer.

Vivendo em Hollywood, a pequena Gardner tem que acordar as cinco da manhã, pegar três ônibus para chegar ao estúdio, receber a folha dizendo em que estúdio deverá estar e, passar por toda a série de maquilagem.

As pessoas riam do seu sotaque — imitavam-no. Ora, ela era apenas uma caipira. Mas, não fazia mal, precisavam apenas da fotogenia dela.

Tamanha fora às implicâncias — e depois de muitas, mas muitas lágrimas —, passa a freqüentar aulas de teoria vocal, locução e interpretação.

Certa manhã, ela precisou fazer fotos com outra starlet numa fazenda fake. As outras garotas estavam apavoradas com os bichos. Mas, “a caipirazinha” não. E, o próprio diretor fotográfico ficou espantado quando Ava tirou leite de uma vaca. “Uma starlet que tira leite de vaca, isso é maravilhoso”. Disse.

O trabalho de starlet fotográfica era intenso. Faziam mudanças e mudanças em seus cabelos. Ela nunca foi de reclamar. Mas, no dia em que resolveram que era preciso tirar suas sobrancelhas e refaze-las a lápis, a garota ficou furiosa. Fez uma briga tão grande, que mesmo o severo maquiador calou-se. No futuro, Lana Turner ao saber o que ocorrera com a amiga, riu muito: “Queria ter tido sua coragem” — disse. “Eles não deixaram um fio das minhas na época em que era starlet”.

O Primeiro Amor

Eles se conheceram logo de cara no primeiro dia em que ela pisou na MGM. Milton Weiss — responsável por apresentá-la ao local —, levou-a no último estúdio, onde estava sendo gravado “Calouros da Broadway”. Tanto Ava quanto Bappie controlaram-se para não gritar, quando viram ali, a poucos metros, ninguém menos que Judy Garland cantando! Deus, não era no cinema, ela tava ali ao vivo, toda aquela voz, toda aquela presença de palco! Mas, os olhos de Gardner se desviaram de Judy quando alguém esbarrou nela. De costas parecia ser Carmem Miranda — famosa àquela altura —, mas, quando aquela “baixinha” voltou-se para pedir desculpas, era Mickey Rooney — o ator mais famoso dos Estados Unidos naquele momento.
— Desculpe-me. Machuquei a senhorita?
— Não… não…
— Senhorita Gardner, este é Mickey Rooney. Mickey esta é Ava Gardner futura estrela da MGM.
E assim, foi. Mickey apaixonou-se por Gardner, no mesmo instante. Conseguiu o telefone dela, ligando todo dia as vinte e duas horas. Ava — lembre-se, era uma menina do campo —, de modo que, sendo Rooney um cara famoso ou não, ela não sairia com ele, afinal era um desconhecido: “e uma garota não sai sozinha com um desconhecido”.
Todos os dias, Bappie dava ao futuro cunhado uma desculpa diferente. Estava trabalhando, dormindo, fazendo sei lá o que. Só que houve certa noite que Gardner teve que atender o telefone. Era hora de por um fim aquilo:
— Agora ouça Mickey, minha irmã Bappie está aqui e não posso deixá-la sozinha.
Neste instante somente que ele percebeu que a menina era diferente do tipo de garota que ele estava acostumado a sair.
— Quem sabe não a levamos junto, então?
E foi assim. Bappie foi velinha por muito, muito tempo. Rooney — conforme biografia da própria atriz —, a respeitou como devia.
Após um tempo, veio o pedido de casamento. Gardner sempre vinha com desculpas de que era jovem. Enfim, aceitou. A futura senhora Rooney conheceu sua sogra, deram-se bem. Depois, houve a reunião da família Gardner para conhecer o futuro membro. Nas memórias da atriz, fora aquele um dos momentos mais felizes da sua mãe, que adorava a casa cheia. Mickey sempre fora um ótimo comediante. Todos riram. Elizabeth os abençoou. Mas, havia um pequeno problema: o contrato de ambos os impedia de casar sem a autorização do todo poderoso Louis B. Mayer, dono da MGM.
Louis não queria aquele casamento. O que, sua maior estrela, sua maior renda, o queridinho das garotas casando com uma… qual era mesmo o nome daquela garota?
Uma tática de Mayer era chorar muito — ele tinha a mania de achar que todos seus funcionários eram filhos e ele o papai. E chorou muito mesmo, no intuito de convencer Rooney. Mas, conforme Ava, seu futuro esposo era um chorão melhor. De modo que, papai Mayer aceitou, mas, o casamento foi digamos, “às escondidas”.
Ava esperava o casamento dos seus sonhos, conforme escreveu “queria um marido que chegasse em casa depois do trabalho, ao qual esperasse que eu tivesse feito a janta, lavado à roupa, que quisesse filhos, etc e tal”.
Ela queria vivenciar um casamento tão perfeito quanto fora dos seus pais. Só que Mickey era viciado em jogos de azar, gostava de golfe e tinha uma “leve” queda à infidelidade.
Foram tantas as brigas e infidelidades, que no dia 21 de maio de 1943 ela pediu o divórcio.
Em sua biografia (Minha História, Editora L&PM), Gardner declara:
“Embora as pessoas tenham especulado que ser casada com Mickey poderá ter me ajudado a conseguir minha primeira série de pontas nos filmes, a verdade nua e crua é que ser Mrs. Rooney não me empurrou para o estrelato. Mickey jamais tentou me transformar em atriz, nunca me ensinou nada e jamais conseguiu um emprego de atriz para mim”.
Todavia, Rooney lhe apresentou grandes figuras do cinema tais como Lana Turner, Judy Garland, Ester Willians, Kathryn Grayson, Elizabeth Taylor e Peter Lawford — que por muitos anos foi seu grande amigo.

Os Primeiros Trabalhos Na Grande Tela

We Were Dacing (Tu És A Única, 1942), é um marco do cinema — não por suas qualidades —, mas, por ser o último filme de Norma Shearer — indicada cinco vezes ao Oscar — e, ser o primeiro filme a ter Ava realmente aparecendo por alguns segundos: enquanto caminha num saguão do hotel.
No mesmo ano, ela interpreta uma secretária em um episódio da série Dr. Gillespie — estrelado por Lionel Barrymore.
Barrymore há muito estava doente — ficava boa parte do dia sentado em uma cadeira de rodas — e, como Clark Gable, ia embora às cinco horas da tarde.
Para Gardner, aquela seria sua grande chance, visto ter uma fala no filme. Diria sete palavras — suas primeiras palavras no cinema — a saber: “Dr. Gillespie, o próximo paciente já chegou”.
A futura diva estava nervosa. Ora, teria de falar seu texto para ninguém, visto Lionel ter ido embora. Foi quando o mesmo surgiu diante de si em sua cadeira de rodas. Alguém disse então ao velho ator: “Sr. Barrymore, já passa das cinco. Creio que o senhor já deveria estar a caminho de casa”. Ele apenas respondeu: “E deixar esta jovem sem ninguém para olhar, ninguém para quem dar o seu texto? Claro que não. Isto não seria gentil”.
Meses depois, ela faria outro episódio da série do Dr. Gillespie chamado Three Men in White. Neste Ava era uma beldade bêbada. O filme lhe gerou as primeiras críticas positivas.
Conhece Bela Lugosi em 1943, durante as gravações de Ghosts On The Loose, que segundo a atriz fora um dos únicos filmes do início de carreira que tiveram algum impacto sobre ela.
Ghosts na verdade é um filme horrível, uma comédia enfadonha que foi feita para ser exibido nas famosas duas sessões — você pagava para ver o filme principal e de brinde assistia um segundo. Só que o mesmo, marcaria e muito a vida de Gardner.
Certa noite, em companhia da sua irmã Bappie, as duas caminhavam ao longo de um bairro de Los Angeles, local onde os cinemas somente apresentavam filmes tipo Z. De repente, Bappie fica paralisada e começa a gritar. Ava também. Em um enorme luminoso estava escrito:

 

Howard Hughes — Um Capítulo de 20 Anos

Howard surgiu na vida de Ava durante seu processo de divórcio. Por vinte anos foram bons amigos — até que Hughes desligou-se do mundo por completo, trancafiando-se dentro de seu apartamento.
Em sua biografia, Howard surge como um homem gentil, que protegia seus amigos (a sua maneira, obviamente): quando soube que Elizabeth estava sofrendo de câncer, deslocou os melhores médicos da área para irem consultá-la. Também era um péssimo dançarino, um ciumento incorrigível — chegou a deixar a atriz com um olho roxo — e ao contrário do que mostrado é em O Aviador, não tomava banho com freqüência.
Muito se especulou se o caso entre os dois foi além da amizade. Biógrafos, afirmam que ela era uma das seis amantes do milionário! Ava, desmente. O máximo que Hughes conseguiu foi um beijo no rosto. Se existiu algo entre eles, foi platonicamente. Não nega, no entanto, que ele foi apaixonado por ela — culpá-lo, qual homem não seria? —, a ponto de chorar pedindo-a em casamento. Recebendo um não, partiu para uma tática mais persuasiva: levou numa viagem de sete dias, onde pelo café da manhã lhe dava um diamante, ao meio dia: outro diamante, na hora do chá: mais um, no jantar: outro e claro, deixava sobre sua cama antes de dormir: um diamante.
Bappie (apaixonada por jóias) quase teve um treco quando Ava mandou Hughes enfiar cada um daqueles diamantes — inclusive o maior que na época valia nada mais nada menos que um milhão de dólares — onde o sol nunca toca! Ora essa, ela não se vendia, seu amor não era uma mercadoria e seu corpo muito menos!
Outra coisa que a incomodava muito eram os espiões. Hughes os colocava atrás dela no intuito de descobrir se a atriz estava saindo com alguém.
Houve uma noite que a atriz estava pronta para sair — Rooney estava a esperando num restaurante —, quando abriu a porta, um brutamontes apenas lhe disse:
— Miss Gardner, o senhor Hughes a espera.
— Sinto muito, mas, tenho compromisso.
— Ele não vai gostar nada disso.
Gardner fechou a porta do apartamento, olhou nos olhos do capanga e respondeu:
— Fazer o que. Problema dele.
Gardner se divertiu com Rooney — como marido, ele fora péssimo. Mas, como amigo, ele era formidável. Sempre a fazia rir e, ao seu lado, esquecia das horas exaustivas no estúdio e dos problemas que todos tem no dia a dia.
Quando voltou para casa, tomou um banho e foi dormir. Durante seu sono acordou. Hughes estava ao seu lado na cama. Fitando-a. Percebeu nos olhos dele que estava possesso: ora, ninguém no mundo dizia não a Howard Hughes. Mas quem era Hughes. Uma pessoa comum como ela, como qualquer outro.
Desceram até a sala de estar. Hughes perdeu a cabeça e começou a bater em Ava. Um, dois, três socos! O olho da atriz ficou roxo. Gardner furiosa com aquilo, partiu para cima do safado. Ele a esmurrou contra uma parede. Sabia que ele iria matá-la. Não pensou duas vezes: antes ele, do que ela. Viu um enorme sino de bronze, uniu forças — o rosto estava tão inchado, que sobrara a diva apenas um dos olhos para enxergar — e lançou contra o rosto de Hughes. O troço era tão pesado que abriu um rasgo da testa à boca, arrancou na hora dois dentes do cara, e afrouxou outros que caíram dias depois.
Mas Howard ainda estava vivo. E ela, possessa: queria matar o cara que teve a ousadia de machucá-la. Pegou o sino pesado, subiu sobre o milionário, ergueu-o para o alto mirando sua cabeça. Pensou consigo: “Com três acabo com o filho da mãe”. Um grito da sua empregada é que a impediu.
Bappie e seu novo cunhado de nome Charlie — que era empregado de Hughes, surgiram. Os dois é que permitiram a entrada do milionário. Ficaram apavorados. Bappie apenas dizia:
— Meu Deus Ava, meu Deus! Pobre Howard! Pobre Howard!
E ela ali, vendo tudo com um olho, trêmula — sendo trocada pela irmã que parecia importar-se mais com o milionário do que com ela — e tendo apenas uma empregada velha, socorrendo-a, gritou:
— O pobre Howard que se ferre!
Uma ambulância veio, levou Howard, Bappie e Charlie ao hospital. No banheiro, Gardner chorou e muito. Pelas dores no corpo, pelas dores na alma, pelo trauma que sofrera.
***

Tempos depois Hughes ligou como se nada tivesse acontecido. Gardner o perdoou. Continuaram bons amigos — apesar da mania absurda dele em viver colocando espiões no seu encalço — e por muitos anos, fora ela que o milionário procurara para desabafar e contar seus medos, anseios, neuroses. Depois de Ava, somente Cary Grant teve um lugar de confiança no coração de Hughes, que reapareceria e muito ao longo dos próximos vinte anos.

Nasce Uma Estrela

Estando há cinco anos em Hollywood, Gardner já havia filmado nada mais, nada menos que dezessete filmes. E, excetuando uma ou outra nota — bem como, o caso do luminoso e, de ter sido esposa de Rooney — não passava de um rosto bonitinho nos cartazes e fotos promocionais. Mas, sua vida iria mudar para todo o sempre, quando sua amiga Francês Helfim, lhe fez um convite irrecusável: ir ao Mocambo Club para ouvir jazz e dançar um pouco.
Que Deus a abençoe — quer onde esteja —, pois, ela apresentou a Ava ao diretor alemão Seymour Nedenzal — trabalhava este para a United States —, e há muito notara o talento da futura diva — que estava ao seu ver, sendo desperdiçado com fotografias e pontas. Ofereceu-lhe um papel no seu novo filme chamado Whistle Stop — do qual comprara os direitos do livro, por sinal, proibido na sua antiga pátria: tratava de prostituição, incesto e coisa e tal.
Gardner ergueu as sobrancelhas. Mas, antes que pudesse dizer qualquer coisa, Nedenzal foi taxativo: utilizaria somente o título do livro, já que, estavam reescrevendo todo o texto. Não haveria irmão algum. Gardner disse que só tinha um problema: era contratada da MGM e só com a liberação do todo poderoso Louis B. Mayer é que poderia fazer este filme. Seymour sabia disso, tanto que tinha obtido já a autorização, faltava apenas um sim da atriz.
Em suas memórias, confessa que nunca apreciou o filme. Mas, foi a oportunidade de trabalhar com um ator que ela admirava desde os oito anos de idade: George Raft. Os dois se deram bem desde o início — além de tudo, Raft era um ótimo dançarino. Sendo o amante de Mary (Gardner) no filme, dividiram muitas e muitas cenas. Tempos depois, os jornais acusaram George de ser testa de ferro da Máfia. Gardner rasgou todos os jornais, aquilo era um absurdo — absurdo que atrapalhou (e muito) a carreira de Raft. Em sua biografia Ava é taxativa: George Raft fez com que Whistle Stop valesse a pena.
Só que Whistle foi além, fez com que Gardner ganhasse certo respeito e deixasse enfim de ser uma starlet para alçar novos vôos — com a permissão da MGM, agora na Universal, interpretaria a emblemática Kitty, no mais, que clássico: The Killers (Os Assassinos) — e na humilde opinião deste articulista, o maior filme noir de todos os tempos. Não à toa que, foi sobre o mesmo, meu primeiro artigo para o Purviance.
Os Assassinos (The Killers, 1949) adaptado é de um conto homônimo escrito por ninguém menos que Ernest Hemingway — referência obrigatória para todo escritor que queira aprender a escrever diálogos —, onde um boxeador que atende pela alcunha de: o sueco, desiste de fugir dos seus assassinos e espera a morte. Pode até parecer banal o filme, mas, não é. Riordan — um investigador de uma companhia de seguros —, é responsável em levantar o passado do sueco. Através de flashbacks é que o filme começa a pegar fogo. E pega mesmo, a partir do momento que surgi Kitty (Ava Gardner) a femme famale que irá destruir pouco a pouco a vida do ex-boxeador (no papel Burt Lancaster, que nunca fizera um filme antes!). É nesta película que encontramos a célebre frase que seria marca da atriz por toda a vida: “Escute, sou um veneno para mim e qualquer um que esteja à minha volta”.
Também neste, consta àquela que considero uma das dez maiores cenas da história do cinema: quando Kitty Collins (Gardner), segurando uma taça e um cigarro acesso, aproxima-se do piano — ficando de costas para o sueco —, e tendo um jogo de luzes e sombras sobre seus olhos semicerrados — vindos de uma vela acesa —, começa cantar quase num sussurro lentamente a sentença: “quanto mais sei do amor, menos eu sei”. E mais, quando ele se aproxima, ergue lentamente os lábios num sorriso, fecha as pálpebras e começa a fazer “hum-hum, hum-hum”, quase um ronronar, inserindo outros “di-dan-dan-dan” e “dum-de-dum-dum”. Depois, retorna a mesma frase, ao pressentir que o sueco está engolindo o uísque quase que transtornado e movimenta os olhos lentamente em sua direção, fugindo deste em seguida.
Mark Hellinger foi o produtor do filme. Gardner comenta sobre ele em sua biografia: “Logo simpatizei com Mark Hellinger, porque via que ele me considerava uma atriz, não um objeto sexual. Confiou em mim desde o início e eu confiei nele. Inclusive me convenceu a relaxar o suficiente para cantar aquela canção sensual com minha própria voz. E me deu uma noção da responsabilidade de uma estrela de cinema que eu nunca tinha percebido antes. Até fazer Kitty Collins, jamais tinha trabalhado duro no cinema, nunca tinha levado minha carreira muito a sério. Não sentia ambição alguma em me transformar numa atriz de verdade. Era apenas uma garota que tinha tido a sorte de conseguir um emprego no cinema. Fazer Kitty mudou tudo, me mostrou o que significava ser atriz e me fez sentir que afinal eu até tinha um pouco de talento”.
The Killers foi o passaporte para o estrelato. Jornais e revistas voltaram-se para a atriz reconhecendo-a como merecia. Hemingway cansou de dizer que fora esta a melhor adaptação de um trabalho seu. Burt Lancaster também seria lançado ao estrelado. E o produtor e diretor alçariam vôos mais altos no futuro.
Mas Gardner voltou seus olhos para outro lado. Ela desejava um futuro diferente. Ela estava perdidamente apaixonada de novo. Outrora assim não fora.

Antes Só Que Mal Casada

Ava conheceu Artie Shaw enquanto filmava The Killers. Francês Helfim fez as apresentações:
— Este é Artie Shaw. Recém voltou da guerra. Você já ouviu sua música. Acho que vão se dar muito bem.
— Ah, meu Deus, pensei, que homem mais bonito — confessou em sua biografia.
Além de bonito, Shaw era um ótimo músico/compositor e um intelectual de mão cheia. Discursava sobre qualquer assunto. A inteligência de Artie fez Gardner apaixonar-se de imediato. Logo estavam saindo. Foram longos oito meses de namoro. A atriz foi taxativa: “nada de cama até casarem”. Artie havia se divorciado tinha pouco tempo. Ele a levava aos lugares mais chiques, apresentava os homens mais sábios. E ela ali na mesa, vendo-o discutir música, política, esporte, guerra, fosse o que fosse. Rooney era engraçado — Artie, não —, mas, ela não se importava. Estava ciente de que com ele encontraria seu par ideal. Estava disposta a largar tudo, a largar o cinema e ser uma boa dona de casa.
Shaw a pediu em casamento. Em 17 de outubro de 1945, usando um conjunto azul e um buquê de orquídeas, ela entrou de cabeça no seu sonho. Mas, ao abrir seus olhos, percebera ter caído em um pesadelo. Artie era possessivo, e, vivia a espezinhando por não conseguir acompanhá-lo intelectualmente. Insistia para que ela estudasse isso e aquilo: artes, música, política, psicologia. Era muita informação para uma menina que nascera no campo. Aquele mundo — o mundo social de Shaw —, onde tudo era sério, até as piadas, vinha a ser uma camisa-de-força. Como não notara antes? Sim, o amor é cego. Pena não ter comprado uma bengala antes.
Quando seu cônjuge sentava no sofá — no sofá dele —, ela tinha que ficar sentada no chão — tal como uma serviçal, uma cadelinha — aos seus pés! Certa vez, olhando-a, disse:
— Acho que não teria me apaixonado por você, se não fosse a sua beleza.
Qualquer mulher teria dado um chute na bunda do cara, mas, ela que perdidamente apaixonada estava — e pronta a salvar aquele casamento —, matriculou-se em um curso de extensão inglesa e de economia por correspondência. E mais, engoliu página por página A Montanha Mágica de Thomas Mann — claro, é um livro maravilhoso, mas, para quem não gosta muito de ler, novecentas e vinte páginas são um sacrifício. Em Chicago ela vê o best-seller Entre O Amor e O Pecado, que todas as atrizes estavam lendo e comentando. Ficara entusiasmada com livro. Chegou em casa, sentou pronta para lê-lo. Enfim algo que lhe daria prazer. Artie chegou, arrancou o livro de frente dos seus olhos. Leu a capa. Abriu a lixeira, jogou-o dentro dizendo: “Se sou eu que tomo conta da sua educação, não vou deixá-la ler esse lixo”.
Obrigada então era a ler a Interpretação dos Sonhos de Freud, afinal, ele insistia que a psicanálise era a cura para tudo o que existia no mundo.
Na noite de Natal, levou-a numa festa — toda de psiquiatras —, e a abandonou em um canto. Envergonhada, sentou num canto da casa com medo de falar qualquer besteira na frente daqueles homens e mulheres cultos. Os cigarros, a música ao fundo, milhões de palavras chatas.
Um baixinho sentou ao seu lado, foi atencioso. Ora ele era psicanalista e achou-a um caso interessante. Começou a freqüentar sessões com este, mas, insistia em fazer um teste de QI. E ele em querer que ela falasse de todos os seus problemas — principalmente, da infância, na procura insana de algo que a destruíra por completo psicologicamente.
Certa noite, Artie que era um grande jogador de xadrez lhe disse: “Sabe Ava, se soubesses jogar xadrez, poderíamos fazer algo juntos”. Ela se dispôs na hora. Mas, Artie não estava disposto a ensiná-la. Contratou um profissional. Foram meses e meses de táticas de ataque-defesa. Quando o professor disse que ela estava pronta, Artie se sentou diante dela, com um sorriso escarninho. Em resumo: miss Gardner deu um xeque-mate com algumas jogadinhas em Shaw, que guardou o tabuleiro e depois de um: “sorte de principiante”, nunca mais jogou com ela.
O teste de QI a surpreendeu: “Você tem um QI elevadíssimo, apenas não usou todo o seu potencial”, disse o psicanalista.
É de se imaginar o que ocorreu com os nervos de Ava com o passar do tempo.
— Se ficava quieta quando havias amigos à volta, ele dizia: Por que você não diz alguma coisa? Será que você não tem nada a dizer? E se eu tentava falar, ele dizia apenas: Cale a boca. O seu desprezo ostensivo diante dos nossos amigos era particularmente doloroso. Ele desprezava os meus desejos e me humilhava sempre que podia, até que quase nem pudesse segurar as lágrimas. Eu o adorava, mas aquele foi um dos piores momentos que já suportei — confessou.
Claro que o divórcio veio. Mas, a última punhalada ainda seria dado no coração da atriz. Artie a chamou um dia até seu escritório. Ela estava esperançosa de que um milagre houvesse ocorrido, ele mudado, que tudo enfim desse certo, pois o amava ainda. Mandou-a sentar, mostrou-lhe uns papéis perguntando friamente: “Você se importaria se eu fosse ao México para conseguir um divórcio rápido?”. Ela apenas disse: “Não… claro que não”. Assinou os papéis, sabendo tempos depois que ele se casara com Kathleen Windsor — a autora do ‘lixo’ Entre o Amor e o Pecado.

Vinte e Quatro Anos: No Lugar de Velinhas… Clark Gable

“Vinte e quatro anos de idade. Não é uma idade em que, com tantas outras coisas acontecendo, a gente pára e faz um longo e cuidadoso exame de consciência. Mas, assim por cima, eu tinha passado por dois casamentos e cada um deles tinha durado pouco mais de uma ano… trabalhava duro, a MGM cuidava disso. Estava saindo com vários homens, mas não ia para cama com nenhum. Não bebia a sério — só uns drinques à noite…”
(Ava Gardner: Minha História. L&PM Editora, p. 97)

E mesmo assim, a vida prosseguia.
Howard Hughes ao saber que a diva estava novamente só, voltou a procurá-la. Queria casar com ela de qualquer jeito. Todavia, Gardner, estava mais ocupada em sair com outro Howard — Howard Duff —, um rápido relacionamento — que certa vez, fez a atriz ir em um bordel certa noite, enquanto passeavam por São Francisco.
Mas, seus vinte e quatro anos ficariam marcados por outro acontecimento.
Certo dia — após o sucesso de Whistle Stop e The Killers —, batem na porta do seu apartamento — a esta altura já não morava mais junto com a irmã Bappie —, estava despenteada, em trajes comum — oh sim, não possuía olho mágico —, e abre a porta, acreditando ser algum conhecido. Era Clark Gable.
Sim, Clark Gable, o ator ao qual ela admirou desde a infância e que em sua biografia escreve: “Podia-se dizer que ele não era o maior dos atores mas, Deus do céu, era mais do que isso. Era um astro”. E que há dezoito meses, devido ao falecimento de Carole, estava afastado das telas.
Ele estendeu sua mão com um sorriso apresentando-se:
— Senhorita Gardner. Desculpe por importuná-la, não sei se a senhorita me conhece, me chamo Clark Gable e queria pedir alguns minutos da sua atenção, se fosse possível.
Não sei até hoje porque ele se apresentou. Creio que Ava também, não. Educadamente ele entrou, após a permissão da moça. Esperou ser indicado um lugar no sofá ao qual pudesse sentar e soltou:
— Bem, estou voltando depois de uma temporada de férias, acho que a senhorita deve ter tido conhecimento do falecimento da minha amada esposa… E, estamos dando início a um novo projeto, chamado: Mercador de Ilusões. Vi sua atuação em Whisle e Killers — oh, ele havia visto os dois filmes —, e adoraria, e também seria uma honra, se a senhorita aceitasse trabalhar ao meu lado neste novo projeto.
Adoraria… seria uma honra… não precisasse dizer que Ava ficou de queixo caído. Ora, era Gable pedindo humildemente: oi quer trabalhar comigo.
Claro que a MGM, que detinha todos os passos de Gardner, queria unir os dois no filme. Afinal, ela tornara-se numa das mulheres mais desejadas dos últimos tempos graças às películas anteriores. E o filme ainda tinha Deborah Kerr — fazendo sua estréia no cinema americano.
O que incomodava Gardner — no fundo —, era que novamente ela seria uma femme famale. Mas, qual o problema, afinal teria que beijar Clark Gable — apenas… algumas vezes.
E o beijo… o beijo era um problema. Devido aos códigos de ética do cinema, tinham quer ser curtos — tinham prazo para terminar. E tinha a posição da luz, tinha o melhor ângulo, o cuidado para não borrar o batom.
Às vezes tudo dava certo, mas de repente: “me vinha um pensamento à cabeça, quando estava nos braços de Clark, fazendo uma cena: ‘Este é Clark Gable. Este é Clark Gable!’ Aí eu perdia completamente o controle. Qualquer texto, qualquer pequena nuance sugerida pelo diretor… entrava por um motivo e saía por outro. Mas, de uma maneira mágica Clark compreendia tudo, Deus o abençoe. Se curvava um pouco, as rugas bem visíveis em torno dos olhos, sorria e SUSSURRAVA: ‘Oi, garota, onde está você? Deu branco? Deixa eu te ajudar’…”
O filme rendeu inúmeros elogios a atriz. Inclusive, houve um crítico que chegou a dizer que o filme “valia por Ava Gardner”.
Clark e ela viraram ótimos amigos. Mas, nunca houve nada entre eles — no mais “ele era Clark Gable, e eu, quem era eu?” Segundo a atriz: muito da vontade de viver se fora com a morte de Lombard. E mais, segundo Ava, Gable não correu para os braços de Joan Crawford — como certos livros afirmam —, ele entrou em desespero completo e, voltou para a casa deles, não querendo falar com ninguém, desejando que sua vida findasse também.
As luzes todas apagadas. Abriu uma garrafa de uísque, tomou um gole. Lançou-a contra a parede. Embriagar-se não a traria de volta. Seu amor morrera, de um jeito estúpido. Estúpido demais. Todas as palavras, todas as que nunca foram ditas, todas que deveriam ter sido repetidas… Ela estava morta, e ele só. Entrou no quarto. Viu um corpo sobre a cama de casal. Não podia ser: era Carole. Ela estava ali. Não era alucinação. Seria o álcool. Levou a mão direita sobre o cobertor — luzes acesas. Era sólido — se não era, estava enlouquecendo. Acariciou o corpo por sob o coberto. Os cabelos — sim eram os cabelos dela. A roupa íntima: o pouco que parecia era o mesmo que Lombard usava. Era ela, só poderia. Tudo não passara de um pesadelo. Ao descobrir o corpo, descobrira ser uma cópia da atriz, um manequim. Sua amada antes de viajar, quis fazer-lhe uma brincadeira. Falou com responsáveis pelo departamento de maquiagem, criaram a réplica, e ao sair de casa, o colocou no quarto de ambos. O choque quase acabou com os nervos já em frangalhos do ator.
Gardner — extremamente tímida: tinha vergonha de comer diante de muitas pessoas. Isto para ela era um pesadelo. Escondia-se no camarim em companhia de sua amiga Arlene Dahl para almoçarem. Lavava três vezes a mão durante o almoço. Gable achava aquilo estranho, e resolvia fazer companhia a diva — quando, esta não estava acompanhada de Arlene ou outra garota. Gostava de conversar sobre muitas coisas, mas, adorava estar com Gardner, porque ela tinha paciência de ouvir ele falar constantemente sobre Lombard.
Os seus vinte e quatro anos, também tiveram outra marca: por pouco não sofrera um estupro, certa noite, ao ser levada a mansão de John Huston — um dos adaptadores de The Killers. Embriagado, ele invadiu o quarto no qual a atriz estava dormindo. Gardner, depois de ver-se livre das mãos do maluco, correu para fora da mansão, seguida por ele. Por fim, restou-lhe apenas um lugar onde o bêbado não poderia alcançar. Subiu em um enorme trampolim. Ele seguindo atrás. Ela pulou direto na piscina. O babaca, que tinha medo de altura — se tocou onde estava e paralisou. Ensopada, voltou para casa, com sua ‘amiga’ Jules Buck dizendo: “Pobre John. Sabe, ele está realmente muito só”. Na manhã seguinte, ele estava se casando com aquela que seria a “oitava” esposa de Artie Shaw. Em resumo: o solitário queria era uma despedida de solteiro.
Jean Ogilvie — sua personagem em Mercador de Ilusões —, ficaria no inconsciente do público, tanto quanto Kitty Collins. Ambas deusas do amor — que por sinal, tornou-se o “apelido” de Gardner entre os críticos, assim como, “namoradinha da América” fora para Pickford. Nigel Cawford — décadas depois —, preferiu denominá-la de: A Caçadora de Paixões.
Ser vista como uma mulher sexy — somente isso — incomodava muito Gardner, pois, o público em si, confundia-a com seus personagens.
One Thouch of Vênus (Vênus, A Deus do Amor — no Brasil), veio apenas contribuir para esta visão distorcida da figura da atriz. No filme, uma estátua da deusa do amor, ganha vida após um beijo. Começam-se as especulações de que a atriz sai com cada um dos artistas que contracena, o que, ela desmente em sua biografia.
Logo a seguir vem The Bribe (Lábios Que Escravizam), The Great Sinner (O Grande Pecador), East Side, West Side (Mundos Opostos), e aquele que com toda a certeza, é um dos filmes mais fracos da sua carreira My Forbiden Past (Orgulho e Ódio, 1951).
Howard Hughes, comandava a RKO — há algum tempo. Um dos seus atores preferidos — estrela da sua companhia — era Robert Mitchum — um talentosíssimo ator que, havia sido preso por porte de maconha. Hughes após ver o sucesso do filme que produzira: O Cais da Maldição (The Big Steal, 1949), no qual, Mitchum protagonizara, resolveu criar “outro clássico”. Para tanto, precisava de uma nova estrela — Ann Sheriedan, ao qual cogitara o papel principal, estava processando o empresário. Resolveu falar com a MGM, para ter então Ava Gardner no filme — obviamente, soltando uma graninha para Mister Louis B. Mayer.
Nesta, triste película, Gardner é Barbara Reynolds, uma dama da sociedade, que possui uma avó que é capaz de fazer qualquer coisa por dinheiro. Barbara é perdidamente apaixonada por um professor de medicina casado (Robert Mitchum). De repente, a garota graças a uma herança, fica riquíssima. A avó fica de olho no dinheiro da menina. Barbara procura o médico que tanto ama, querendo-o a todo custo. A esposa do rapaz morre, e, ele é acusado de assassinato. Gardner (Barbara) então vai até o tribunal e conta todos os podres da avó que, por sinal, é a culpada pela morte da esposa do médico. Um péssimo filme.
Obviamente, todos os jornais noticiaram que havia um romance entre Mitchum e Ava. Em sua biografia, Gardner desmente. Diz que, Robert era um homem belíssimo — que tal como ela, muitas atrizes o achavam charmoso —, mas, além de bom profissional, ele era fidelíssimo a esposa. No mais, mesmo que Mitchum quisesse, nada ocorreria entre eles, Gardner estava apaixonada pela terceira vez. Uma nova história de amor surgia no horizonte.

Frank Sinatra

Gardner conheceu Frank em um nightclub da Sunset Club, nos tempos em que ainda era esposa de Rooney:
— Porque não te conheci antes do Mickey? Certamente, teria me casado com você antes dele — foi esta a primeira sentença que viu sair dos lábios de “The Voice”.
Passado alguns anos, os dois encontrar-se-iam novamente. Agora, como vizinhos. Sinatra vivia a chamar a atriz junto com outros amigos do seu apartamento, que ficava em frente ao de Ava e Bappie.
Mas, o relacionamento teve início realmente — deixando o simples: apenas amigos —, no início de 1949, quando ao contrário da carreira da diva, a carreira de Sinatra decaía dia após dia.
O mesmo ainda era casado com Nancy. Lana Turner — amiga de Gardner —, tentou preveni-la, quando numa festa ficaram a sós no banheiro, usando o velho pretexto de “me acompanha, preciso retocar a maquilagem”.
Turner fora por dois anos amante de Frank, e por mais promessas que o cantor lhe fizesse, jamais deixou à senhora Sinatra para ficarem definitivamente juntos.
— Não se iluda, amiga. No fim, ele sempre volta para Nancy.
Foi o que Nancy Sinatra afirmou aos jornalistas quando o caso tornou-se público — por meio da impressa —, no início de 1950.
Pior para Ava, que não queria ser apenas mais um “caso” na vida do cantor. Tal como Lana, exigia ser a oficial.
Como o relacionamento de Nancy e Sinatra estava ruindo desde o surgimento de Gardner, ela resolveu no dia dos namorados fazer uma declaração, no intuito, de usar a impressa para mexer com os nervos do marido:
— Infelizmente, minha vida matrimonial com Frank tornou-se muito infeliz e quase insuportável. Por isso, nos separamos. Pedi ao meu advogado que tente chegar a um acordo de separação, mas não prevejo que um processo de divórcio ocorra a médio prazo.
A declaração de Nancy era tudo o que a impressa precisava. Sim, Gardner era realmente uma femme famale, uma destruidora de lares — tal como suas personagens.
Ava sempre recebeu centenas de cartas por semana. Gente pedindo fotos, um autógrafo, fios de cabelo, etc. Mas agora, a correspondência mudara por completo. Eram ameaças, pedidos para que deixasse Sinatra, e inclusive houve uma carta endereçada A/C da Meretriz—Jezebel—Gardner.
Os jornais mostravam o povo americano indignado. Orações eram feitas pela alma da atriz e pela reconciliação do casal Sinatra.
Não importava onde resolvessem se esconder — Ava e Frank — sempre eram descobertos por fotógrafos e repórteres de plantão. Além do divórcio que não saía, dos paparazzi, os “briguentos Sinatras” — como foram apelidados —, tinham um problema maior para resolver: o ciúme e gênios fortes. Gardner queria estrangular qualquer garota que olhasse para Frank — afinal, sua fama de infiel corria longe. Da parte dele, se pudesse aniquilaria Artie Shaw — engolia este, por ser um excelente músico —, mas seu ódio realmente pendia para Howard Hughes — o milionário apaixonado por Gardner.
Durante as gravações de Pandora And The Flying (Pandora, no Brasil), após inúmeras doses, Gardner acorda em meio aos braços do toureiro Mario Cabre — que por sinal, desejava ser uma celebridade a todo custo, já que, na arena, era um toureiro mediano. De modo que, aproveitando-se do fato, soltou aos quatro ventos que estava apaixonado por Ava — e ela por ele! E mais, para mostrar o seu amor latino, leu meia dúzia de poemas que fizera em homenagem a atriz — imitando Rodolfo Valentino. Ameaçou Sinatra, se este aparecesse na Espanha. Frank ficou furioso. Obviamente, a “transa casual” ocasionou uma briga — das muitas.
O que incomodava os amigos — no geral —, era que as brigas eram violentas, chegavam ao cúmulo de assustar os espectadores. E depois do escarcéu, os dois sorriam um para o outro e acabavam se beijando. Enfim, os que acompanhavam, viviam com os nervos a flor da pele.
Em sua biografia a atriz desmente que tenha obrigado Frank a deixar de cantar a lendária Nancy With Laughing Face — que fora escrita para sua filha e não sua mulher —, todavia depois de um show, no qual, o cantor abriu com esta canção — e todos riram achando ser uma brincadeira —, enquanto estiveram juntos, Sinatra nunca mais cantou a mesma.
No ano em decurso, Gardner interpreta Julia Laverne em O Barco Das Ilusões (Show Boat), musical no qual, sua amiga — e ex-de Artie Shaw — Lena Horne cantou as duas músicas que eram interpretas por Ava, já que, o responsável musical Arthur Freed, não considerava a diva uma cantora.
Mesmo, sem a voz da atriz, O Barco Das Ilusões fez um enorme sucesso — o que surpreendeu muitos, em vista que, a televisão tinha roubado, e muito, o público que freqüentava as salas de cinema.
Os advogados procuram Frank no dia 29 de maio de 1951, anunciando que finalmente Nancy concordara com o divórcio.
Feliz, Ava insiste em conhecer os pais de Sinatra — era uma tradição, do qual, ela não iria abrir mão. O cantor que estava há dois anos brigado com os progenitores, por fim, cede. Marty — a mãe —, torna-se amiga de Gardner, chamando-a de “aquela que devolveu meu filho para mim”.
No final de agosto, no entanto, o divórcio ainda não fora concedido. Desesperados, fogem para o México, na esperança de obterem um pouco de paz. Ledo engano: os jornalistas mexicanos unem-se aos americanos, não os deixando sossegados um minuto sequer.
Continuam as brigas graças ao ciúme de ambos. Sinatra estava mal financeira, musical e psicologicamente, de modo que, descontava em Gardner, inventando pretextos para discutirem. Geralmente, “esses pretextos” tinham nome e sobrenome: Howard Hughes. O músico não conseguia acreditar que ela houvesse resistido às investidas do milionário. Para piorar, os espiões do mesmo, viviam para baixo e para cima seguindo o passo de ambos.
Em outubro de 1951, o divórcio é declarado. Nancy destruiu por definitivo o pouco que restava da fortuna de Sinatra. Escreve a atriz em sua autobiografia: “Uma semana depois, estávamos prontos para subir ao altar. Então uma sombra caiu sobre nossa felicidade. O seu nome era, como podem adivinhar, Howard Hughes”.
Mesmo Ava não tendo nada com Hughes, Frank tinha seus motivos para ter um pé atrás com a figura, pois, Howard estava mais do que obcecado pela atriz — mesmo tendo outros casos com seis mulheres! Gardner, no entanto, insistia em repetir a ele que desde que conhecera Sinatra “os outros homens do mundo morreram”, ou seja, nada além de amigos.
Um dos motivos de sua preferência pela diva, era que Hughes não estava acostumado a ouvir ninguém lhe dando um não. E Ava, dizia-lhe não o tempo inteiro.
Quando deram divórcio para o cantor, o milionário pirou de vez. Ora, eles iam casar. De modo que, volte e meia, tentava dissuadir a atriz “daquela loucura”. Numa dessas vezes, convenceu a mesma que o futuro esposo estava tendo um caso com uma das coristas da sua banda de apoio — uma garota muitíssimo jovem, que tinha rosto infestado por acnes!
Miss Gardner, ciumenta que só, entrou em pânico. A briga entre Frank e ela foi tamanha que o mesmo teve de apresentar a suposta amante a diva. Possessa, ofendeu a garota: “Virgem? Virgem o cassete!” — só para se ter uma idéia.
No fim, tudo foi resolvido. Ava então prometeu a si mesma, nunca mais ouvir Hughes.
Incansável, porém, Howard deu sua última cartada — ou pelo menos a atriz suspeitava que fosse ele o causador do fato —, bem no dia do casamento da atriz.
Tudo pronto para o enlace. Bappie — a irmã — estava auxiliando a diva a colocar um belíssimo vestido marquisette rosa-escuro, um colar de pérolas, brincos idem com detalhes em diamantes, quando uma carta encaminhada “aos cuidados” veio a ser entregue a noiva. Conforme relata em sua biografia: “Abri, li e quase nem consegui continuar respirando. Era de uma mulher que admitia ser meretriz e afirmava estar tendo um caso com Frank. Era uma sujeira, dava detalhes que achei convincentes e fiquei com nojo. Como é que eu poderia manter o casamento diante de uma carta como aquela?”
Ela voltou-se para a irmã dizendo que estava tudo terminado, trancando-se noutro quarto em prantos!
Foi um Deus-nos-acuda, todos tentando convencê-la do absurdo: ora haviam os convidados, o buffet, fotográfo, etc e tal. Abriu porta do quarto, encarou a todos e perguntou:
— Vocês esqueceram da parte mais importante de tudo isso, não acham?
— Qual? — todos em uníssono.
— Da noiva! — e bateu a porta.
Conversa vai, conversa vem. Enquanto isso, Sinatra com os nervos a flor da pele jurava que iria matar o “filho da mãe do Howard Hughes. Tenho certeza que foi ele”.
Alguém lembrou de falar da figura para a diva. Sim, só poderia ter sido o cara.
Em resumo: a sete de novembro de mil novecentos e cinqüenta e um, na residência de Lester Sachs — amigo de ambos, na Filadélfia —, a diva tornava-se enfim: Ava Gardner Sinatra.
Apesar de toda descrição, do esforço mútuo de todos para encobrir o local do casamento — tentando assim, obter um pouco de privacidade do casal —, a imprensa que conseguira infiltrar “um dos seus” em meio à equipe do buffet, surgiu em peso. Flashes e mais flashes, braços sobre braços, vozes e mais vozes, tornaram-se numa muralha ao qual Frank e Ava tiveram que transpor até chegar ao carro. Pouco antes de entrar, Gardner voltou seu olhar e encontrou entre as pessoas um dos conhecidos espiões de Howard Hughes. Sorriu, entrando definitivamente no automóvel.

 

Senhor e Senhora Sinatra

Desesperados para se livrarem dos abutres da imprensa, pegaram um avião rumo a Miami. Todavia, a noiva esquecera da sua mala. Resultado: uma das mais conhecidas fotos do casal, onde Gardner aparece usando as roupas do dia anterior, pés descalços, coberta pelo casaco de Sinatra, caminhando pela praia. O fotografo vendeu a película para todos os jornais e revistas mais importantes da época. Resolveram ir para Havana.
Em Cuba, conseguiram passar como meros turistas, como um “casalzinho qualquer”. Foram estes os melhores momentos da vida de ambos, sem brigas, sem perturbações paralelas.
Mas, o retorno aos Estados Unidos era inevitável. Frank tinha shows agendados — e ele precisava e muito fazer shows. Como boa esposa, ela o acompanhava em cada um deles. Na cidade de Nova York, porém, o ciúme tomou conta da bela ao vislumbrar entre as fãs de plantão, próximas ao gargarejo, Marilyn Maxwell, uma antiga paixão do atual esposo. Ciumenta, via Frank cantar — e mais flertar! — só com a garota. Quanto as outras que debruçavam-se desesperadas por Sinatra, bem, elas não existiam — ao menos aos seus olhos.
No hotel, logo após o show, sem perder tempo, a diva começou uma série de acusações. Frank reagiu: tudo aquilo era um absurdo. Fora de si, Gardner sai aos prantos do hotel, descalça e ainda vestindo o belo traje do show. Chovia muito. Tinha uns poucos trocados na bolsa. Corre para o metrô, entra no primeiro trem, partindo sem rumo lógico.
Quando este chega ao ponto final, salta. Encontrava-se num bairro em ruínas, na periferia de Nova York. Vê-se caminhando em baixo de fina chuva. O dia começando a nascer. Um táxi cruza seu caminho. Faz sinal.
— Hampshire House Hotel.
O taxista olha-a da cabeça aos pés. Vestida daquele jeito, com o rosto demonstrando choro intenso, àquela hora, naquele lugar, querendo ir para o hotel mais luxuoso de Nova York… Ora, só poderia ser uma profissional que algum milionário pervertido tinha chamado àquela hora.
Em sua biografia, Ava comenta que o motorista ficou lhe dando conselhos do tipo: “Faz ele pagar por isso. Joga o preço lá em cima, benzinho. Se ele tá afim de ti à uma hora dessas, é porque tem muita grana”. E o que ela poderia dizer: “Desculpe, mas sou a sra. Sinatra”? Resolveu ficar calada, no mais, estava exausta.
O taxista estava tão indignado com “aquilo” — uma bela moça, com os olhos inchados de tanto chorar — que se o cliente surgisse em frente do hotel, era capaz de esmurrar o mesmo.
Todavia, quem surgiu foi o porteiro do hotel, que reconhecendo a atriz, abriu de imediato a porta do automóvel dizendo:
— Bom dia, senhora Sinatra.
O homem quase desmaiou. Deus, aquela era Ava Gardner atual esposa de Frank Sinatra! Gaguejava, pedia desculpas e mais desculpas. Ava disse que não era preciso dizer nada, agradeceu os conselhos, depois, sussurrou no ouvido do porteiro: “Dava para pagar a corrida e dar dez dólares de gorjeta para o taxista”. O porteiro fez continência e atendeu a ordem.
No quarto, um Frank desesperado aguardava-a. Enquanto, ela comia um sanduíche com ovo — preparado por ele —, “The Voice” confessou:
— Estou feliz que tenhas voltado sã e salva para casa.
E ela com a boca cheia respondeu:
— Eu também.

A Pior Briga do Casal

Entre os shows de Sinatra, a vida de casada e a gravação de As Neves do Kilimanjaro (1952) — onde interpreta Cynthia, uma das personagens que mais adorou protagonizar —, Gardner passa a viver com Sinatra na mansão deste em Palm Springs. Numa manhã longínqua — enquanto Frank estava em turnê —, o telefone toca. Gardner estava em casa com sua irmã Bappie. Era Minna Wallis.
— Ava, aqui é Minna, tudo bem?
— Oi Minna, tudo, tudo. E como estás?
— Ótima, benzinho. Escute, gostaria de pedir um favor. Poderia passar o fim-de-semana com você aí em Palm Springs?
— Claro, seria ótimo.
— Mas é que estou acompanhada de uma amiga, ela poderia ir junto?
— Sem problemas.
— Que bom, então daqui a pouquinho eu e a senhoria Garbo estaremos chegando.
— Garbo?
— Sim, Greta Garbo.
— Adoraremos tê-la aqui — respondeu. — Quando ela chega?
— Dentro de cinco minutos.
Gardner quase teve uma pane. Bappie, também. Não sabiam se gritavam, o que faziam, afinal era Greta Garbo. Greta Garbo que as duas tanto admiravam!
Corriam para baixo e para cima: “O que faremos? O que faremos?”, perguntavam-se atônitas.
Por fim, colocaram flores no quarto reservado a grande estrela. Ligaram o ar condicionado. E tentaram segurar à vontade de ficar gritando sem parar ao vê-la descer — naquele verão quentíssimo —, usando óculos escuros, um maravilhoso chapéu de abas largas e…um suéter de lã de gola redonda, com uma echarpe de lã envolta em seu pescoço e um casaco pesado por cima de tudo! Em sua biografia Gardner conta o que ocorreu imediatamente:
— Olá, miss Garbo — disse, ainda me portando como uma polida senhora sulina. — Sou Ava Gardner. Retribuiu o cumprimento? Ganhei um aperto de mão? O menor sinal de reconhecimento? Qual nada. Apenas um movimento rápido em direção a casa e um ressonante “onde é o meu quarto?”… Logo, ela e Mina instalaram-se em seus respectivos quartos. Depois, mandaram nos avisar que, em primeiro: Greta detestava ar-condicionado. E… se havia algo que detestasse mais ainda que ar-condicionado, eram flores!
Bappie e Ava sentaram no sofá da sala de queixo caído. Pressentiram que “aquele fim-de-semana dos sonhos”, tornar-se-ia em um pesadelo.
Foram para a piscina. O que fazer? Deus, admiravam Greta — ambas. E a primeira impressão não fora das melhores.
Eis que Garbo surge num belo maiô, acompanhada de Minna. Agora é somente sorrisos. Convida-as para nadar. Depois, agradece uma vodka oferecida. E o primeiro momento é esquecido. Riem, conversam sobre diversas coisas. São agora quatro amigas aproveitando o fim de semana. Claro que, uma dessas amigas era: Garbo. E Garbo estava ali, sentada na mesma mesa que elas, no mesmo sofá que elas, fumando com elas a mesma marca de cigarro! Por fim, a grande atriz abriu seu coração para com as meninas: amara em toda sua vida um único homem — e ainda o amava — era John Gilbert. Mas, não poderia perdoa-lo, afinal fora traída com… Todas esperavam que ela dissesse: com Marlene Dietrich. Mas, os queixos caíram quando completou: fui traída com uma figurante! “Ele me traiu com uma figurante! Uma figurantezinha qualquer ao qual trabalharam por um dia! John pisou na bola, pisou mesmo!”
Contudo, não seria esta a cena mais impressionante que a casa de Palm Springs presenciaria.
Houve um momento, na vida do casal Sinatra, que Frank emprestara a casa para Lana Turner. Gardner adorava Turner — eram muito amigas. No mais, para Ava, Lana era a personificação em pessoa do que era ser uma estrela. “A estrela em pessoa”, costumava dizer.
Certa noite, o casal Sinatra foi a uma festa de amigos. Obviamente, beberam muito — e a bebida nunca foi boa para ninguém, principalmente para os dois. Em meio a uma conversa e outra, eles se exasperaram. Quando voltaram para sua atual casa — na Pacific Palisades —, Gardner trancou-se no banheiro. Não queria ouvir um “a” dos lábios do esposo. Entrou na banheira. Obviamente, estava nua. Quando o cônjuge abriu a porta, ela entrou em pânico. Explico: Gardner tinha uma vergonha absurda de ficar nua na frente de outras pessoas, inclusive para seus maridos. Ela jamais se deixava ver despida. E se rolou, ela estava muito, mas muito, alcoolizada.
— Saía daqui, agora! — gritou.
— O que é isso, sou seu marido!
— Vá embora! Vá embora! — gritava sem parar.
Sinatra que estava também fora de si, respondeu: — Tudo bem, se é isso que você quer, eu vou”
— Vá embora! Vá embora! — repetida em desespero.
E antes de sair: — E se quiseres saber onde vou estar, querida. Vou para Palm Spring, pegar Lana Turner — obviamente, ele utilizou um tabuísmo no lugar de “pegar”, mas, não convém utilizar a palavra exata aqui. Bateu a porta.
Gardner começou a meditar. Caramba, ele… ele… droga, eles foram amantes no passado. Claro, claro, ele… Entrou em pânico. O casal tinha apenas um carro, e , Frank saíra justamente com aquele.
Ligou para Bappie — já era tarde da noite. Explicou o caso: “Quero pegar o filha da mãe, com Lana”.
Enfim, Bappie conseguiu um táxi. Partiram. Chegando lá, não viram o automóvel de Frank. Não havia como entrar na casa. Mas, Gardner encontrara um meio: subiria em uma árvore, até chegar as janelas do quarto, pegando o esposo!
E quem convence Gardner de que era loucura? Lá foi ela. O problema que quando chegou próximo a janela do quarto, as cortinas estavam fechadas. Ficou tão furiosa, fez tanto barulho que abriram a janela. E quem era? Ben Coler, empresário de Turner que estava acompanhando a estrela.
— Ava? — indagou espantado.
— Oi, Coler. Como vai? — perguntou com aquele sorriso que só Gardner sabia dar.
— Eu-eu.. eu vou bem. E… e… — olhava para aquela cena, uma das maiores atrizes do cinema pendurada feito macaco numa árvore — e você?
— Tudo bem, tudo bem, obrigada.
— Hã…
— Hã…
— Hã… — novamente, da parte de Coler.
— Coler, querido, antes que me esqueça: poderias abrir o portão para que Bappie e eu possamos entrar.
— Oh sim, claro, claro. Respondeu.
— Mas, uma coisa — pediu, antes que ele se fosse. Poderia arranjar uma escada para mim. É que não estou conseguindo mais descer daqui.
— Sim —, respondeu o empresário.
Obviamente, Turner que adorava Gardner, ficou felicíssima de vê-la. Foram, tomar uns drinques. Não poderia ter feito sugestão pior, pois, Ava estava alta, mas bem alta, e mais, ainda corroída pelo ciúme. Procurava em todos os cantos — com os olhos — os pés, braços, qualquer sinal da presença de Frank.
Então, Lana abriu o coração. Estava esperando uma pessoa, ao qual há muito estava apaixonada.
— Oh! — fez Ava, imaginando uma forma de matar lentamente Sinatra e a amiga.
— Ele está vindo de Los Angeles para cá — em sua biografia, Gardner não revela o nome do namorado de Turner. — Sabe, ele é gerente de um nightclub lá. É adorável. Realmente estou apaixonada Ava. Acho que desta vez tudo vai dar certo. Mereço ser feliz uma vez na vida, não?
— Mas, é claro, mas é claro.
Gardner começou a rir. Que ótimo, seria adorável que Sinatra aparecesse e pegasse Turner na cama com o cara. Teria perdido a loira e ela, numa noite apenas.
Turner continuou falando. Comprara um frango, preparara para o namorado e um vinho que ele adorava. Bappie também ria — saíram para dar um flagra, e estavam prestes a se tornarem “duas velinhas” para o casal. E dá-lhe bebida. E dá-lhe histórias.
No ponto alto da conversa. Os risos altos. A porta atrás deles abre-se: era Sinatra!
Todos ficam espantados. Ora, será que Frank tinha vindo atrás da esposa?
Ava mostrou-lhe uma taça e com um sorriso no rosto — e a mente alta — soltou uma frase infeliz:
— Ora, ora, senhor Sinatra, pensei que estivestes aqui “pegando” a Lana!
— Eu não “pegaria” esta perua, nem que você me pagasse! — respondeu o cantor furioso.
E dá-lhe um ofender o outro — e as ofensas iam e vinham sobre Lana, que pôs-se a chorar. Bappie ficou muda. Coler paralisado.
— Vou embora! Vou embora! — gritava Turner, chorando.
— Vá mesmo, perua! — retrucou Sinatra. — E falando nisso: todos fora da minha casa!
— Fora da sua casa? Queres dizer, da nossa casa, benzinho — ironizou Gardner.
— Sua “coisa” nenhuma.
— Ah é, deixe-me pegar então as minhas coisas — respondeu Ava, que arranjou uma escada e começou a tirar da estante livros e mais livros, discos e mais discos, arremessando-os no tapete da sala.
Frank falando sem parar. Ela respondendo sem parar. E no meio da guerra, dos pedaços de discos — incluindo um de Artie. “Oh sim, este pertence a você”, lascou o cantor —, Turner com as malas feitas, o orgulho ferido, tentou passar por sobre tudo. Escorregou, machucando-se. Depois, erguendo-se dos destroços, foi desejando ainda uma “boa noite”.
As coisas continuaram feias. Enfim, Frank chamou a polícia. O delegado que apareceu era amigo do cantor, e viu algo inacreditável: Gardner agarrada na maçaneta da porta, Sinatra puxando-a ora pela cintura, ora pelos pés. Gritos e mais gritos. Palavras ofensivas.
Não tinha muito que fazer: estavam caindo de bêbados. No mais, como estavam em uma propriedade particular, não era lá “um crime grave”.
E para piorar, Ben Coler, apareceu.
— Boa noite — cumprimentou o delegado.
— Boa noite — respondeu.
— Frank, Ava, desculpe estar importunando — iniciou, vendo a luta dos dois ainda porta. — Mas, é que esqueci de levar o frango e o vinho que a senhorita Turner comprou… vocês se importariam se eu…
Fitaram-no por um segundo: claro que não. E voltaram as favas.
Enfim, o delegado separou os dois. E os dois se separaram, por um breve momento — afinal, amavam-se — retornando durante a campanha Adlai Stevenson.

 

 

Mogambo e A Um Passo Da Eternidade

Frank jamais tivera um papel digno no cinema. Muitos diretores e produtores eram seus amigos e fãs, admiravam-no como cantor, mas como ator, não. No mais, abriam espaços em seus filmes para Sinatra, pois, sabiam da má situação financeira ao qual ele andava, tinha muito. Frank protagonizou coisas horríveis, ridículas mesmo, como por exemplo, Isso Sim Que É Vida (Double Dinamite, 1951), com Jane Russel e Groucho Marx. E o pior, fazendo um dueto com o último da canção It’s Only Money.
Gardner, no entanto, estava quase pronta para o ápice da sua carreira, quando souberam que iriam gravar o filme A Um Passo da Eternidade.
Sinatra comprara o livro — um best-seller — e apaixonara-se pelo personagem Angelo Maggio, queria interpretar o cara a todo custo.
Gardner sabia que teria que mexer os pauzinhos para que isto acontecesse — e fez de tudo. Procurou Harry Cohn — o tirano da Columbia —, implorando para que ele fizesse um teste com Sinatra. Propôs, inclusive a fazer um filme para Columbia de graça.
— Um teste Harry, um teste apenas, Frank nasceu para este papel.
— Isto é ridículo. Olhe, Sinatra é um cantor, não um ator dramático.
— Não, você está enganado Harry, ele sabe atuar e sabe como ninguém fazer este personagem.
— Sinto muito, já escolhemos o cara certo para o papel. Eli Wallach será Maggio, ponto final.
— Um teste, nada mais. Se fizeres, um teste, faço um filme de graça para você.
— Não — respondeu a seco.
Gardner procurou a esposa de Cohn. Ela tentou de tudo para ajudar a atriz. “Um teste Joan, apenas um teste é que peço para Harry fazer com Frank”.
Enquanto isso, Sinatra que tinha muitos contatos juntos a Columbia, ofereceu-se por um salário de mendigo para interpretar Maggio.
Entre esta intermitência, Gardner fora convocada para mais um filme — agora ao lado de Grace Kelly e novamente com Clark Gable —, uma regravação de Red Dust — ao qual, ela vira inúmeras vezes, por causa de Gable, e sim, Jean Harlow. Obviamente, fizeram umas mudanças no roteiro para não dar muito na cara que o filme não passava de um remake.
De modo que, foram parar na África — os estúdios queriam o máximo de realidade possível —, Frank — que não via oportunidade surgindo no horizonte para fazer A Um Passo da Eternidade, e sem show algum agendado, tendo os jornais pisoteando nele o tempo inteiro — foi junto com a esposa — Gardner pagou a passagem dele.
As gravações de Mogambo foram complicadas. Ora pela chuva, ora pelos Mau-Mau que estavam começando um conflito na Uganda. Desentendimentos entre atrizes — a princípio, Grace e Ava, não foram uma com a outra — e o diretor John Forder não queria Gardner no elenco, não considerava a atriz “à altura do projeto”, queria Maureen O’Hara, e fazia questão de mostrar isso — na frente de todos.
Um dia a coisa ficou tão feia, mas tão feia em meio às gravações, e as ofensas foram tamanhas, que Gable precisou intervir. Fitou o diretor nos olhos, colocou seu braço sobre os ombros de Ava e disse: “Vamos querida, vamos”. Todos ficaram boquiabertos, ninguém fazia isso com Forder, o premiado diretor! Mas, quem era ele? Oh sim, o cara que ganhara quatro Oscars. E quem era Gable? Apenas, o melhor ator de todos os tempos, um verdadeiro gentleman, oh sim, a personificação em carne e osso da palavra astro. Mas, nas palavras de Ava, Clark era mais que isso: “tanto como homem quanto como ator, ele era o Rei”.
O calor da África também era terrível, sempre entre 45 a 50º C, não admira os ânimos estarem sempre exaltados.
Grace tornou-se amiga de Ava mais depressa que o diretor. Relata em sua biografia a diva: “os olhos de Clark estavam definitivamente postos em Grace e os dela, por falar nisso, estavam nele. Ambos eram solteiros naquela época. No mais, era natural apaixonar-se por Clark. Mas Grace também era uma católica devota e estava angustiada com o que sentia por Clark… Lembro que no aniversário dela, conseguimos uma garrafa de champagne com um contrabandista, e ela e Clark e Jack Ford e eu fizemos uma festinha na barraca. Mais tarde, fizemos a mesma coisa na minha barraca. E depois daquilo, não importando em que parte do mundo eu estivesse, todo ano Grace me mandava um presente de aniversário. Nunca esqueceu e todo ano, no Natal, ela mandava um cartão escrito à mão… Era uma grande dama e muito divertida, mas nunca foi de beber muito… O narizinho dela ficava vermelho, ficava enjoada e a gente tinha de cuidar dela. Ou então, magoava-se com muita facilidade e saia correndo para a escuridão”.
O que por sinal, obrigou Ava a procurá-la muitas vezes, com medo de que algum animal selvagem — lembre-se eles não estavam no estúdio — pudesse, devorá-la. A coisa era tão séria que os atores andavam armados!
Mas, o pior estava para ocorrer. Frank fora chamado para fazer o teste de A Um Passo da Eternidade — Eli Wallach, não dera certo para o papel. E Gardner descobrira estar grávida.
Entrou em pânico, aquele não era o momento de uma criança vir ao mundo, eles eram um casal muito complexo. Era natural que ela saísse de casa antes das seis da manhã para ir trabalhar e Frank, bem Frank, chegava do trabalho pelas quatro. No mais, havia uma clausula no contrato da atriz que proibia uma gravidez! Era olho da rua na hora. E como eles iriam viver. Eles precisavam viver, e a carreira de Sinatra cada vez pior.
Procurou o diretor, contou tudo. Foi além: estava disposta a fazer um aborto.
Jack Ford em meio às lágrimas tentou dissuadi-la: Frank era um católico convicto, jamais a perdoaria. Contundente respondeu que Sinatra só descobriria se ele contasse.
— Preste atenção, querida. Preste atenção. Estás fazendo as coisas difíceis demais para si mesma. Olha vou proteger a tua gravidez, está certo. Arranjarei as cenas, arranjarei as tomadas. Terminaremos as tuas cenas o mais rápido possível. Não vai aparecer nada, nada mesmo, juro. Mas, pelo amor de Deus, não faça nada com esta criança. Deixei-a vir ao mundo.
— Não, não é a hora. Não estou pronta;
Jack tentou ainda por mais alguns dias. Era inútil. Teve que liberá-la. Em Londres, Gardner fez o aborto. Logo depois, voltou para Uganda.
Sinatra feliz da vida retornou para o aniversário de Ava, pronto para contar as novidades. Conseguira o papel. Gardner tinha agora trinta anos, e ele, jamais saberia “daquele” aborto.
Estavam nos términos de Mogambo, e a MGM mandou um telegrama informando que ela estava escalada para ser Guinevere em Os Cavaleiros da Távola Redonda, que seria gravado também no exterior
Enquanto davam um passeio de jipe pelas planícies africanas, Gardner voltou seu olhar para Frank e informou: “Querido, estou grávida”.
O que ele fez? Pela primeira vez na vida cantou para diva — sim, Sinatra jamais cantava fora do palco, era um profissional, tinha que economizar a voz. Ele não cantava em lugar nenhum, nem entre os amigos —, mas ficou tão feliz, que acelerou o jipe e na vastidão africana cantou como um louco When You Awake.
Sim, uma linda criança, belo ou bela como a mãe, com os olhos azuis do pai. Mas, antes que ele comemorasse muito ela foi enfática: aquele não era o momento, ela não queria aquela criança.
Sinatra ficou por mais um tempo na Uganda — sim, pensou ter tirado aquela idéia estúpida da cabeça dela —, mas, foi obrigado a partir para Europa, pois, tinha uma turnê.
Gardner aproveitou a saída dele de cena, e, partiu para Londres. Procurou uma clínica de segunda categoria.
Quando abriu os olhos, esperava encontrar qualquer pessoa: a enfermeira, o médico, quem sabe até o quarto vazio.
Mas seus olhos embaralhados encontraram os olhos azuis ensopados de Frank que estava sentado ao seu lado.
O princípio do fim prenunciava-se no horizonte.

Senhor Sinatra e Senhorita Gardner

Ava detestava filmes de época. E muito mais, a lenga-lenga sobre Rei Arthur e cia. Os Cavaleiros da Távola Redonda (1954), tinham ainda algo que a irritava mais, contracenar ao lado do ex-namorado Robert Taylor vestindo armadura e matando todo mundo que estivesse em seu caminho.
Gardner pediu licença das filmagens — aquela altura o diretor estava filmando apenas cavalos e espadas em punho —, para acompanhar Sinatra que estava em Nápoles, na Itália — como outrora dito, em turnê.
Contudo, o momento fora o mais impróprio. Os jornais detonavam Frank, afirmando ser aquela sua turnê derradeira, pois ele era um cantor decante, ultrapassado, “um gesto de condescendência ofensivo aos seus fãs”, etc e tal.
Ela estava entre o público naquela primeira noite — envolta pela escuridão. Sinatra entrou no palco. Alguns aplausos — não muito polidos. Durante a primeira música, um dos iluminadores a reconheceu — sabe-se lá como — e lançou toda as luzes possíveis sobre ela. Mogambo havia estourado mundialmente. O público ao reconhecê-la começou a aplaudir e a gritar: “Ava, Ava, Ava”, humilhando ainda mais “The Voice”. Frank em meio à confusão pediu para que a orquestra parasse de imediato.
Seus olhos fitaram nos olhos dele. Saiu do teatro sendo ovacionada. Sinatra deixou o palco indo se recompor. Voltou minutos depois, quando soube que ela não mais estava, para terminar o show.
“Por onde íamos, a imprensa fazia festa. Adoravam publicar fotos da rainha do cinema ao lado do homem que há dez anos tinha sido o ídolo das garotinhas e que agora se apresentava em teatros meio vazios para um público que só sabia vaia-lo”, desabafou a atriz.
A Um Passo da Eternidade foi um sucesso, inclusive dando além do Oscar para Sinatra, uma revitalizada na sua carreira. Mas, o casamento ia de mal a pior — o aborto na certa pesara, junto com as crises de ciúmes e as ofensas. Tudo estava “perdoado, mas não esquecido”, como diz a célebre canção do The Corrs: Forgiven, Not Forgetten.
O ponto máximo foi no dia em que Gardner ligou a procura de Frank e ele disse que estava com uma garota qualquer deixando claro que tinha sido acusado tantas vezes de infidelidade que chegou o dia que tinha decidido ser infiel realmente.
No dia 29 de outubro de 1953 o divórcio ocorre. Cada um segue o seu rumo. Frank estava prestes a gravar o melhor de todos os seus discos no ano seguinte Sons For Young Lovers — o lendário álbum ao qual na capa ele está sob as luzes de um poste olhando os casais que passam —, recriando canções como My Funny Valentine — do gênio Chat Baker. Este álbum também é um marco definitivo da música americana, enfim os longs plays deixavam de serem um amontoado de canções — geralmente, união de singles lançados anteriormente — criando o chamado termo “conceito”, criando também a parceria de Sinatra com o arranjador Nelson Riddle. Ele aprendera ao lado de Gardner, acima de tudo, como cantar canções de amor de desilusão. E acima de tudo, descobrira que o microfone não era apenas um amplificador de voz, mas um instrumento a ser usado, com precisão e maturidade.
Enquanto a atriz estava a um passo do ápice da sua carreira, iria gravar A Condessa Descalça — e descalça ou com belos sapatos, ela ainda seria um animal perseguido pela impressa a cada passo que desse.

A Condessa Descalça

Para Gardner, o ápice da sua carreira ocorreu em A Condessa Descalça (1954). Também é o filme que os fãs mais relacionam com sua vida pessoal, além de render-lhe o título — que ela detestava — de “o mais belo animal do mundo”, infiltrado na mente do público através de uma longa campanha feita pelos estúdios.
No entanto, a MGM, lutou o quanto pode para não vê-la protagonizando neste filme. Coube ao diretor e roteirista Joe Mankiewicz (A Malvada, Quem é Infiel?) guerrear literalmente para obter a autorização que permitia gravar o filme.
As gravações foram duras para atriz. O diretor era uma pessoa dificílima — exigente ao extremo, e, após alguns Oscars, o trabalho seria para ele uma prova de fogo, já que era o seu primeiro trabalho pessoal —, quanto a Humphrey Bogart — o eterno Rick, do melhor filme do mundo: Casablanca —, detestava a Itália e com os nervos a flor da pele, descontava naquela garota ao qual ele chamava de “atrizinha”. No mais, havia comentários entre a imprensa que o filme seria na verdade a autobiografia da atriz. O que por sinal, não era. Mankiewicz baseou-se sim, e muito, na vida de outra diva: Rita Hayworth, que fora descoberta como dançarina no México e por fim casara-se com um sheik — além de, conter traços, e muitos não creditados a obra-prima de D.H. Lawrence: O Amante de Lady Chatterley.
Proibido na cidade de Tupelo, no Mississipi, por ser considerado: indecente, ovacionado na França como “a atuação perfeita de Gardner”, “a prova do talento da atriz”, A Condessa Descalça ainda é uma incógnita do cinema a ser descoberta por muitos.
Durante as gravações, ela conhece o toureiro Luis Miguel Dominguini. Vivem um tórrido caso de amor — sem saberem o idioma um do outro.
Quando as gravações terminaram, Ava é levada as pressas por Luis para o hospital, conseqüência de um cálculo renal. Internada — e graças a Luis —, conhece Ernest Hemingway — que ao lado de Francis Scott Fitzgeral, meu preferido, formam o alicerce do melhor que já foi feito na literatura americana.
Todavia, as semanas que prosseguem são terríveis. O cálculo movimenta-se muito lento do cálice direito renal, desce pelo duto urinário, prossegue pela bexiga — onde dá voltas e mais voltas pelo órgão à procura de uma saída, ocasionando necessidade de urinar constantemente, além do que, por possuir pequenos lances pontiagudos, fica arranhando a parede fina do órgão —, por fim, indo para a uretra, que com a força da musculatura — contrações intermitentes, ou seja, o órgão aperta o cálculo cheio de pontas —, expele o mesmo. As dores são torturantes, como não há posição que fique — e ainda não era utilizada a litotrepsia para acelerar o processo —, fica sem dormir durantes dias. No mais, os medicamentos que relaxam toda a parte urinária, afetam e muito os batimentos cardíacos e, por conseguinte, o sistema nervoso da pessoa — que a esta altura não está lá toda aquela coisa. Tremuras eram uma constante.
Quando consegue alta descobre que a MGM tinha lhe suspendido por ter-se negado a filmar Love Me Or Leave Me. Cada suspensa aumentava ainda mais os anos de contrato dela com o estúdio, do qual ela há muito estava louca para ver-se livre. A MGM podia ser o estúdio que mais tinha estrelas — mais eram os mais avaros também.
Sem dinheiro, Dominguini paga suas passagem de volta para Los Angeles — afinal, ela era apenas uma turista e não podia permanecer muito no país. E quem estava lhe esperando no aeroporto? Howard Hughes que sabia tudo sobre a situação de saúde da atriz. Sem dinheiro, na geladeira, a ainda sobre os efeitos dos torturantes dias é convencida de que seria melhor para a saúde dela passar uns dias numa mansão que Hughes havia alugado exclusivamente para a atriz — que estava em companhia de Reenie, sua fiel empregada — as margens do lago Tahoe. Obviamente, era apenas um novo plano do milionário — que continuava tendo amantes —, para conseguir o coração da diva. E foi além, presenteou a mesma com uma safira — avaliada segundo a própria em um milhão de dólares, na época —, vindo diretamente de Kashmir. Claro, ela adorou safiras — ela amava safiras. Vendo que tudo caminhava conforme seus desejos, Howard passou a noite com ela numa casa de jogos — e pior, tirou dinheiro de muita gente, pois, era um ótimo jogador. Fora muito divertido. Entretanto, quando o mesmo educadamente fora lhe abrir a porta do carro, notou que seus olhos estavam inundados de lágrimas. Na porta da mansão, desabou literalmente: a amava, amava muito, sabia que ela não gostava dele, nada além de amigos, mas implorou que se casasse com ele. Jurou que compraria toda a MGM se ela quisesse, um iate novinho, coisa e tal… Que esperaria que ela viesse a amá-lo um dia. Naquela altura, Howard estava a um passo de desaparecer de cena. Os sintomas do mal que lhe perseguiam estavam atingindo níveis alarmantes. Ava apenas prometeu que iria pensar, visto que o mesmo não se acalmava, e era triste ver uma criatura tão solitária chorando desesperadamente.
No dia seguinte, Dominguini aparece na mansão. Não conseguia mais esquecer Gardner, a amava também.
Saíram aquela noite — aprenderam cada qual o suficiente do idioma um do outro, para discutirem pela primeira vez na vida! E a coisa foi séria, pois, Gardner o abandonou na sala da mansão, subiu as escadas, deixando-no atônito.
Claro que, estando numa mansão de Hughes, havia espiões infiltrados como empregados da casa! Um deles ligou direto para o milionário, que ligou para dois de seus capangas que surgiram na mansão no intuito de “fazerem uma visitinha a Miss Gardner” — estranho, àquela hora, não? “Deus, ela está dormindo”. Nervoso, Luis desabafou com os homens, que instruíram dizendo: “O que é isto homem, como podes deixar que uma mulher faça isso com você?”, “onde está sua honra?”. Claro, espanhol como era, o sangue subiu na cabeça do cara que disse que se pudesse ir de imediato à uma hora dessas para Los Angeles, voltava para Espanha no mesmo instante, dando um gelo devido naquela mulher para mostrar quem era o homem ali. Um deles sorriu, disse ter um amigo, um tal de Howard Hughes. Por incrível que pareça, o milionário tinha um avião particular que o levaria imediatamente até Los Angeles, e mais, lhe daria de graça uma viagem pela sua linha área, a TWA, afinal “Dominguini, você é um toureiro reconhecido mundialmente, um herói do seu país. É uma honra”.
Gardner ao levantar-se pela manhã levou um susto — onde estava Luis? O que fora embora, sem se despedir! Tinha sido uma briguinha à toa, coisa e tal. Ficou furiosa. Enquanto isso, no sofá da sala Hughes a esperava. Tivera uma idéia maravilhosa, passar alguns dias numa villa.
Furiosa com Dominguini, partiu. Obviamente, era lindo o lugar. Mas, algo ocorreu que espantou Reenie e Gardner: um dos empregados da mansão onde elas estavam vivia por ali, olhando-as. E mais, ele começou a discutir chorando com Reenie:
— Pelo amor de Deus, eu te imploro. Se tens algum poder de persuasão sobre a senhorita Gardner, me ajude. Não dá para você conseguir que ela vá para cama com o senhor Hughes?
— O quê?
— Eu imploro, olha imploro. Me ajoelho aqui, se for preciso. Faz dez dias que estou cuidando vinte e quatro horas por dia deste colar de diamantes de pérolas que foi de Catarina da Rússia. É uma jóia caríssima e, não posso sequer ir ao banheiro sem levá-la comigo. Pelo amor de Deus, se tens alguma influência, convença-a a deitar com ele, para que possa lhe dar esse colar e ter a minha vida de volta.
Quando soube, Gardner pirou de vez.
— Vamos embora, agora — disse ao saber do fato, Ava.
— Para onde, miss Gardner? — perguntou Reenie.
— Para qualquer lugar, qualquer lugar.
Claro que Howard surgiu quando ela estava segurando suas malas, pronta a partir.
— Estou indo embora.
— Embora? Mas, para onde?
— Havana — fora este o único lugar que passara por sua cabeça.
— Acho que você não deve ir.
— Já decidi. Estou indo. Ah, Howard antes que me esqueça — jogou a safira na cara do milionário.
Curiosamente, ambas ficaram sentadas no aeroporto durante um dia inteiro. Havia vôos para Havana de hora em hora. Mas, o que anunciavam? Vôo para Havana, cancelado. Vôo para Havana, cancelado. Vôo para Havana, cancelado.
Enfim, Hughes desistiu e liberou o avião.
Tempos depois, Howard surgiu na vida de Gardner de novo. No meio de uma noite, trazendo uma caixa de papelão com duzentos e cinqüenta mil dólares. Desejava que ela trabalhasse num filme para ele.
— Não precisa fazer isso. É só falar com meu empresário.
— Está certo. Ava, isso é um suborno. Um suborno de duzentos e cinqüenta mil dólares.
Ele estava pior do que antes. Deu pena na atriz. Ela respondeu-lhe com um sorriso:
— Obrigada, Howard. Mas, não — depois, voltando-se. — De qualquer maneira, foi bom lhe ver de novo, mas, preciso ir embora. Cuide-se.
E foi, deixando-o no aeroporto com sua caixa cheia de dólares.

O Exílio

De volta ativa, a diva grava no Paquistão: A Encruzilhada dos Destinos — lançando no ano seguinte, 1956.
Nesta película, existe uma cena de estupro que foi gravada de uma vez só. A entrega da atriz e de Stewart Granger foi tamanha, que ela entrou em pânico. Realmente acreditou que seria abusada — e ninguém a socorreria. De modo que, quando pegou o trilho para bater no personagem, encheu de cacetes o pobre Stewart realmente.
Saiu aos gritos e choros do local. Trêmula, arranhada, o cabelo desgrenhado, não conseguia mais se controlar: “Foi uma cena, apenas uma cena, acalme-se Gardner. Acalme-se”.
Tempos depois, conseguiu olhar no rosto de Granger e abraçá-lo. Mas, durante muitos anos, acordou no meio da noite assustada, pois, sonhava com a cena.
Porém, os chefões da MGM mexeram no filme — aquilo não venderia. Cortaram cenas, incluíram narrativas desnecessárias — e repetidas. Por fim, o trabalho passou batido pelo público e crítica.
Em dezembro de 1955, ela abandona definitivamente os Estados Unidos. Os motivos: era mais barato para a MGM filmar no exterior, e ela vivia mais tempo na Europa do que no seu país de origem. Hollywood perdera todo o glamour, não era como outrora. E Howard Hughes — que apesar de tudo, era um grande amigo —, dava início aos piores anos de sua vida. Não adiantava, nem ela conseguia convencê-lo a deixar aquele apartamento, contar passos, urinar em garrafas e colocá-las uma ao lado da outra numa reta mais do que perfeita.
Vivendo na Espanha, sofre um acidente automobilístico. Ben Coler — empresário de Lana Turner — a socorre. Nada grave, comparado pelo que estava por vir.
Os habitantes locais levaram-na para ver como era escolhido o touro que ia para a arena, dando-lhe tanto pra ela, quanto para Bappie e Reenie — uma bebida docinha e extremamente alcoólica. De repente, um deles, vendo que a irmã e a empregada não estavam, convenceu a atriz a subir em um cavalo e ir enfrentar um touro. Bêbada assim fez. Mal entrou na arena. Um repórter que estava ali escondido saltou flashes na atriz. O touro avançou sobre o cavalo. Ela caiu. Socorreram-na rapidamente. Mas, o tombo fez um estrago no seu rosto criando um calombo enorme.
Realmente, a coisa era feia. Mas, a impressa soltou as célebres manchetes do tipo: “Gardner Desfigurada”, “O Triste Fim de Ava Gardner”, “O Animal Mais Belo Do Mundo Se Foi”.
Os telefonemas eram uma constante. Ava procurou um cirurgião plástico que tratava somente de aviadores queimados. Ele apenas disse que era para ter paciência, aquilo desapareceria. Se mexesse, então sim, o rosto dela ficaria desfigurado realmente.
Frank Sinatra soube das notícias, viajou até a Espanha. Continuavam amigos. Ele a obrigou a ouvir uma segunda opinião. Gardner ouviu a opinião deste que — por um milhão de dólares —, estava disposto a aplicar-lhe uma injeção que era nova no mercado e estava sendo testada. Ela sorriu, preferiu ouvir o primeiro médico — que sequer lhe cobrou a consulta —, e deu tudo certo. Essa injeção provou ser maléfica com o passar dos anos, e veio a ser banida da Europa.
Grava então Dois Amores e Uma Cabana para a MGM ao lado do ator italiano Walter Chiari — ex-namorado da atual esposa de Luis Miguel. Torna-se amiga do poeta Robert Graves — um senhor de sessenta e cinco anos — que lhe presenteia com o poema: Not To Sleep. A primeira frase marca a atriz: “Insone noite após noite por pura alegria/Não percebe as badaladas, sequer é capaz de contar carneirinhos/Recebendo o raiar do dia como um presente”. Pura Gardner.
Em 1957 é a vez de O Sol Também Se Levanta — baseado no romance de estréia de Hemingway. Na verdade, a película é uma deturpação do trabalho do escritor americano. Chega da dar nos nervos! Ernest não detinha mais os direitos do livro — havia dado a primeira esposa como parte do valor pelo divórcio — e ela vendeu o mesmo. Todavia, ele tentou em vão, arrumar um pouco o roteiro — a pedido de Ava, que conhecia o livro. Infelizmente, de nada adiantou.
Grava depois The Naked Maja (A Maja Desnuda), encerrando de vez seu contrato com os estúdios da MGM. Enfim ela poderia escolher os filmes que quisesse fazer ou quem sabe, até tirar umas merecidas férias. Stepehen Birmingham — grande amigo seu, comentou na biografia da atriz: “Ela se sentia ferida pela MGM, odiava Louis B.Mayer, aquela mania que ele tinha de querer as atrizes sentadas em seu colo, estava sempre amarga. Não era dura o suficiente para agüentar aquelas coisas, pois o cinema é um negócio podre”.
Férias que não ocorreram — pelo menos, tão cedo. Durante as gravações de The Naked, Stanley Kramer — famoso produtor e diretor que voltava seus trabalhos para assuntos mundiais —, a procura no intuito de convida-la para atuar no seu novo filme como a heroína. O filme: A Hora Final.
Gardner ler o roteiro e o livro que deu origem ao mesmo. Fica fascinada, no mais, o seu cameraman preferido o italiano Giuseppe Rotunno trabalharia no filme, e ninguém menos que Fred Astaire — fazendo seu primeiro papel dramático. Ava confessou que após ler o roteiro chorou de emoção — o que não ocorreu com o livro. O roteiro de Kramer era melhor, segundo ela.
Em janeiro de 1959, iniciam-se as gravações em Melbourne na Austrália, o que causou frisson, visto nunca antes nenhum filme ter sido rodado por lá. A Hora Final é detentor ainda de um recorde: o do beijo mais longo da história do cinema, protagonizado por Greg Peck e a diva.
Durante as gravações, a atriz percebe que o namorado italiano Walter Chiari está mais interessado em aparecer ao lado dela do que ser o homem da vida dela. Cansada de sofrer, diz tchauzinho para ele.
Mas, ela não fica tristonha por tanto tempo. Um telefonema muda tudo: Frank estava vindo para Melbourne com a desculpa de que faria alguns shows por ali, mas depois confessou que estava morrendo de saudades. No fundo, eles sempre se amaram. E era difícil passar um dia sem que eles não se comunicassem seja por cartas ou telefone. Reenie — sua fiel empregada e amiga — confidenciou uma vez: “Ele ficava sempre ligando para ela, mesmo quando estava a ponto de casar com Barbara. Ligava várias vezes e pedia para que voltassem. Ava o amava, mas não gostava de algumas pessoas que ele tinha que ter a sua volta. Os dois nunca acertaram seus ponteiros. Isso foi tudo. Ponteiros”.
Obviamente, o que se esperava era uma nova briga, que não houve.
“Tínhamos apenas dois dias à nossa disposição. De modo que, não tivemos tempo para brigar”, refletiu a atriz, tempos depois em suas memórias.
O filme estreou em 17 de dezembro de 1959. Não foi bem compreendido. Mas, tecnicamente revolucionou o cinema, com cenas de 360º graus. O Newsweek fez um dos famosos comentários típicos da imprensa sobre a atriz: “Gardner nunca este tão feia e tão bem”. Para o amigo Grego Peck este foi sempre o grande drama da vida da diva: “Diretores, produtores, críticos e o público em geral, acabavam observando apenas a sua beleza, e por fim, esqueciam o quão talentosa ela era”.
Seguem outros filmes: Tentação (1960), 55 Dias Em Pequim (1963), Sete Dias de Maio (1964). O resultado destes desanimou a atriz, que decidiu não mais prosseguir sua carreira.
Vivendo na Espanha, dançando flamenco, especializando na cultura local, suas “férias” foram interrompidas por um telefonema surpreendente: John Huston — o mesmo que tentara violentá-la anos antes — lhe telefonou falando que tinha comprado os direitos da peça: A Noite do Iguana, e queria vê-la no filme. O filme ainda teria ninguém menos que Elizabeth Taylor — do qual, Gardner era admiradora e amiga — e outras grandes estrelas. Levou quatro dias para que ela fosse convencida. Por fim, aceitou. No filme, podemos ver a atriz um pouco mais envelhecida — mas as rugas em seu rosto foram fabricadas pelo maquiador, e o cabelo teve grisalhos acrescidos.
A Noite do Iguana é um show de talentos, direção e filmagem. Na minha opinião, é o momento máximo da atriz pós The Killers. Também foi esta película de que mais gostou de atuar. Gerou críticas ótimas para Gardner do tipo: “Ava rouba a cena”, “Gardner interpreta o maior papel de sua vida”, além de reatar os laços dela com Huston — ficaram amigos até o fim da vida do diretor, que morreu em conseqüência dos males ocasionados pelo consumo do cigarro.
Dino de Laurentiis — um produtor italiano —, queria a cantora de ópera Maria Callas como Sarah no seu próximo filme: A Bíblia. Todavia, John Huston bateu o pé: “Maria o quê? Existe apenas uma atriz no mundo capaz de fazer este papel. Uma apenas”. Procura a amiga com o roteiro na mão.
— John querido, não vou conseguir dizer estes textos. Não é meu estilo. São formais demais, teatrais demais.
Ela nunca acreditava quando diziam que era uma grande atriz. Mas, Huston sabia que sim. E aquele papel, provaria isto ao mundo.
O filme — facílimo de ser encontrado —, mostra uma Gardner envelhecida, mas mostrando que uma diva é uma diva apesar dos anos. As sentenças bíblicas são de dar um nó na língua. E no fim, ela deu um espetáculo.
Durante as filmagens foi apresentada a George C. Scott — o ator que faria Abraão —, um grande ator, um grande beberrão, que tinha como passatempo bater em mulheres. Ela não sabia disso, e acabou se apaixonando pelo mesmo. Resultado: o diretor contratou três seguranças para proteger sua estrela, quando viu o braço da atriz em uma tipóia por causa do calhorda.
Os anos passaram. Numa noite qualquer, George surge em seu apartamento bêbado, exigindo que ela se case com ele. Antes de sumir por completo da sua vida — naquela noite —, deixou-a com o maxilar e a retina esquerda deslocada, a clavícula quebrada, e um trauma até o fim dos seus dias. Não denunciou o mesmo porque “naquele tempo não se denunciava, sequer se falava em homens que batiam em mulheres. Era muito vergonhoso”.

Uma Cena Que Só Um Homem Viu

Roddy McDowall — que conhecera a atriz quando tinha treze anos de idade e ainda dava autógrafos como “Mrs. Mickey Rooney” — convidou-a para participar do filme The Ballad Of Tam Lim (1972) — do qual seria o diretor —, interpretando Michaela — uma deusa que perambula pelo mundo há anos. Mas ela não é eterna, precisa do sacrifício de muitos jovens para continuar por aqui.
McDowall confessou depois que Ava estava muito sensível na época das gravações — fazia anos que ela não filmava — no mais, atuaria ao lado de dezenas de jovens — moças e moços lindos, saudáveis — e ela já não estava mais no apogeu da sua beleza. Anos e anos ouvindo na MGM que ela não precisava falar nada, apenas ficar na posição certa, pois, não tinha talento, tinha algo mais beleza, a inibiram mesmo.
Roddy precisou fazer um teste de luz com ela. Gardner pediu-lhe que não. Porém, não havia meio de evitar. Enquanto as luzes foram acendendo, o diretor extasiado diante da beleza dela, confessou:
— Deus todo-poderoso, você é realmente magnífica!
— Não querido, não, não, não.
— É claro que é. Você é uma coisa linda.
— Não, eu era.
— Pare com isso. Que história é essa? Você ainda é lin…
— Não, querido. Quando era jovem, fui linda. No tempo em que eu podia trabalhar o dia inteiro, passar a noite em claro e ir trabalhar no dia seguinte com bom aspecto. E aí passar outra noite em claro e ir trabalhar no dia seguinte. Naquele tempo, eu era linda.

Epílogo

Depois de doze anos na Espanha, o governo a acusa de estar devendo um milhão de dólares em impostos. Cansada de tudo, parte para Londres.
Grava outras películas, entre ela Terremoto (1974) em Hollywood.
Vivendo feliz em Londres, quase não sai de casa, exceto para visitar seus amigos. Reenie — sua fiel empregada e amiga — vive agora em Sacramento, enquanto a irmã Bappie permanece em Londres.
Sua emprega atual chama-se Carmem Vargas e possui um lindo cachorro de nome Morgan — homenagem ao amigo e futuro curador do Ava Gardner Living Trust — Jess S. Morgan.
Um acidente vascular cerebral em 1989, deixa a diva parcialmente paralisada. Tenta levar a vida com alegria. Reenie — sua fiel amiga — vem visitá-la, convencendo a mesma a dar um passeio, pois, quase não saia de casa depois do infortúnio. Reenie também tinha problemas para se locomover. Em resumo, exaustas sentaram no parque — não tinham forças para se sentar no banquinho que estava apenas de oito metros de distância — e, não conseguiam mais levantar. Levou quase uma hora que Reenie conseguisse se levantar e ajudar a diva. Ela riram tanto que urinaram-se. Foi um dos seus últimos momentos antes de vinte e cinco de janeiro, quando no seu apartamento em Ennismore Gardens, Londes, após lutar contra uma pneumonia, fechou os olhos pela última vez.
Deixa noventa fitas cassetes no qual gravou suas memórias, dando origem, um ano depois ao livro Ava Gardner: Minha História.

 

Por Ricardo Steill

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