Dulha Dulhan (1964)

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Há algum tempo ando vendo e revendo alguns filmes clássicos do cinema indiano. Você também poderia tentar assistir embora à primeira vista possa ser que estranhe devido às diferenças de cultura. Há coisas que realmente nos deixam extremamente perplexos, sobretudo o extremo machismo de algumas películas. Mas como uma das culturas em que a religião atua de maneira incisiva sobre a vida das pessoas, é algo esperado que ela também invada todas as artes e justifique posicionamentos. Os filmes indianos, porém, são uma aventura à parte e dificilmente você conseguirá se desapegar dele, pois apesar de tudo, prendem a atenção por serem um exemplo grato de entretenimento.

Dentre os astros que fiz questão de acompanhar a carreira está Raj Kapoor. Assisti a boa parte de seus filmes disponíveis, e senti uma enorme dificuldade de encontrar legendas para tantos outros, que permanecem à espera de um possível milagre. O auge de sua carreira foi na década de 50, e por volta de 1960 o ator tinha uma grande reputação e seus filmes vendiam como água. O homem não tinha o apelido de “showman indiano” por acaso. Ele acompanhava passo a passo de suas produções, inclusive aquelas que não dirigia. Foi o caso de Dulha Dulhan, um dos meus preferidos dele.

 
Dulha Dulhan traz uma pureza e bobisse tão boas que nos faz esquecer um pouco das agruras da vida. Aos 38 anos, Raj já não era tão galã quanto nos seus primeiros filmes, Awara (1951) ou Aah (1953), fruto de hábitos erráticos aliado à genética. E seu personagem parece bem mais velho que sua parceira de cena, a jovem Sadhana Shivdasani, que na época tinha 23 aninhos.
Dirigido por Ravindra Dave, o filme traz Kapoor como Raj Kumar, um homem que divide um quarto com seu amigo Bansi (Agha). Bansi, que  trabalha para um estúdio de cinema, é daqueles personagens dos filmes indianos que serve para balancear a história, trazendo um pouco mais de humor às cenas. Um dia, Kumar recebe uma carta de um amigo informando que Rekha, sua filha, irá visitar Bombaim. Ele parte em busca da moça, que estará na estação de trem.
Chegando lá ele se depara com uma moça bastante desorientada e pensa se tratar de Rekha. Como ela parece bem confusa, ele a leva para um hotel, deixando-a lá. Assustada com a cidade, e sentindo-se sozinha, Rekha vai atrás de Kumar, enfiando-se no apartamento dele. Kumar atrapalha-se e se preocupa com a situação, afinal, dividir o apartamento com dois homens solteiros acaba com a reputação de qualquer moça – indiana.
Mesmo assim Rekha fica, e acaba se tornando uma grande companheira para os dois homens, cuidando deles e do local. Os vizinhos (ah, os vizinhos indianos…) começam a se incomodar com a situação. Se sentindo humilhada, a garota corre para tentar o suicídio, sendo salva por Kumar, que começa a se apaixonar por ela.
Kumar propõe casamento e finalmente parece que tudo caminha para um final feliz. Como eu já tinha dito acima, Kapoor sempre teve muito cuidado com seus filmes, inclusive tratando das questões menores, como maquiagem e vestimenta. Tenho algumas fotos dele maquiando suas próprias atrizes. Por isso não estranhei, e até achei meigo que nas cenas que antecedem o casamento ele apareça maquiando a personagem de Sadhana, numa cena muito sensível.

Os dois se casam e lá estão os vizinhos novamente, batendo à porta dos pombinhos que estão trancados há três dias. Achei ousado um deles perguntar se eles ainda estavam vivos depois de tudo.

 É nesse momento que vem as tão esperadas reviravoltas dos filmes indianos. Durante um passeio, ela sofre um acidente e é levada por um homem (KN Singh) que a reconhece como sua filha. Daí vemos a saber que a garota se chama Chanda tinha fugido de casa após rejeitar a proposta de casamento forçado. Batendo a cabeça na parede, Chanda perdeu a memória e ficou perdida por três meses. Aaah, as velhas perdas de memória dos filmes. Recuperada, Chanda é levada para sua casa e seu pai já planeja seu casamento com outro homem.

Desesperado com o sumiço da esposa, Kumar busca sem rumo por ela. É então que surge Bansi com a boa notícia de que ela na verdade é uma rica menina de Jaipur. Disposto a recuperar sua amada, Kumar parte para a cidade. Ao vê-lo, Chanda não o reconhece, e prefere dar mais atenção ao casamento que irá ser realizado dali a poucos dias. Mais uma reviravolta. Em meio às cerimônias ela passa mal, e o médico afirma para a família que ela está grávida. E agora?


Se você assistir ao filme e fizer essas perguntinhas: Como Chanda foi parar na estação de trem de Bombain? Porque Kumar não vai até uma delegacia ao perceber que Rekha está confusa e não sabe quem é? Porque colocar em risco a reputação de uma garota que não sabe nem seu próprio nome? Com certeza precisa ver mais alguns filmes indianos. Neles, a fantasia na maior parte das vezes ultrapassa os limites da razão até hoje. Mas nada que nos impeça de viajar nas histórias por vezes sem pé nem cabeça.
Bem, Dulha Dulhan pode até trazer alguns pontos negativos (a música, por exemplo), mas nada que interfira no desenvolvimento final. É um filme muito agradável de se ver.  Lançado quase ao mesmo tempo que Sangam (primeiro filme colorido de Raj Kapoor), conseguiu bastante espaço na mídia apesar do orçamento reduzido.
Apesar de  Raj Kapoor parecer imensamente mais velho que Sadhana, os dois desenvolvem uma boa química. E embora ele foi insistente em manter uma postura chaplinesca nos filmes, consegue se desvencilhar do personagem que tanto o inspirou aqui.

É uma pena que não tenhamos uma cópia boa do filme, que nunca chegou a ser remasterizado. O neto de Raj, Ranbir Kapoor demonstrou interesse em fazer uma refilmagem.   Há um tempo atrás fiz uma tradução da legenda do inglês para português, e se você tiver algum interesse em conferir o filme vou deixar o link aqui, já que provavelmente ele nunca será lançado em terras brasileiras:

Baixar filme:
http://migre.me/kO1km

Baixar legenda:
http://migre.me/kO1nQ

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