Mãe Índia (Mother India, 1957): Um Clássico do Cinema Indiano
Descubra “Mãe Índia”, o épico de 1957 que retrata a força de uma mulher em meio às adversidades da sociedade rural indiana. Um marco do cinema mundial!

Esta foi a produção mais cara na Índia até então , tornando-se não só a maior bilheteria do ano , mas uma das maiores de todos os tempos. Mãe Índia era tecnicamente impecável, mas a falta de preparo para itens básicos como legendas em inglês fez com que perdesse o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro naquele ano. Conheça um pouco mais sobre um dos mais belos filmes de todos os tempos .
Filmes indianos amam cenas de casamentos. Em uma das primeiras sequências, temos Radha (Nargis) chegando para seu casamento com Shamu (Raaj Kumar). Os tons vermelhos, as cores e a música indicam a esperança de uma vida melhor. Não sabemos quem é aquela mulher, de onde veio. É como se sua vida começasse naquele momento, quando ela amarra os laços com Shamu. A mulher não espera muita coisa; foi criada para servir, e após os festejos, começa a dura vida de uma pessoa reprimida pela sociedade e família. Radha tem filhos, trabalha ao lado do fraco marido, sua cabeça sempre abaixo da dele, para não ferir seu fraco ego.
Quando Shamu sofre um acidente e perde os braços, entra em depressão. Não aguenta ser apontado como um deficiente e, covardemente, abandona a família. Não ouviremos mais falar dele. A vida segue. O pesadelo tem início, mas ela irá criar os filhos bravamente. Tendo que sobreviver, Radha toma às rédeas de sua vida , transformando-se em uma líder.
A história não era nova. Mãe Índia (Mother India , 1956) era um remake de Aurat , lançado em 1940. O filme dirigido por Mehboob Khan mostra a força da mulher indiana , seus valores morais e sacrifícios, mas também pode ser visto como uma metáfora sobre a nação, tão repleta de deuses quanto injustiças. É bonito esteticamente. Sempre achei que filmes indianos combinam bem com cores vivas. Este technicolor mostra exatamente isso. Em sua paleta, cores que fazem jus à riqueza visual desta pátria, tendo como soberana a vermelha. Mas à medida que avançamos na história de Radha, os tons passam a ser mais amarronzados, indicando amor pela terra e luta.
Uma das cenas que mais chamam a atenção é aquela em que Radha ara a terra. Na ausência de animais que lhe auxiliem na lida, a personagem coloca sobre os ombros a carga de responsabilidade. Os filhos a ajudam como podem. Sua pose lembra o calvário de Jesus Cristo.
Como você percebeu neste clipe, a música se torna um importante elemento de cena. É assim em quase todos os filmes desta região. É mesmo uma das características fundamentais de um bom filme indiano, movendo-se de maneira quase independente da película. Os cantores, ao contrário de Hollywood, são bastante conhecidos, e acabam se tornando tão astros quanto os atores principais. Aqui foram usados alguns dos maiores de sua época: Lata Mangeshkar e Manna Dey. Lata se tornou a dubladora oficial de centenas de atrizes. Sim, centenas. Com uma carreira que durou mais de seis décadas (entre 1940 e 1990), Lata se tornou icônica e amada. Ela era a dubladora oficial de Nargis, desde o início da carreira desta.
Aos 26 anos à época, Nargis vivia o auge da carreira, ao interpretar magnificamente Radha nas três fases da história. Sua popularidade se fez, porém, alguns anos antes, quando atuou ao lado de Raj Kapoor em vários filmes. A dupla se tornou um grande sucesso. Porém, com o término do romance, seus olhos se viraram para outros filmes e amores. Mãe Índia se tornou o auge de sua carreira, mas inesperadamente foi seu último grande filme.
Isto porque a atriz conheceu durante as filmagens o ator Sunil Dutt, que interpreta seu filho na idade adulta. Em uma cena de incêndio, a atriz foi envolvida em fogo e Sunil a salvou. O ato heroico foi o suficiente para que ela se apaixonasse por ele e iniciassem um romance. Eles se tornaram par constante, e a opinião pública parecia chocada ao ver Nargis, que já tivera um romance com um homem casado (Raj), se envolver com o ator que fazia seu filho no filme. Mas nada demais, Sunil era apenas um ano mais novo que ela. Contrariando todas as previsões, eles se casaram. O ator começava uma carreira de sucesso, e como todo bom indiano, não soube lidar com a carreira da esposa. Convidada a ir aos Estados Unidos representar o filme, Nargis não pôde ir: incomodado com o sucesso da esposa, o ator Sunil Dutt a proibiu de ir à América.
A atriz passaria a trabalhar nos bastidores da carreira do marido, auxiliando-o durante toda a vida. Sunil se tornaria um grande astro, mas não conseguiria apagar a história de Nargis, que mesmo afastada das telas seguiu sendo um dos rostos mais aclamados do cinema daquela região.