O Mundo de Apu (1959)

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Em uma das cenas mais significativas do cinema mundial, o personagem Apu, da trilogia Apu, joga fora os manuscritos de seu único livro escrito, em Apur Sansar (1959). Depois de tantas lutas e abandonos, ele retorna à natureza cansado de lutar. Se no primeiro filme da trilogia, Apu era uma criança que com os olhos abertos encarava a vida, fazendo da natureza parte fundamental de seu corpo, e no segundo um adolescente que aprendia a imprimir no papel seus sonhos, fugindo da natureza infantil e encarcerando-se nos livros, no terceiro temos um homem desiludido e sem perspectivas, curvando os ombros após os devaneios de uma vida que lhe foi madrasta. E é aqui que vemos o nosso herói, neste momento do vídeo, jogando fora todos os manuscritos, apagando seus rastros do passado, tentando esquecer-se de si mesmo enquanto as folhas espalham-se pela floresta. Ele respira novamente a natureza, e ela engole as páginas de sua vida.

Apu foi vivido por três atores diferentes em suas mais variadas idades, e nesse terceiro filme foi interpretado magistralmente por Soumitra Chatterjee, ator que fez aqui sua estréia no cinema. Ele se tornaria o principal de Satyajit Ray em tantos outros filmes, com Chatterjee traduzindo para as telas os tantos personagens trazidos por Ray ao longo de cinco décadas. Soumitra fez testes para interpretar o Apu no segundo filme, mas foi rejeitado devido à idade, e lembrado no último da trilogia. Uma interpretação atemporal, que mostra a evolução de um personagem que acompanhamos desde a primeira infância. Soumitra não sabia, mas ao interpretar Apu adulto,  imprimiu seu nome na história do cinema mundial.

Avesso à linguagem falada e escrita, Ray preferia passar sua mensagem através da imagem. O diretor dizia que aprendeu a fazer filmes vendo-os e realizando-os à sua maneira. E se ele não compreendia a  edição da linguagem escrita, a ponto de deixar inteiros fragmentos do livro que originou a trilogia Apu, soube, como ninguém, transformar papel em imagem. E assim fotografou cada passagem desse magnífico filme. Por isso foi chamado, tão cedo, de mestre.

Confira a cena:

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