Obras Primas lança coletânea de filmes de Jean Cocteau

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Jean Cocteau é considerado um dos nomes mais fortes do surrealismo. Trabalhando em  diversas formas de expressão, soube trazer a sensibilidade e deixar uma marca que o coloca entre os nomes mais importantes da arte mundial. Sua obra foi apresentada com primor tanto nos palcos, quanto refletidas nas telas de cinema ou em romances. Além disso, ele era pintor, designer e, acima de tudo, um grande poeta. Um poeta que transpassava seu interior para fora de uma maneira única. E como ele mesmo colocava, sentia um enorme prazer em fazer filmes, já que eles mostravam uma ideia que por vezes não ficava claro quando escrita.

Creditado em onze filmes, estes trazem elementos que se identificam diretamente com o movimento surrealista, surgido em Paris e que abrangia vários tipos de arte. O surrealismo chegou ao cinema na década de 20, e privilegiava as imagens oníricas e realidades que à primeira vista assombram por não serem objetivas. E por seu caráter difícil, o movimento nunca foi popular entre as massas. Se você tem dificuldades em lidar com um tipo de cinema que foge do real e foca no subconsciente, talvez não goste do que irá ver à primeira vista. Mas nada como uma boa revisão e um olhar despretensioso para sentir a beleza de algumas de suas obras mais lembradas.

Vendo o documentário que acompanha o digipak lançado pela Obras Primas do Cinema, temos o excelente documentário Jean Cocteau: Autoportrait d’un inconnu (1983), percebo que ele era um homem feliz por não invejar qualquer colega, e por felicitar todo e qualquer um que brilhasse. E olha que ele viveu rodeado de vários, que o torna um dos homens mais privilegiados do mundo: Os pintores Pablo Picasso, Miró, Modigliani, Salvador Dali, a estilista Coco Chanel, as atrizes e atores Marlene Dietrich, Yul Brynner, Jean Marais e escritores como Gertrude Stein, Jean Genet e Raymond Radiguet eram apenas alguns que fizeram parte de seu grande círculo de amizades.

Você pode admirar um pouco sobre a obra desse grande poeta, através dessa coletânea lançada recentemente, e que traz quatro filmes bem importantes em sua carreira: Sangue de Um Poeta (Le sang d’un poète, 1932), A Bela e a Fera (La belle et la bête, 1946), Orfeu (Orphée, 1950) e O Testamento de Orfeu (Le testament d’Orphée, 1960). Vou falar brevemente sobre cada um destes. Embaixo colocarei o link para que você possa adquirir os filmes:

Sangue de Um Poeta (Le sang d’un poète, 1932)

Totalmente experimental, Sangue de um Poeta é narrado em quatro atos. Repleto de simbolismos, mostra nesses atos um poeta que atravessa um espelho e entra em outros mundos, que observa através de portas e em cada uma vê o que seus olhos enxergam. É o mundo como um poeta enxerga, suas variações,  experimentos e choques culturais. É desnecessário narrar item por item do filme, já que este traz uma construção que ultrapassa uma sequência lógica.

Algumas alegorias usadas em Sangue de Poeta foram também utilizadas em outros filmes de Cocteau, como o andar do poeta entre as portas. Ele assume o caráter experimental que utilizou em diversas cenas, e que o tornaram imortal. E também os improvisos, levando-se em conta a escassez de recursos na época. Este também é considerado o primeiro da trilogia Orpheu, que traz ainda Orfeu (1950) e O Testamento de Orfeu (1960), sobre os quais falarei um pouco mais abaixo. É interessante também citar que os figurinos foram feitos por Coco Chanel.

A Bela e a Fera (La belle et la bête, 1946)

Baseado no conto de Jeanne-Marie Leprince de Beaumont, traz a história já conhecida pelo grande público através de obras mais recentes do conto de fadas A bela e a fera. Aqui, Josette Day é a bondosa Bela, uma jovem criada com o pai e as irmãs em uma fazenda. Empobrecidos, ela leva a casa e as obrigações nas costas, já que suas irmãs e irmão se negam a assumir suas obrigações.

Após retornar de uma viagem, seu pai para em um grande castelo pertencente à fera (Jean Marais). E lá rouba uma rosa para entregar à filha. Vendo seu pai ser ameaçado pela fera, Bela toma seu lugar e vai morar com o furioso monstro. Só que aos poucos ela começa a perceber que há um grande coração por baixo daquela imagem sombria.

Um filme de fantasia, segue uma narrativa linear e traz elementos que o cineasta aplica em outros filmes como o deslizar de bela sobre um carrinho e que dava a impressão que ela flutuava. Ele irá repetir o mesmo efeito em Orfeu.

Os elementos de cena, como candelabros segurados por grandes braços, ou paredes que seguem Bela por onde anda, a passagem de um mundo para outro e as alegorias dos espelhos, mantém o caráter singular da obra de Cocteau.

Orfeu (Orphée, 1950)

Nos primeiros minutos, o narrador (Jean Cocteau) nos avisa que esta é uma leitura diferenciada do mito de Orfeu,  o homem apaixonado pela doce Eurídice que é capaz de ir em busca dela no reino da morte. Aqui, porém, o poeta é sofre por não escrever mais. Em uma de suas andanças, presencia a morte de um jovem poeta, e é convidado por uma bela princesa (María Casares) a acompanhá-lo.

No caminho, descobre que ela é ninguém menos do que a morte. De volta ao seu mundo, Orfeu não consegue esquecê-la, e neglicencia cada vez mais sua esposa Eurídice. Esta passa cada vez mais tempo com o inconformado Heurtebise (François Périer), o chofer da morte. Enciumada com Eurídice, a morte resolve levá-la. Isso fará com que Orfeu, ajudado por Heurtebise (François Périer), vá ao outro mundo, não em busca de sua esposa, mas da própria morte.

Os espelhos nos trazem para perto da morte. Em um dos diálogos, nos é revelado que se olharmos diretamente para qualquer um, veremos ela chegar cada vez mais perto. É carregando as tintas nas simbologias dos sacrifícios em nome do amor, e alegorias como o mito da imortalidade do poeta que fazem deste um dos melhores filmes, não só de Cocteau, mas de todo o cinema francês.

Vale circular aqui o peso do quarteto principal, composto de María Casares, Jean Marais, François Périer e Maria Déa. Mesmo com interpretações contidas, podemos amar e odiar seus personagens em igual medida, o que prova que nos anos 50 a direção de Cocteau estava mais primorosa do que nunca.

Uma curiosidade: Segundo o imdb, os extras utilizados nas cenas iniciais, em um café de Paris, são de fatos boêmios reais que frequentavam o local. Após as filmagens das cenas, que duraram dois dias, eles permaneceram no lugar.

O Testamento de Orfeu (Le Testament d’Orphée, ou ne me demandez pourquoi!, 1960)

Em seu último filme, Jean Cocteau assume o papel dele mesmo. Um homem que passa por diversos mundos, encontra perguntas e respostas para várias questões, que deixa de entender outras, que é julgado, condenado e torna-se imortal como qualquer poeta.

Neste, há um retorno de vários personagens que fizeram história através de seus filmes anteriores, e vários parceiros conhecidos como Jean Marais, María Casares e amigos pessoais como Yul Brynner e Pablo Picasso. O Testamento de Orfeu é uma obra prima para ver e rever com olhos bem atentos, e sempre à espera de quem irá aparecer. De qual explicação o poeta vai atrás e quais feridas ficarão para sempre abertas. Você pode interpretar o testamento de Cocteau de diversas formas, mas não pode deixar de vê-lo, para amá-lo ou detestá-lo.

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O digipak traz ainda uma entrevista onde Jean Cocteau revela como fazia seus efeitos especiais e o papel da música em seus filmes e também pode acompanhar como foi feita a restauração de A Bela e a Fera.

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