Noites de Cabíria (1957)

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Uma personagem Cabíria apareceu pela primeira vez no filme Abismo de um Sonho (1952), também de Federico Fellini. Apesar do mesmo nome, profissão e ser interpretado pela mesma Giuletta Masina, em nada lembra a personagem que veríamos em Noites de Cabíria, filmado em 1957.
Seu nome foi emprestada do clássico Cabiria (1914), realizado por Giovanni Pastroni e considerado um dos maiores clássicos italianos. Mas não há também qualquer conexão com o clássico de 1914. Se há alguma influência nesta obra de Fellini, é do pequeno vagabundo criado por Charles Chaplin.

Realizado mais de dez anos após o término da segunda guerra, Noites de Cabíria trazia o grito de esperança de uma mulher que não desiste de realizar seus sonhos. Era a maneira de Fellini de dizer que seguisse adiante. A personagem Cabíria, apesar de todos os percalços, que não eram poucos, seguia incorruptível em sua bondade e esperança na vida.

Cabíria (Giulietta Masina) é uma prostituta que sonha em encontrar um grande amor. E com isso sofre grandes decepções. Na abertura do filme, ela encontra-se feliz com um pretendente, mas a decepção vem logo quando ela descobre que na verdade ele está interessado em seu dinheiro. Cabíria ainda ficará surpresa ao perceber que as pessoas destroem as outras por causa de dinheiro. Quem destruiria corações por tão pouco, pergunta a criança dentro dela.

A narrativa não segue um padrão sequencial e podemos acompanhar alguns acontecimentos em sua vida, que servem para nutrir nossa visão da solidão da personagem. Em determinado momento ela testemunha a discussão entre Alberto Lazzari (Amedeo Nazzari), um ator famoso e sua amante. Após a amante partir, o ator, repleto de tédio, pede à pequena prostituta que o acompanhe em sua casa.

Cabíria sente-se radiante por ser notada, e mal pode acreditar que por alguns instantes é o centro de atenção de um homem tão distinto. Não é a sua casa, com ricos mobiliários que move a alegria de Cabíria, e sim a sua atenção. A noite que começa com atenção, termina no banheiro, tendo como único companheiro um cão, também abandonado.
Sentimo-nos tentados a comparar Cabíria com o pequeno vagabundo, criado por Charles Chaplin. Também ele uniu-se a um cão, único amigo em um de seus filmes mais marcantes: Vida de Cachorro. É como se homem e bicho se unissem como vítimas de uma sociedade que os expulsa e marca como intocáveis. O encontro com o ator rico em muito nos lembra o encontro do vagabundo com o milionário em Luzes da Cidade.

Seu maior orgulho é a casa que possui: quatro paredes vazias no meio do nada que ela chama de casa. É pouco, mas é dela, é sua garantia de que não terminará seus dias nas cavernas, como tantas outras colegas de profissão terminaram. Numa Itália devastada pela guerra que terminara alguns anos antes, ter um teto era alentador.

Avistar uma procissão é uma forma de encontro com Deus. E lá mais uma vez, ela pede que saia daquela vida tão dura. Ao invés de zombar do movimento, como muitos de seus amigos de rua fazem, ela tem mais uma vez esperança de uma vida melhor. O que é desalentador, já que o que se segue é justamente o contrário. É como se o próprio Deus virasse as costas para uma mulher já tão sofrida.

O show de mágica é um dos momentos mais tocantes do filme, quando Cabíria, assustada, sobe ao palco e hipnotizada revela o seu maior sonho: encontrar um grande amor e se casar. E é também nesse show, que ela encontra mais uma vez uma esperança ao conhecer Oscar (François Périer), um intrigante homem que aparentemente tem as melhores intenções com a pobre moça.
O final também é extremamente chapliniano. Cabíria pede a Oscar que a mate, não há esperanças, não há motivação para continuar na estrada. Todas as forças parecem ter sido minadas e ela pede que ele a jogue, a mate, expulse essa dor que ela mais uma vez sente. Com medo ele foge, e é impossível saber o que sentiria alguém a ver o desespero de uma mulher ao ver todos os seus sonhos no chão. Cabíria se ergue, tendo a vista cansada e segue na estrada. Encontrando com um grupo de jovens cantores, ela esboça um sorriso e nos encara através das lentes do cinema.

Sua lágrima negra aliada com os olhos tristes é um misto de esperança e dor. Ela parece nos dizer que continuará seguindo adiante. Não há amor, nem casa, talvez seu destino seja morar em uma caverna, como ela tanto temia, mas ela sobreviveu, continuará sonhando. Mais uma vez a estrada usada por Chaplin em seus filmes aparece. Ela segue a estrada, sorrindo e chorando, mas sempre em frente.

A trilha sonora que ponteia todo o filme foi feita por Nino Rota, que se tornaria o principal compositor da obra do cineasta, marcando o compasso de quase toda a sua obra.

Fellini é um filhote do neorrealismo. Começou a carreira no cinema escrevendo roteiros para Roberto Rosselini. Ele é um dos roteiristas de Roma, Cidade Aberta (1945), um dos principais filmes do neorrealismo. Noites de Cabíria ainda possui as características do movimento mas já flerta com o conceito felliniano, que surgiria com toda a força em La Dolce Vita, lançado três anos após. Aqui já há a liberdade visual mais explorada em seus filmes posteriores.

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