Charles Chaplin e a evolução de um personagem

3703

Carlitos é uma das personagens mais lembradas do cinema. Tanto que poucos hoje sabem distinguir Charles Spencer Chaplin (o diretor) do pequeno e pobre vagabundo. Na maioria das vezes amada, sua figura denota simpatia e ingenuidade e nos leva ao sorriso. Muitos foram cativados por sua imagem, mesmo sem ter visto um filme seu. No momento do flash, lá está ele parado, bengala na mão, olhar curioso, sorriso no canto da boca, olhos fixos na lente. Preto e branco. Por isso também extremamente marcante.

Chaplin na Keystone

Longe de nossa época, ele botou as vestes diversas vezes e com elas foi evoluindo. E o Vagabundo que temos hoje já não é o inicialmente criado. Ele foi sendo moldado a cada película, a cada cena refeita ou descartada. Daí tornar-se errônea a ideia do único Carlitos. Como um adolescente que se forma, também o vagabundo mudou ao longo do tempo, evoluindo em sua síntese.

Da Keystone aos últimos tempos

No Carlitos da Keystone, primeira companhia onde ele veio a trabalhar, verifica-se a maldade como marca principal, talvez pela necessidade do movimento e da rapidez que a comédia pastelão pedia, ou pelas histórias improvisadas e muitas vezes sem roteiros. A técnica era pensar em algo rápido e fazer a câmera rodar. O resultado eram filmes curtos, de no máximo dois rolos e confusões com cães, chutes no traseiro, um personagem bêbado e flertando com várias mulheres, fingindo-se ser conde, roubando dos mais fracos, como em “Carlitos banca o Tirano” (Mabel at the Wheel) e trapaceando em corridas. Numa época em que não existia o politicamente correto, Chaplin (o ator) ainda cumpria ordens, e o vagabundo era um sobrevivente que não media as conseqüências dos seus atos.

Começar a dirigir seus próprios filmes lhe deu a responsabilidade e a liberdade que não tinha antes. O tempo ainda era curto no início, quando ele permanecia empregado do Estúdio, em compensação podia escolher sua história e cenários. A personagem passa a ter nuances de ternura, que foram posteriormente melhor exploradas, como a eterna carência e a rejeição sofridas: em “O vagabundo” (The tramp), considerado seu primeiro clássico, a estrada surge como elemento final da caminhada do vagabundo (que ele utilizaria desse filme para frente como o final comum). E, pela primeira vez, rimos e sentimos pena da personagem.

One A.M

A terceira fase abrange não só ele, mas objetos inanimados, que formam junto a ele mais que um objeto de cena, mas a cena em si: Em “A uma da madrugada” (One A.M.) Chaplin é um homem que chega bêbado em casa, mas o simples ato de entrar no quarto para dormir transforma-se numa verdadeira guerra: contra as jarras, os lustres, os móveis, tapetes e relógios. O relógio é também parte necessária em “Casa de Penhores” (The Pawnshop), onde ele chega a realizar uma “cirurgia” em um relógio, tirando o pulso, a pressão, escutando o “coração” com um estetoscópio e tirando-lhe os “orgãos” desnecessários. Impagável.

O Chaplin romântico, até mesmo considerado piegas pela crítica da época surge com os chamados Grandes Clássicos: O garoto (The Kid) – um drama/comédia que nos faz rir e chorar; Em busca do Ouro (The Gold Rush) – o tema da rejeição mais uma vez quando Charlie é desprezado pela Georgia; Luzes da cidade (City Lights) – o amor incomensurável por uma cega que o faz até trabalhar para pagar uma operação que a fará enxergar; e o palhaço de Luzes da Ribalta (Limelight) – uma grande reflexão sobre toda a sua carreira cinematográfica.

O fato é que entre o pequeno vagabundo dos primeiros filmes, tão arisco e arredio e em sua última aparição, no “O grande ditador” (The great dictator) muita coisa aconteceu, sua visão política foi ampliada, evoluiu-se o cinema, evoluiu-se o pequeno vagabundo, pois que os anos passam sempre, e involução é para aqueles que negam o crescimento. E ao vermos sua caminhada, de costas para a câmera, percebemos que aquilo não é o fim de um filme, mas o início de algo que não podemos captar.

Confira também:

Os Amores de Charles Chaplin

Comente Aqui!