Olivia de Havilland, atriz de E o Vento Levou, chega aos 103 anos!

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Estava um dia desses em um grupo de cinema quando deram a notícia de que Olivia de Havilland estava movendo uma ação contra os produtores da série Feud. Ela achou que foi mostrada de maneira muito depreciativa na produção. Olivia perdeu o processo, mas o que me chamou a atenção foram os comentários de alguns jovens que chamavam a legendária atriz de “pessoa que quer aparecer a todo custo”. Sabendo da história de vida e sobre sua carreira, só posso lamentar a ignorância de tal comentário, já que uma senhora de 101 anos (à época) estava tudo menos preocupada em voltar aos holofotes.

Estamos falando de uma das últimas sobreviventes da era de ouro do cinema, vencedora de dois óscares por Só Resta uma Lágrima 1946) e Tarde Demais (1949) e que traz no currículo 60 produções até sua aposentadoria em 1988. É para vocês que admiram a obra desta querida atriz e também para aqueles que desejam conhecê-la um pouco mais, que dedico esta matéria.

Olivia de Havilland e sua irmã Joan Fontaine

Uma das maiores atrizes americanas nasceu em Tóquio em 1 de julho de 1916. Sua mãe, Lilian Fontaine, era atriz, e sua irmã mais nova, Joan Fontaine, também seguiu seus passos. O relacionamento entre as duas irmãs sempre foi conturbado, como tratamos nesta matéria, e as duas passaram a maior parte da vida sem se falar. A imprensa, ávida pela história das irmãs vencedoras do Oscar dificilmente as deixaria esquecer das visgas que possuíam.

Olivia mudou-se com a família ainda criança para a Califórnia. Quando participava de uma peça na faculdade, foi vista por Max Reinhardt. Impressionado com a jovem ele a chamou para participar de “Sonho de uma Noite de Verão” (1935). Sua atuação lhe rendeu um contrato de sete anos com a Warner.

Em 1934 Olivia conheceu o seu par mais constante da primeira fase de sua carreira. Com O Capitão Blood (1935) ela iniciou uma parceria sólida com Errol Flynn. Foram oito filmes entre 1935 e 1941 e a química entre os dois era visível em tela. Depois de negar durante anos sobre um possível romance entre os dois, ela falou finalmente sobre o relacionamento que tinha com o ator. Olivia reconheceu que se sentia atraída por ele, e que chegou a se apaixonar pelo ator. Porém, o casamento dele com a atriz Lili Damita impediu que o romance fosse surgisse.

A dupla se reencontrou mais tarde na França, dois anos antes da morte dele em 1959. A princípio ela não o reconheceu, pois anos de bebida o fizeram envelhecer precocemente. Mas aquele olhar permanecia o mesmo da época em que atuaram juntos. Flynn morreu de um ataque cardíaco aos 50 anos, se tornando inesquecível nos filmes de capa e espada.

Olivia de Havilland

Sua interpretação da doce Melanie em E o Vento Levou marcaria sua carreira de forma significativa e por ela seria indicada ao seu primeiro Oscar de atriz coadjuvante. Não ganhou, mas a marca impressa de sua personagem a alçaria ao patamar de uma das atrizes mais completas de sua época.

Olivia tinha lido o romance de Margaret Mitchell, mas não se identificava com Melanie. Tampouco tinha ficado impressionada com a história. Foi somente após ler o roteiro adaptado que ela se apaixonou, pois nele Melanie parecia uma personagem mais real, totalmente diferente. A explicação está no fato de no livro essa personagem ser apresentada ao leitor sob a visão pessoal de Scarlett, personagem principal, e que criava uma imagem negativa dela.

Leslie Howard, Vivien Leigh e Olivia de Havilland em E o Vento Levou (1939)

O convite para o papel veio de George Cukor, que a tinha visto nas aventuras de Robin Hood. Após realizar os testes, veio a parte mais difícil que era convencer Jack Warner a emprestá-la para outro estúdio. As filmagens transcorreram sem grandes problemas e ela se deu bem com grande parte do elenco, sobretudo Clark Gable, em quem chegou a pregar algumas peças.

Na noite da premiação do Oscar ela estava ansiosa e ter perdido o prêmio a deixou imensamente frustrada. No entanto, a perda fez com que repensasse seu modo de ver as coisas e seu desejo era ser mais do que uma coadjuvante. Mais tarde ela ganharia o Oscar, mas como atriz principal.

Em 1941 Olivia foi indicada mais uma vez, desta vez por A Porta de Ouro. Curiosamente, ela perdeu o prêmio para sua irmã, Joan Fontaine, que naquele ano se destacou com sua personagem Lina McLaidlaw em Suspeita, filme de Alfred Hitchcock. Brigadas nessa época, Joan negou-se a cumprimentar a irmã. Tal fato foi citado na série Feud.

Assim como tantos profissionais daquela época, Olivia começou a se incomodar com as ofertas oferecidas a ela. Bette Davis chegou a ser suspensa por negar-se a fazer papéis ruins e Cary Grant  passou a trabalhar sem contrato a maior parte de sua vida. Recusando papéis, Olivia também entrou nessa briga e impondo-se, começou a receber melhores papéis. Foi com a personagem Jody, uma mulher que é obrigada a dar seu filho para a adoção em “Só Resta uma Lágrima” que ela finalmente recebeu seu primeiro Oscar.

O  segundo prêmio da Academia veio com Tarde Demais (1949). O filme que trazia no elenco Montgomery Clift, retrata a história da herdeira Catherine Sloper, uma jovem oprimida por seu pai, que não consegue se adaptar à sociedade mas que, porém, poderá se tornar uma algoz por ter sido imensamente ferida.

Ter recebido prêmios dos colegas e da crítica não a fez mudar sua linha de raciocínio, e sua visão sobre Hollywood se tornava cada vez mais amarga. A atriz estava visivelmente decepcionada com Hollywood, e a competição com sua irmã Joan Fontaine também contribuiu para sua decisão. Desejava morar em um país que emanava cultura, e a França foi a melhor opção. Em 1955 Olivia decidiu mudar-se definitivamente para Paris com seu segundo marido.

Olivia e Errol Flynn conversam nos bastidores

Em 1965 se tornou a primeira mulher a dirigir o júri do Festival de Cannes. A atriz recebeu a Legião de Honra em 2010 das mãos do presidente Nicolas Sarkozy que estava visivelmente emocionado em estar na presença de “Melanie”. Em Paris ela fez muitos amigos e manteve os que fizera na América. Bette Davis e Ida Lupino estavam entre suas melhores.

Uma Vida Discreta

Olivia chegou a se interessar por Howard Hugles por volta de 1939. O produtor, porém, não se empolgou com a atriz, e nesse período estaria envolvido com Katharine Hepburn. Devido à sua proximidade com ele, porém, a atriz desenvolveu a paixão pela aviação. Ela chegou a ter um romance com o diretor John Huston.

Rodeada de artistas, Olivia se casou duas vezes, com dois escritores. A primeira em 1946, com Marcus Goodrich. Os dois tiveram um filho, Benjamin (1949 – 1991) e se separaram em 1952. O segundo, com Pierre Galante, que ela conheceu durante sua viagem a Paris onde participaria do Festival de Cannes. Devido as regras de divórcio, o casal só iria oficializar a relação em 1955 e no ano seguinte nasceria sua filha Gisele.  O casal se divorciou em 1979.

Olivia com filhos e marido

Dentre suas melhores amigas no meio estava Bette Davis, que ela considerava a segunda maior estrela. A primeira, claro, era Greta Garbo. As duas estiveram juntas em quatro filmes. sendo o último Hush … Hush, Sweet Charlotte, de 1964.

Bastante reservada quanto a sua vida privada, Olivia geralmente não gosta de homenagens. A atriz que se despediu das telas em 1988 com o televisivo The Woman He Loved se aposentou e aparece esporadicamente em alguns eventos e programas para TV. Apesar de viver sozinha com seus cuidadores, gasta bom tempo de seu dia conversando com sua filha Gisele, que vive na América.

Olivia chegou aos 103 anos. Vive na França e assiste a poucos filmes atuais. Desde 2003 ela escreve um livro de memórias. Aguardamos ansiosamente, Olivia.

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