Reflexões sobre Jerry Lewis, o contraditório homem

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Obs. Esse relato é estritamente pessoal. Ia publicar em minha página pessoal, mas preferi me abrir com vocês aqui do Cinema Clássico. Espero que me compreendam. É apenas um desabafo sobre um comediante que aprendi a amar, mas também sobre um homem a quem não consigo fechar os olhos para muito o que fez. O texto também foi feito sem grandes correções.

Estou revendo alguns filmes de Jerry Lewis, para publicar sobre eles em meu site. Todos aqui sabem que sou uma fã dele. Desde criança. Hoje, adulta, tenho sentimentos contraditórios sobre Jerry. O homem. Nem sempre foi assim. Foi aos poucos, quando fui conhecendo um pouco mais sobre a personalidade daquele rapaz que me fazia rir quando criança. Sei de coisas muito terríveis que ele fez, e que me deixam de boca aberta. Mas de grandes atos de bondade também.

Jerry Lewis e Dean Martin

Em uma entrevista, um de seus filhos faz uma revelação que muitos já sabiam sobre o medo que sua presença podia ser capaz de trazer. E sobre o sentimento trazido quando o grande comediante deserdou  todos os filhos de seu primeiro casamento. A entrevista traz uma dor que fala mais sobre ausência de amor do que de dinheiro. Não é só a questão financeira, é a questão amorosa. Largar todos eles, parte de seu sangue e carne traz uma ferida maior, acredito. Em seus últimos tempos, foi um homem extremamente amargo, tornando-se cada vez mais difícil conviver com ele. A idade amplia tudo, as dores físicas também, eu entendo isso. Mas uma coisa não anula outra.

Para quem não sabe, o ator, falecido em agosto de 2017, deixou toda sua fortuna para sua última esposa e filha adotiva. Há outras cosias mais que eu sei, mas não gostaria de botar em pauta aqui para não colocar mais lenha na fogueira. Adianto, porém, que em nada tem a ver com a segunda esposa, que deve também ter aguentado muito.

Jerry também tinha lados bons, sobretudo durante a juventude, quando ajudou amigos que se encontravam em dificuldades, como o grande Stan Laurel. Ou crianças do mundo inteiro, através do Teleton. Graças a ele, milhares puderam ter um tratamento digno que antes não tinham. E como diretor, apesar de seu extremo perfeccionismo, por incrível que pareça, teve uma imensa paciência ao dirigir a pequena Donna Butterworth, sendo amoroso como um pai. Essas são pequenas coisas que mostram que ele também sabia ser bom.

Jerry Lewis, 1953

Não sei, tenho aqui uma pequena impressão que ele se tornou mais e mais amargo ao longo dos anos, e também após o afastamento voluntário de Dean Martin. Não que o cantor e amigo fosse um homem perfeito, de forma alguma, mas há pessoas que de alguma forma conseguem de alguma maneira acrescentar coisas boas às outras, fazê-las se sentir bem e especiais.

O Lewis pós Martin cresceu como profissional, ganhou dinheiro como ninguém, acumulou bens, se tornou um dos mais bem sucedidos empresários do mundo. Teve total, total controle sobre toda e qualquer obra sua. Mas foi se tornando, como eu disse, mais e mais ranzinza. Talvez seja uma impressão minha isso sobre o Dean, mas quem sabe?

A pergunta que fica é: como podem pessoas que nos trazem tanta alegria serem em suas vidas privadas tão diferentes do que mostram? Uma coisa anularia a outra? Teria eu a obrigação de odiar o artista por isso? Há certas coisas que diluem um pouco as facetas ruins que muitos tiveram, e se não forem tão cruéis podemos, mesmo tristes, aceitar. Acho que todos nós conhecemos milhares de exemplos de pessoas que no âmbito externo conseguem ser boas com muitos, mas no íntimo são de difícil convivência.

Adoraria mesmo era ler um livro completo sobre sua vida particular, aliada à sua caminhada como artista. Em pormenores. Talvez um gigante, de pelo menos 600 páginas desvendasse um pouco desse contraditório ator, tão querido, tão amado por muitos, e que fez tantos crescerem amando-o. Ainda me reservo ao direito de ama-lo como artista. E a ama-lo como sempre amei. Afinal, não convivi com ele.

Jerry, quem era você?

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