A Caixa de Pandora (1929)

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“Você só poderá livrar-se de mim matando-me”.

A Caixa de Pandora (Die Buschse der Pandora), G. W. de Pabst foi lançado em 1929, mas possui elementos tão eternos que poderia ter sido feito hoje. O diretor austríaco demorou um bom tempo procurando a atriz perfeita para o seu papel, e não foram poucas as possibilidades. Cogitou trazer Marlene Dietrich, mas quando viu a americana Louise Brooks, percebeu que a estava procurando no continente errado. Lá estava a sua Lulu.
Mas quem é Lulu? Segundo a Mitologia Grega, Pandora foi a primeira mulher criada por Zeus, tendo recebido dos demais deuses, conforme o que possuíam, beleza, talento, habilidades. Foi-lhe confiada uma caixa, que lhe incumbiram de cuidar e não a abrir em hipótese alguma. Desobedecendo a ordem, ela abriu-a, e viu surgir de dentro dela todos os males que afligiriam a humanidade.

Assim, como a Pandora da mitologia, Lulu tinha seus talentos dados pelos deuses-homens, que lhe cobravam, e muito, um preço alto por eles. Foi, desde o princípio, um misto de mulher explorada e Vamp. Não a Vamp já imortalizada por Theda Bara, perigosa e imoral, trazendo a desgraça para os homens. Mas uma mulher diferente, suave, moleca, e ao mesmo tempo forte. Com isso parecia conseguir tudo o que queria. Mas a qual preço?

Lulu é uma dançarina que era explorada por seu antigo chefe. O reencontro entre os dois mostra um intenso carinho da garota, ao mesmo tempo que temos um vislumbre sobre a exploração sofrida pela mesma. Ela está envolvida com Dr. Ludwig Schön ( Fritz Kortner ), um rico dono de jornal, que lhe informa que se casará em breve com uma mulher da sociedade. Lulu o ama? Provavelmente não. Mas ser deixada em nome da moral não está em seus planos. Para ela um casamento não é empecilho para continuarem juntos.

Os dois são surpreendidos pela noiva do homem. Eles rompem o noivados. E para que sua honra não seja definitivamente jogada na lama, Schön decide desposar a dançarina. Ele sente ciúmes de Lulu, sabe que não possui seu coração ou seu corpo. Ela flerta com outros homens e com a condessa Augusta Geschwitz (Alice Roberts ). A condessa é considerada a primeira personagem lésbica da história do cinema.

Alice Roberts como a condessa Anna Geschwitz

Schön sabe que não a possui. Na festa de casamento entre Lulu e o dono do jornal, ele tem um ataque de ciúme. Tenta assassina-la. Lulu escapa após mata-lo em legítima defesa, mas é julgada por assassinato. Consegue, no entanto, escapar com o filho da vítima. Os dois tornam-se inevitavelmente amantes. Segue o jogo de fugas, jogos de sedução e exploração sexual. Neste ponto nos questionamos: seria Lulu a algoz ou a vítima desta sociedade? Ela é mulher tentando sobreviver também em meio a tudo isso. Sabendo do mal que traz a quem cruza seu caminho, se torna também alguém incapaz de perceber a devastação que causa.

 

Vendo o drama, percebemos que Louise Brooks foi a escolha certa. Esta foi a primeira de três produções feitas pela atriz na Europa. A americana nascida no Kansas possuía todos os elementos chaves para a personagem. Antiga dançarina do Ziegfeld follies, dominava a presença de palco como ninguém. Se tornou um dos maiores símbolos do cinema mudo, fazendo época com seu corte de cabelo, versatilidade e coragem em aceitar personagens como esta. Filmar a Caixa de Pandora trouxe sua glória, mas o retorno aos Estados Unidos, sua ruína. Ao negar-se a dublar sua participação no filme Canary Murder Case, foi demitida da Paramount. Sem chances no cinema, voltaria-se para outros meios, tornando-se escritora. Era uma mulher à frente do seu tempo.

O teor do filme alemão era forte: sexualidade, traição, assassinato, forte tensão sexual. Tais itens fizeram com que fosse censurado durante várias décadas em alguns países. O que vemos é um erotismo bem explorado: uma mulher moderna e sexualmente livre, em consonância com a moda dos anos 20 e naturalmente sensual. O olhar de Lulu é mais sexual que mil mulheres nuas. E talvez por isto, mais perigoso.

Ao trazer a personagem, Pabst não sabia na época, mas traria alguns momentos mais memoráveis da história do cinema: no flagra em que a noiva dá em Lulu e o noivo, não temos palavras. Apenas gestos. E mesmo sem elas, entendemos perfeitamente que a dançarina conseguiu tudo o que queria. Isto nos faz pensar na necessidade da palavra que tudo explica. No cinema mudo não a tínhamos, e a expressão deveria cobrir sua necessidade. O bom filme mudo é aquele que necessita de poucos intertítulos, que por si só traz toda a carga interpretativa. Em A Caixa de Pandora isso funciona bem, pois temos a mão afiada de um bom diretor e uma atriz que domina as telas perfeitamente.

 

* A Caixa de Pandora está sendo lançada pela Obras Primas do Cinema através do Box Expressionismo Alemão. Além deste filme, o box traz também Fausto (1926), O Castelo Vogelöd (1921), A Morte Cansada (1921), O Gabinete do Dr. Caligari (1920) e mais de 2 horas de extras. Você pode adquiri-lo clicando na imagem abaixo:

 

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