Folhas Mortas (Autumn Leaves, 1956)

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Joan Crawford não teve uma educação formal. Mas era uma bela garota, bem intencionada, dançava bem e depois de muita luta recebeu a oportunidade de entrar no funilado mundo do cinema. Não era uma atriz, mas naquele período, um belo rosto muitas vezes contava mais pontos do que uma bela interpretação.

Nascida em um ambiente disfuncional, Crawford, no entanto, agarrou cada oportunidade que teve para melhorar como profissional e chegou ao status de uma das maiores divas do cinema. Mas não foi só isso. Apesar de muitos não considerarem uma boa atriz (talvez por não verem seus filmes), considero-a uma daquelas que foram melhorando a cada trabalho que recebiam. Uma prova é Folhas Mortas, filme dirigido por Robert Aldrich, e que a mostra como uma atriz completa.

Ela interpreta a solitária datilógrafa Milly. Ela poderia se considerar uma mulher independente, que tem seu trabalho e que vive dignamente. Mas estamos falando na década de 50: Milly já está na meia idade, conformada com sua solidão, mas que não deixa por isso de sentir-se triste por seus dias e noites interminavelmente sós. Aparentemente sua vida parece que terá esse roteiro até o fim, mas o inesperado acontece e ela conhece o jovem e insistente Burt Hanson (Cliff Robertson).

Após muita tensão, ela resolve jogar tudo pro alto e viver o romance, casa-se com Burt e começa a ser feliz ao lado de um rapaz doce, carinhoso e que não se cansa de lhe presentear com pequenos mimos. Mas parece que as coisas não são bem assim tão perfeitas, quando ela um dia recebe a visita de Virginia Hanson (Vera Miles), a primeira esposa de Burt. Unindo várias informações, Milly descobre que o marido talvez não seja a pessoa quem diga ser.

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Dentre as mentiras descobertas estão o fato dele ter sido casado, obviamente, e ter um pai que jurara estar morto. No início, nós e Milly somos levados a crer que o problema do rapaz é de caráter mesmo. Mas aos poucos percebemos que o buraco é mais embaixo: Burt é um jovem que sofreu sérios traumas e abusos emocionais, e que será muito difícil para nossa heroína escolher se manda-o para um sanatório (e corre o risco de perdê-lo) ou o mantém doentiamente ao seu lado (e o vê morrer a cada dia).

O que era um romance aparentemente focado apenas na idade dos protagonistas, se torna um retrato também da maneira como as pessoas com problemas mentais eram tratadas na época, mostrando inclusive os temidos tratamentos de choque. Em Folhas Mortas temos alguns flashes do tratamento dado ao rapaz, mas trazendo um viés quase romântico desses depósitos de vida que muitas vezes adoeciam mais do que curavam.

**FINAL DE SPOILERS E CONSIDERAÇÕES FINAIS **

Joan Crawford amou participar desse filme, e essa paixão com que se entregou à personagem fica evidente em sua performance. Ela rouba todas as cenas em que aparece, seja pela beleza (vale lembrar que ela tinha cerca de cinquenta anos e estava lindíssima), seja pela interpretação da dolorosa e carente Milly.

Cliff Robertson estava no início da carreira, era 17 anos mais jovem que Joan, e evidentemente menos experiente. Percebe-se claramente a discrepância entre os dois. Ele não consegue trazer em certos momentos a carga dramática que seu papel exigia. Mas nada que prejudique o desenvolvimento do roteiro escrito pelo casal Jean Rouverol e Hugo Butler e maravilhosamente dirigido por Aldrich. O diretor, também foi um pouco injustiçado em sua carreira e acabou sendo mais lembrado por ter dirigido a mesma Crawford e Bette Davis em  O Que terá acontecido com Baby Jane?.

É uma pena que na época do lançamento não tenha tido tanto sucesso, mas é um filme que com certeza merece ser reviso com carinho, pois traz um viés bastante moderno sobre a relação entre uma mulher mais velha e um jovem. Folhas Mortas tira sabiamente o foco do romance entre pessoas de diferentes idades para algo que realmente interessa: a decisão de continuar ou não ao lado dele por causa de um motivo justo. Tudo isso ocorre enquanto ouvimos exaustivamente a música que acabou dando título ao filme: Autumn Leaves, na voz grandiosa de Nat ‘King’ Cole e ficaremos com ela na cabeça o resto do dia.

É um filme que merece ser visto com carinho por tratar de assuntos extremamente importantes. Principalmente sobre a esperança de dias melhores, se você for otimista.

Folhas Mortas está sendo lançado em dvd pela Classicline e pode ser adquirido clicando-se na imagem abaixo:

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