O Ponteiro da Saudade (1945)

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A maneira apaixonada como a câmera de Minnelli olha para Garland tem uma explicação lógica: os dois nesse período estavam iniciando um romance. A atriz que adorava ser dirigida por ele chegou a declarar na época que Minnelli tinha a magia de deixá-la bela nas telas e extrair uma ótima interpretação.

E de fato a atriz está mais livre do que nunca. No auge dos seus 22 anos ela já gozava do status de uma das atrizes mais promissoras de sua geração. Ainda impactada pelo sucesso de O Mágico de Oz, ela era reconhecida tanto por suas interpretações de adolescentes que todos os pais desejariam ter em casa como por sua voz aveludada. Sucesso também nas rádios, a jovem atriz rodava o país fazendo apresentações nos lançamentos de seus filmes.

Mas Judy Garland tinha um problema. Atrizes de sua idade como Lana Turner e Deanna Durbin, que começaram as carreiras na mesma época que ela, já estavam a fazer papéis mais adultos enquanto ela permanecia fazendo sempre adolescentes. Foi somente quando ela forçou um casamento com o músico David Rose que ela conseguiu ser vista como uma mulher de fato.

Em 1944 o casal já estava separado e a atriz iniciava o romance com o diretor Vincente Minnelli. O Ponteiro da Saudade vinha para firmá-la como uma adulta e sucessos adolescentes como Calouros da Broadway e Sangue de Artista ficavam para trás. Minnelli foi ainda mais audacioso a realizar um filme com Judy Garland em que ela não canta. Na verdade há uma cena em que Joe começa a cantar uma música e pergunta a Alice se ela sabe cantar. O espectador até espera que ela comece, mas daí temos a surpresa de sua personagem balançar a cabeça indicando não cantar.

Joe é um soldado que tem apenas 48 horas de licença. Na Estação da Pennsylvania ele conhece Alice, uma jovem que tropeça e deixa cair seu salto quebrado. Sem destino definido, ele acompanha Alice por Nova York, passeando por locais conhecidos, como o Central Park e o Museu Metropolitano de Arte. Após se separarem em um metrô, eles tentam freneticamente se reencontrar, sem ao menos saber os seus sobrenomes. Unidos novamente, eles terão que correr contra o tempo e um labirinto de burocracias para conseguirem se casar.

Inicialmente Fred Zinnemann foi contratado para dirigir o filme, mas cerca de um mês depois foi retirado das filmagens a pedido de Garland que não concordava com seu modo de direção. Veio dela o pedido para incluir Minnelli que já a tinha dirigido em Meet Me in St. Louis. As cenas realizadas por Zinnemann foram descartadas e o diretor contratado refez tudo desde a primeira cena, reformulando o roteiro. Foram revisadas cenas e roteiros, e incorporada Nova York como o cenário principal, quase como um personagem de destaque. Além disso Minnelli reformulou todo o guarda-roupa de Judy Garland, sua maquiagem e cabelos.

Como curiosidade vale citar que os produtores Arthur Freed e Roger Eddens, assim como o roteirista Robert Nathen aparecem em cameos ao longo do filme. Robert Walker ainda galgava seus primeiros sucessos e na época sofria por Jennifer Jones, que o abandonara para viver com David O. Selznick, se entregando ao alcoolismo. Garland, que também tinha seus próprios problemas com os remédios, o encontrou diversas vezes bêbado nos bastidores.As filmagens foram realizadas totalmente nos estúdios MGM, que construiu os cenários baseados em Nova York.

O público cativo dos musicais ficou bastante decepcionado ao perceber que Judy não cantava no filme, mas também ficaram surpresos com seu desempenho dramático. A atriz só iria fazer outro drama novamente em 1961, com Julgamento em Nuremberg. Apesar de não ter sido um grande sucesso como foi Meet Me in St Louis teve um lucro respeitável. Mas havia uma explicação lógica para isso: com o fim da segunda guerra, esse era um assunto que o público não queria mais ouvir falar. A crítica especializada, no entanto, aprovou o desempenho dos atores e chegou-se a comentar o quanto ela tinha evoluído como atriz.

No dvd lançado no Brasil pela  Obras Primas do Cinema temos ainda o curta We Must Have Music e comentários de Richard Brody, além de um card do filme.

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